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DANIELA ARAUJO – A comunicação como direito inalienável

A Bem TV atua na formação de jovens das periferias de Niterói e São Gonçalo, fortalecendo-os para que enfrentem a desigualdade e o racismo


Daniela Araujo: “A comunicação precisa estar alinhada aos interesses da comunidade, senão se torna uma ferramenta alienante”. Foto: Bem TV/Divulgação.

Por Maria Ligia Pagenotto, Rede Galápagos, São Paulo

Em 1992, um grupo de estudantes de Comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF), percebendo-se privilegiado, decidiu compartilhar com moradores de comunidades o conhecimento conquistado em uma universidade pública. Assim nasceu a Bem TV, com muita garra e nenhum dinheiro, realizando oficinas de audiovisual com adolescentes e jovens de territórios periféricos dos municípios de Niterói e São Gonçalo (RJ). Nesses 28 anos, muita coisa mudou, mas permanece cada vez mais viva a ideia inicial, de garantir o direito à comunicação a pessoas em situação de vulnerabilidade social. “Há uma disputa de narrativas em jogo o tempo todo em nossa sociedade. Trabalhamos para que esses jovens se sintam capazes de construírem suas próprias narrativas”, diz Daniela Araujo, 36 anos, coordenadora executiva da Bem TV ao lado de Paula Latgé.

Nascida e criada no Morro do Preventório, uma das comunidades em que a Bem TV atua desde 1999, Daniela formou-se em jornalismo e é mestre em educação. Seu caminho provavelmente teria sido outro se não tivesse cruzado com a organização aos 14 anos. Jovens como ela, pobres, negros e periféricos, contam com pouco apoio quando precisam ingressar no mercado de trabalho. Para transformar essa realidade, a Bem TV mantém oficinas de mídia com ênfase na formação crítica, desenvolve projetos de geração de renda e atua junto a escolas para promover debates sobre políticas de educação. Nessa entrevista, Daniela conta como funciona a instituição e aponta alguns desafios que enfrenta.

NNotícias da Educação – Quais são os conceitos básicos que norteiam a Bem TV?

DDaniela Araujo – Atuamos multidisciplinarmente, com vários temas transversais. A comunicação, para nós, é entendida como um direito humano inalienável, fundamental para a construção do sujeito, da identidade coletiva e para o que a gente chama de disputa de narrativas. A noção de comunicação como direito humano passa por entender que a grande mídia trabalha a notícia com uma certa definição de verdade. Estimulamos a desconstrução da verdade absoluta. Há uma disputa de narrativas o tempo todo e esses jovens periféricos também podem construir suas narrativas. Embora eles sejam “só” moradores de periferias, eles são muitos e chegam onde a grande mídia não chega com tanta sensibilidade. Eles têm um poder enorme. A comunicação precisa estar alinhada aos interesses da comunidade, senão se torna uma ferramenta alienante.

NComo tem sido o trabalho com esses temas desde o início? Muita coisa mudou na organização?

DNo início, era Bem TV-televisão comunitária, trabalhando junto às periferias com audiovisual como ferramenta para garantir direitos que eram mais prementes na época, como a posse da terra e habitação. Nos anos 2000, a Bem TV se firmou como uma organização que atua com a juventude. Isso foi uma consequência do próprio trabalho, pois sempre estivemos muito próximos dos jovens e das articulações que foram se estabelecendo a partir daí, como a aproximação com as escolas. Dessa forma, além das questões que envolvem a comunidade, temas universais relacionados ao que chamamos de “território juventude” (racismo, trabalho, educação, cultura, renda, violência) passaram a estar cada vez mais presentes na Bem TV. Para tratar a fundo essas questões, fizemos algumas mudanças. A mais importante foi a construção de uma metodologia que se consolidou em 2003 com o nome de “Olho Vivo”, voltada exclusivamente para a formação. Com esse viés, alicerçado nos conceitos de educação popular, são oferecidas oficinas para jovens (de 16 a 29 anos) de comunidades de baixa renda de Niterói e São Gonçalo. E, também, assessoria a grupos denominados “Jovens Comunicadores”, dedicados à geração de renda e ao desenvolvimento e manutenção de mídias alternativas. As oficinas vão sempre além da formação técnica: queremos contribuir com a formação de jovens para que sejam competentes em suas áreas de atuação, mais críticos e comprometidos com uma sociedade justa.

“Queremos que eles pensem a ferramenta, seja fotografia, vídeo ou aplicativo, para além da técnica”

NDe que forma vocês estão estruturados para atingir esses objetivos?

DAtuamos em algumas frentes, como o levantamento da memória da comunidade, pesquisa, diagnóstico e intervenção. A ideia é estimular um olhar crítico, chamando atenção para temas relevantes. Oferecemos três cursos, que duram cerca de seis meses, com mais de 200 horas: vídeo, fotografia e desenvolvimento de aplicativo. Cada aluno passa pelo processo de aprendizagem da linguagem daquela mídia. Mas não só, pois vamos costurando a formação técnica com outros conteúdos que julgamos relevantes. Trabalhamos com dados de pesquisas e notícias. Queremos que eles pensem a ferramenta para além da técnica. Temos como referências bibliográficas autores que pensam a educação para além da escola, como Paulo Freire. No total, desde a implantação do projeto “Olho Vivo”, 3 mil jovens receberam a formação. Em geral, ficamos em contato por um ano, pelo menos. São seis meses de curso mais um período de apresentação de trabalhos. Muitos permanecem conectados conosco por anos ou chegam a compor nossa equipe.

NComo os jovens recebem essa formação? Quais são os desdobramentos a partir desses aprendizados?

DPara eles, de início, o que pesa é a qualificação técnica. A preocupação com a formação crítica parte de nós. Mas, a partir do momento em que eles entendem a proposta, a adesão é grande. Vemos que os jovens mudam o olhar para suas comunidades. Eles passam a construir a narrativa do lugar onde vivem, numa perspectiva diferente daquela que costuma pautar a mídia. Esse é o grande diferencial dessa metodologia. E foi a partir do maior interesse deles por essa formação que o “Olho Vivo” incorporou a assessoria para jovens comunicadores. O curso chega ao fim, mas existe a possibilidade de o projeto seguir, como uma ação continuada.

“Nossos objetivos são dar continuidade, mesmo no período de quarentena, ao trabalho de formação, garantir o direito à informação e assegurar o direito constitucional de proteção e dignidade”

NA pandemia evidenciou ainda mais as desigualdades e trouxe novos desafios. Como refizeram o trabalho de formação nesse contexto?

DRepensamos estratégias para manter os jovens próximos e seguros, ainda que remotamente. Desenvolvemos uma ação emergencial unindo saúde e comunicação. Trata-se de um projeto de educação popular, que conta com apoio da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Lei de Incentivo Municipal e o programa Missão em Foco, do Itaú Social, com oferta de bolsa. A proposta tem o mesmo nome da ação de assessoria que já acontecia naturalmente depois da formação via “Olho Vivo”: “Jovens Comunicadores”. Os participantes levam informação de qualidade sobre o coronavírus e saúde de forma geral para as comunidades. Eles é que produzem os conteúdos, com apoio de profissionais da comunicação e da saúde. Adquirem conhecimento, aprendem a checar dados e informações, têm aulas sobre edição de vídeos e de imagens e noções de jornalismo. A formação on-line consiste em duas semanas de encontros diários, que depois vão se espaçando.

NQual o alcance e o impacto desse projeto nas comunidades?

DComeçamos com 60 jovens de São Gonçalo e Niterói e agora estamos com 500 jovens, em 24 comunidades. A formação dura três meses, e cada jovem recebe, por mês, uma bolsa de 250 reais. Cada comunicador constrói nesse período uma linha de transmissão de informações pelo WhatsApp, adaptando as notícias para uma linguagem popular. A informação é transmitida para um grupo de 256 pessoas. Conseguimos atingir 128 mil moradores. Nossos objetivos são: dar continuidade, mesmo no período de quarentena, ao trabalho de formação da Bem TV; garantir às pessoas em situação de vulnerabilidade social o direito à informação sobre a Covid-19 e sobre programas e serviços públicos de assistência; divulgar boas práticas; e assegurar o direito constitucional de proteção e dignidade a partir da bolsa. Para alcançá-los, contamos com muitos apoios, articulados junto à Frente Papa Goiaba de Promoção dos Direitos da Juventude Negra, que atua em uma rede de 34 organizações diretamente com a população negra.

“ As oportunidades de trabalho que buscamos precisam ser também um espaço para ampliação do conhecimento”

NComo é o trabalho em relação à empregabilidade dos jovens?

DHá alguns anos, criamos a Central Solidária de Oportunidades, uma plataforma na qual os jovens se inscrevem. Tentamos encaminhá-los para o mundo do trabalho, dentro da comunicação, que é a nossa expertise. Entendendo que essas oportunidades têm que ser também um espaço de ampliação do conhecimento – não queremos que só a renda conte. Não nos propomos a encaminhá-los para redes de fast food ou de call center.

NComo é a relação com as escolas? Conseguem avaliar a repercussão do trabalho desenvolvido pela Bem TV no rendimento escolar?

DJá tivemos uma parceria mais formal com escolas entre 2003 e 2009, inclusive atuando em projetos de formação de professores. Hoje temos muita proximidade com a Secretaria Municipal de Educação de Niterói e fazemos parcerias com escolas que estão nos territórios onde trabalhamos. Alguns educadores percebem que os jovens que se envolvem com os projetos da Bem TV são mais comprometidos com a escola também.

NQuais são os maiores desafios que a Bem TV enfrenta hoje?

DFaltam políticas públicas e financiamento para projetos de formação que fortaleçam os jovens periféricos para enfrentar a desigualdade, o racismo e a dificuldade de ingresso no mercado de trabalho. Sentimos que há uma certa resistência em apoiar instituições para que façam investimentos nesses territórios. Muitas vezes os recursos são destinados, por exemplo, para ações assistencialistas. Mas também é importante promover formação crítica e engajada com as transformações sociais. E a formação é algo complexo, você não conclui com uma ação, é um processo. Vivemos em territórios muito contraditórios, precisamos de recursos para enfrentar diversos problemas. Niterói, por exemplo, tem um IDH altíssimo, com grande concentração de renda e muita desigualdade. Fizemos uma pesquisa sobre empregabilidade da juventude negra em Niterói e São Gonçalo e identificamos que São Gonçalo, apesar de ser quatro vezes maior, muito mais pobre, com muito mais negros, tem menos desigualdade. Em Niterói, tem uma elite riquíssima e um racismo estrutural muito forte, com grande impacto sobre a juventude periférica que tenta ingressar no mercado.

NConte um pouco sobre sua trajetória na Bem TV, de aluna a coordenadora da organização.

DEstou na organização desde 1999, comecei com 14 anos. Fiz o curso de produção audiovisual, mas meu sonho era ser bióloga. Fiquei fascinada pela comunicação comunitária e fui fazer jornalismo. Em 2005, me ofereci como voluntária na organização, querendo replicar o que eu havia aprendido lá. Comecei a dar aula para uma turma e isso me estimulou a fazer o mestrado em educação, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Em 2009, assumi a coordenação. Vim da comunidade, sofri racismo, mas nem sempre eu soube identificar isso, pois fui muito protegida pela minha mãe, que era negra e uma liderança comunitária no Morro do Preventório. Consegui quebrar diversas barreiras e devo isso à formação que recebi. Eu ia trabalhar numa rede de fast food quando consegui o trabalho na Bem TV graças ao empenho da fundadora, a Márcia Castro. Fui a primeira pessoa da minha família a entrar numa universidade e uma das primeiras da minha rua. Apesar do cabelo crespo e das feições negras, por ter a pele mais clara, sofri menos do que outros jovens. Mesmo assim, em relação à empregabilidade lá no início, se não fosse a Bem TV, eu teria seguido outro rumo. Portanto, se não houver comprometimento com essas questões na luta contra o racismo, vamos avançar muito pouco socialmente.

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