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Da base para o topo

Pesquisa internacional acompanhará por dez anos experiências de escolas que superam adversidades para promover a educação integral


Na Escola Municipal Professor Paulo Freire, em Belo Horizonte, a monitora da horta Adalgisa Laura Correia prepara cestas de alimentos para as famílias vulneráveis da comunidade: entre as escolas transformadoras que serão estudadas pelo programa Escolas2030. Foto: Aline de Freitas Donato

Por Ferdinando Casagrande, Rede Galápagos, São Paulo

Quando a pandemia de Covid-19 fechou as escolas, em março deste ano, professores e diretores em todo o Brasil se viram diante do desafio de ensinar de forma remota. Na Escola Municipal Professor Paulo Freire, na periferia de Belo Horizonte (MG), a equipe docente tinha uma preocupação a mais: era preciso garantir a alimentação dos jovens e crianças mais vulneráveis. Rapidamente, professores e funcionários organizaram a distribuição de alimentos da merenda escolar e se mobilizaram para conseguir doações de merenda excedente em outras escolas. A direção, por sua vez, acionou voluntários de uma empresa parceira para arrecadar complementos para as cestas básicas que seriam distribuídas pela prefeitura. Numa terceira frente, a equipe escolar incluiu nas cestas os legumes e verduras que estavam prontos para a colheita na horta da escola. Em pouco tempo, a união de todos garantiu a segurança alimentar das famílias, antes mesmo que um sistema de aulas remotas estivesse organizado. “Nós entendemos que também é papel da escola acolher a comunidade à qual ela pertence”, explica Érika Cecílio, coordenadora do Escola Integrada, programa que oferece atividades extracurriculares no contraturno. “Escola não é lugar só de conteúdo. A criança é um ser integral e precisamos cuidar dela em todos os aspectos da vida.”

“Escola não é lugar só de conteúdo. A criança é um ser integral e precisamos cuidar dela em todos os aspectos da vida”

Érika Cecílio, coordenadora do Escola Integrada na Escola Municipal Paulo Freire (Belo Horizonte)

A resposta da equipe à emergência da pandemia ajuda a entender por que a Paulo Freire foi escolhida para integrar o programa Escolas2030, uma das maiores iniciativas de pesquisa educacional já implementadas em países do Sul Global. Focado em avaliação, desenvolvimento e disseminação de boas práticas para a educação de qualidade de crianças e jovens, o programa vai acompanhar mil escolas espalhadas por dez países por um prazo de dez anos. “A ideia é que as organizações educativas apontem os indicadores de uma educação de sucesso para garantir aos jovens o que é fundamental para uma ação positiva na sociedade”, resume Helena Singer, vice-presidente da Ashoka América Latina e uma das coordenadoras do Escolas2030. “Vamos trabalhar dentro da perspectiva da Educação Integral por entendermos que as práticas mais proveitosas são aquelas que abrangem a maior variedade de aspectos da vida”, completa Elie Ghanem, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) e também coordenador do programa.

“O Escolas2030 inverte a lógica das políticas educacionais propostas do topo para a base”

Elie Ghanem, professor da Faculdade de Educação da USP

Referenciado no Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4 (ODS4) da Organização das Nações Unidas, o Escolas2030 tem a pretensão de influenciar políticas educacionais globais. Com dois grandes diferenciais, porém, em relação às fórmulas já existentes. “O programa inverte a lógica das políticas educacionais propostas do topo para a base”, afirma Elie Ghanem. “Ele cria condições para que as práticas com bons resultados emerjam exatamente das bases, das organizações que estão atuando com os educandos.” O segundo diferencial está no fato de se tratar de uma articulação internacional nos países do Sul Global. “Hoje, todas as ferramentas mundiais de avaliação da qualidade da educação, da aprendizagem, são formuladas nos países do norte”, aponta Helena Singer. “A visão e a filosofia são impostas para os demais países como referência a ser seguida, sem valorizar o que é específico dos países do sul.”

Escolas transformadoras
No Brasil, a implantação do Escolas2030 é liderada pelo Itaú Social, em parceria com a organização social Ashoka e a Faculdade de Educação da USP. A implementação começou no final de 2019, com a definição de 14 organizações educativas e escolas que funcionarão como polos regionais do programa. O objetivo é chegar a cem instituições participantes. Para encontrar as boas práticas, os coordenadores estão recorrendo a fontes variadas. “Um dos pontos de partida é um levantamento de 180 organizações educacionais inovadoras, que foi realizado pelo MEC em 2015”, explica Ghanem. “Várias dessas organizações compõem o movimento de escolas transformadoras, apoiado pela Ashoka.” 

Uma das premissas determinadas pelo programa internacional é a de que as organizações escolhidas trabalhem com crianças e jovens em situação de vulnerabilidade. “No Brasil, optamos por excluir apenas as organizações que cobram mensalidades, considerando que todas as escolas públicas e organizações comunitárias estão abertas a atender também às pessoas em situação de vulnerabilidade”, afirma Helena Singer. “Estamos trabalhando com escolas públicas e comunitárias gratuitas, e o único compromisso que pedimos é o de manter a pesquisa pelo prazo de dez anos.” 

Pesquisa-ação
O formato escolhido para o trabalho de coleta de evidências foi o da pesquisa-ação, um procedimento que é, ao mesmo tempo, um processo de aprendizagem e de ação. Orientados pela equipe da USP, professores, gestores e funcionários das escolas e organizações educativas participantes serão os pesquisadores de seu próprio trabalho. “Trata-se de uma modalidade de investigação social que pode ser entendida como uma atuação, uma ação reflexiva”, explica Elie Ghanem. “São pessoas e grupos que, ao mesmo tempo em que agem, pesquisam sobre sua própria ação.”

Caberá aos educadores indicados pelas escolas identificar e coletar os dados gerados pelas experiências, e que serão analisados em conjunto com os pesquisadores da USP. “É o que chamamos de aprender agindo, e agir aprendendo, conhecendo, investigando”, resume Elie Ghanem. “Vai ser um grande aprendizado, porque muitas vezes eu me pergunto: o que será que estamos fazendo de diferente na Paulo Freire para chamarmos tanto a atenção?”, afirma a professora Érika Cecílio, que foi escolhida para representar a Escola Municipal Paulo Freire no Escolas2030. “Envolvidos no dia a dia, nós não conseguimos ter essa visão do processo, e com o Escolas2030 vamos poder desenvolver esse olhar.”

“Se conseguirmos mesmo essa articulação em todo o Brasil, teremos num prazo curto uma massa crítica de organizações, de escolas e de secretarias com boas experiências, conhecimentos e ferramentas para garantir a educação integral

Helena Singer, vice-presidente da Ashoka América Latina.

Alcance 
Embora seja formatado para durar dez anos, o programa não pretende esperar todo esse tempo para apresentar resultados. Os pesquisadores dos dez países integrantes se reunirão anualmente para compartilhar aprendizados e sistematizar conhecimentos que possam ser aproveitados por todos. O objetivo é potencializar os resultados para atingir, ainda que indiretamente, 10 milhões de educandos e 2 milhões de professores (leia box sobre o programa internacional). 

Da mesma forma, no Brasil, os coordenadores do Escola2030 querem formar redes permanentes de troca de experiências. “Estamos trazendo desde o início as secretarias municipais e estaduais de educação para o programa, para que as aprendizagens não fiquem restritas às cem  escolas pesquisadas”, informa Helena Singer. Undime e Consed, entidades que articulam, respectivamente, as secretarias municipais e estaduais de educação, acompanham o projeto. “Queremos que as secretarias envolvam suas redes de ensino desde o início porque, se conseguirmos mesmo essa articulação em todo o Brasil, teremos num prazo curto uma massa crítica de organizações, de escolas e de secretarias com boas experiências, conhecimentos e ferramentas para garantir a educação integral.”

Programa será implantado em dez países


O Escolas2030 nasceu na Divisão de Desenvolvimento da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Essa divisão mantém uma rede de fundações voltadas para a área social em todas as partes do mundo chamada Net Forward (NETFWD). E foi no grupo voltado à educação que o programa começou a ganhar forma. “Nós fomos desafiados a pensar em maneiras de envolver mais as escolas no desenvolvimento e na coleta de evidências sobre estratégias inovadoras de educação que consigam cumprir os objetivos de aprendizagem com equidade para todos”, lembra Patricia Mota Guedes, gerente de Pesquisa e Desenvolvimento do Itaú Social, que integra o NETFWD.

As ideias trazidas pelo grupo ganharam forma e impulso sob a liderança do britânico Andrew Cunnigham, líder global em educação da Aga Khan Foundation, uma fundação internacional sem fins lucrativos criada em 1967 para promover o desenvolvimento em comunidades pobres do mundo. Doutor em Educação pela Universidade Oxford, Cunnigham trilhou uma trajetória internacional que incluiu a experiência de fundar uma Instituição de Educação Secundária para Mulheres em Muhuru Bay, no Quênia, onde viveu por dois anos durante a implementação do projeto. Essa experiência, complementada por suas passagens pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e pelo Banco Mundial, ajudou a moldar o perfil internacional do Escolas2030, que será implementado simultaneamente no Brasil, no Afeganistão, na Índia, no Paquistão, em Portugal, no Quênia, no Quirguistão, no Tajiquistão, na Tanzânia e em Uganda. 

“É uma oportunidade de dar voz aos professores, gestores e demais membros das comunidades escolares, fundamentais para o sucesso de qualquer transformação mais sistêmica e perene na educação”

Patricia Mota Guedes, gerente de Pesquisa e Desenvolvimento do Itaú Social

Em todos esses países, o programa será coordenado pela Aga Khan Foudantion, Dubai Cares, IKEA Foundation, Porticus, Jacobs Foundation, The LEGO Foundation, OAK Foundation e Wellspring Philanthropic Fund. No Brasil a coordenação foi assumida pelo Itaú Social. “Nós conduzimos uma pesquisa nacional chamada Profissão Docente, em 2018, na qual a grande maioria dos professores afirmou não se sentir ouvido na formulação de políticas ou programas educacionais”, explica Patricia Mota Guedes. “Enxergamos no Escolas2030, com esse desenho de buscar evidências que possam subir da base para o âmbito da política pública, uma oportunidade de dar voz aos professores, gestores e demais membros das comunidades escolares, fundamentais para o sucesso de qualquer transformação mais sistêmica e perene na educação.”