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Administradora pública, especializada em educação alimentar, fala sobre a importância de medir o impacto dos projetos


Alimentos orgânicos produzidos por agricultores familiares da região de Sorocaba (SP): segurança alimentar é o foco de projetos da administradora Erika Fischer. Foto: Caco de Paula/Galápagos

Por Kadija de Paula, Rede Galápagos
Depoimento de Erika Fischer, natural de Porto Alegre (RS) e residente em Florianópolis (SC), consultora de sustentabilidade e gestora de projetos em primeira infância, responsabilidade social, desenvolvimento local e segurança alimentar — e cursista do Polo

Administradora pública de formação, desempenhei atividades em diversas áreas, dentro e fora do setor público. Há mais de dez anos trabalho principalmente com projetos de educação e segurança alimentar. Em 2009 me aproximei do terceiro setor, na área de desenvolvimento de comunidades rurais e populações excluídas do mercado produtivo. Foi quando conheci a legislação que fomenta a aquisição de produtos de agricultura familiar para a alimentação escolar. A Lei nº 11.947 determina que 30% do valor repassado para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) deve ser investido na compra direta de produtos da agricultura familiar. 

Do outro lado do balcão, como gestora de projetos de desenvolvimento local, eu procurava formas de os agricultores terem um canal seguro de venda de seus produtos. Após essa experiência e contato com a perspectiva legal, fui convidada para coordenar o programa de alimentação escolar da cidade de São Paulo. Então, em 2013 eu pulei o balcão, justamente com essa expectativa de que a cidade de São Paulo conseguisse responder a esse critério de compra de agricultura familiar. Liderei essa coordenadoria durante três anos, nos quais muitas coisas boas aconteceram. São Paulo finalmente conseguiu emplacar a compra de agricultura familiar, e, entre outras coisas, conseguimos estabelecer alguns eixos prioritários de ação na educação alimentar e nutricional e no envolvimento das comunidades educacionais. 

O programa de alimentação escolar da cidade de São Paulo é um programa maduro, cuidadoso e transparente. Sua estrutura zela pela participação de nutricionistas na escolha dos ingredientes, o que leva o programa a estar sempre na vanguarda de testes e compras. Isso me ajudou a estabelecer a compra da agricultura familiar, que era o meu principal objetivo, mas além disso conseguimos melhorar a educação alimentar e nutricional a partir da alimentação escolar, trabalhando junto com as disciplinas do currículo e melhorando a questão do preparo dos alimentos. Trabalhamos junto com as merendeiras e com as próprias empresas de fornecimento de alimentação para variar a composição e melhorar a preparação de pratos. Outro eixo de trabalho foi a ampliação da governança, abrindo portas para a participação da sociedade civil para parcerias que pudessem melhorar o programa como um todo.

Na área de educação alimentar, um projeto muito bonito foi um concurso de alimentação que desenvolvemos com o apoio da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, da ONU e diversos órgãos. O concurso culminou em uma receita para ser produzida por uma merendeira nas escolas. Então a merendeira acabou virando a grande artista pop star do projeto, e isso levou a mudar a própria relação das crianças com as merendeiras. Isso por exemplo é um projeto cujo impacto eu gostaria de medir, porque foi uma revolução na rede. Todo mundo participou, porque com essa parceria com a ONU o primeiro prêmio levou algumas merendeiras para a África, numa missão diplomática em que elas contaram sobre o programa. Houve um grande engajamento nesse prêmio, que na verdade foi um projeto que durou um ano, desde o desenvolvimento de comitês nas escolas. Acredito que isso tenha modificado muito a relação das escolas com a alimentação escolar.

Seria interessante medir o impacto desse projeto, mas nunca consegui, porque não tinha uma estrutura montada para isso. Talvez tenha sido aí que encontrei uma maior necessidade de monitoramento. Todo projeto que se propõe a promover mudanças tem que ser monitorado. Quando você fala que vai mudar alguma coisa, tem que mostrar, e como é que você vai medir isso? A avaliação e o monitoramento das políticas públicas precisam ser fomentados. Principalmente por causa da escala. Ao mesmo tempo que pequenas mudanças podem afetar milhões, o gigantismo da ação também pode afastar a liderança de uma visão estratégica, se não houver uma metodologia de documentação, registro e relato da implementação. Ou seja, você pode tanto trazer um grande benefício se a sua intervenção estiver correta como um grande desperdício de recursos ao não monitorar. 

Erika Fischer: desde 2009, trabalha com a legislação que fomenta a aquisição de produtos de agricultura familiar para a alimentação escolar. Foto: Arquivo pessoal

Hoje eu trabalho com uma organização internacional, a Inmed Partnership for Children, que tem um braço aqui no Brasil. A Inmed Brasil tem um foco de trabalho com crianças a partir das escolas e se concentra na questão da saúde, através da promoção da alimentação saudável. Estou lá muito graças a minha experiência com alimentação escolar, mas atualmente essa missão se expandiu para além das crianças e inclui comunidades vulneráveis na questão da segurança alimentar. Lá, eu desempenho uma função de promover o desenvolvimento da organização, o que envolve muitas coisas diferentes: desde a articulação com os setores, com os parceiros que já estão presentes, ou que podem vir a estar, até a identificação de oportunidades, o desenho e a escrita dos projetos, a definição de indicadores e instrumentos de monitoramento. 

Respeito muito o trabalho do Itaú Social e sempre transito pelo Polo, seu ambiente de formação, para ver o que estão oferecendo. Já conhecia o curso Avaliação Econômica de Projetos Sociais e Políticas Públicas e, apesar de já ter bastante experiência com gestão, me interessei pelo curso Monitoramento para OSCs. Primeiro porque estava curiosa para entender a proposta, para conhecer a linguagem e o formato. Gostei muito da plataforma, interativa e rápida, e do conteúdo do curso. É um bom passo a passo de como implementar o monitoramento de maneira factível e útil, a partir de um planejamento de coleta e análise de dados para uma reflexão estratégica com base em dados e evidências. Recomendei o curso para outras pessoas, que também gostaram. Sugiro que o Polo elabore um segundo curso que abarque uma metodologia de seleção de amostras e definição de metas, de acordo com diferentes contextos para além dos indicadores quantitativos. Porque o mais difícil do monitoramento é medir os indicadores qualitativos e o impacto. O resultado é uma coisa, e o impacto é outra. O monitoramento é uma soma de diversos instrumentos. 

Por exemplo, hoje a Inmed atua em um projeto com crianças na cidade de Pombos e no Recife, em Pernambuco, e em Tucumã, no Pará. Uma forma de monitoramento que usamos nesse projeto é a própria repercussão nas mídias sociais. Convidamos os participantes a depor sobre sua experiência e, à medida que eles compartilham essas informações, fazemos postagens a partir de um plano de comunicação que visa divulgar os resultados do projeto. O que as pessoas têm a dizer é um indicador de engajamento, por exemplo. Agora, se a minha proposta é engajar muita gente, falar sobre o tema sem saber exatamente aonde vou chegar, é aconselhável fazer um indicador mais simples, mais quantitativo, coletar a quantidade de pessoas, por meio de lista de presença, fotografia, imagens. 

O monitoramento está diretamente relacionado com o que eu quero medir. Parece óbvio, mas é fundamental fazer essa pergunta avaliativa. O que eu quero medir? Se a minha proposta é melhorar a alimentação das crianças, então o que eu preciso fazer? Primeiro, verificar o que elas estão comendo e verificar o que está sendo oferecido a elas. Porque as duas coisas não são iguais. Em geral, queremos melhorar a qualidade de alimentação das crianças, mas isso não acontece sem uma atuação no campo da oferta. É necessário aumentar o acesso, articular a compra com as prefeituras que fazem os cardápios e implantar a educação alimentar para a comunidade educacional, para aí verificar se o índice de massa corporal (IMC) do conjunto das crianças está se aproximando da faixa normal, se elas estão menos desnutridas e com menos sobrepeso, na média. Os indicadores vão mudando dependendo do que você está medindo. A pandemia evidenciou o que já se sabia: a importância da merenda escolar. Nesse período a escola fez muita falta como um local de acesso à alimentação saudável, já que para muitas famílias é lá que a criança realmente consegue realizar a parte mais substancial da alimentação. 

Na área onde atuo, é fundamental o trabalho de articulação com as secretarias de Educação, no sentido de apoiar a estruturação de cardápios equilibrados. O Programa Nacional de Alimentação Escolar de fato transfere dinheiro. É pouco, mas transfere, e com esse pouco em uma compra grande, de grandes volumes, é possível fazer bastante coisa. Porque a alimentação natural, quando bem comprada, é mais barata do que a baseada em industrializados, que nem sempre implica uma compra pública bem-feita. Então parte do trabalho está na oferta de bons alimentos a partir do Pnae, que é uma política pública que tem sido bastante resistente a tudo que está acontecendo. A escola é um ambiente privilegiado para propor a mudança de hábito tanto para o desenvolvimento integral da criança como para a capacitação e sensibilização de pais e mães para a melhoria do consumo.