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Polo de desenvolvimento educacional
Notícias Dez perguntas para

Crianças podem amar matemática

Desenvolvido na Universidade Stanford, o método Mentalidades Matemáticas pode ressignificar a relação de estudantes e professores brasileiros com a disciplina


Dez perguntas para:
Ya Jen Chang
Bióloga, educadora e presidente do Instituto Sidarta

Atividade no Curso de Férias realizado em janeiro de 2020, pelo Instituto Sidarta e Itaú Social, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação de Cotia: novas abordagens para pensar a matemática

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Salvador, medalhista da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escola Públicas (OBMEP)

Como é a sua relação com a matemática? Caso não seja das melhores, você não está só. De acordo com o último levantamento do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), mais de 68% dos estudantes brasileiros têm conhecimento em matemática abaixo do básico. Isso coloca o país entre os dez piores, num grupo de 80 nações avaliadas.

Com esses dados e o apoio do Itaú Social, o Instituto Sidarta introduziu em território brasileiro uma nova abordagem no ensino da disciplina. A metodologia Mentalidades Matemáticas foi desenvolvida num centro de pesquisas da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, pela professora Jo Boaler. Esse novo jeito de ensinar matemática é baseado em estudos da neurociência, e o grande diferencial está justamente em tornar a matéria menos abstrata, trazendo exercícios visuais e exemplos práticos. No Mentalidades Matemáticas, as crianças são incentivadas a chegar aos resultados por conta própria, em vez de serem apresentadas a equações e fórmulas genéricas.

Os resultados têm sido empolgantes. Em 2015, num curso de férias de apenas 18 dias realizado com crianças estadunidenses, foi identificada uma evolução equivalente a 2,7 anos de ensino convencional da matemática. Cinco anos depois, em 2020, o Brasil também recebeu uma edição do curso de férias com a abordagem Mentalidades Matemáticas. Por aqui, houve um avanço de 1,3 ano em dez dias de atividades com as crianças. A ideia do Instituto Sidarta é ampliar cada vez mais o acesso de estudantes e professores à metodologia. Por isso, todos os estudos, artigos e seminários do Mentalidades Matemáticas são disponibilizados gratuitamente na plataforma on-line YouCubed.

A bióloga e educadora Ya Jen Chang é presidente do Instituto Sidarta e sempre fala com muito orgulho do Mentalidades Matemáticas. Atuando na área da educação há mais de 25 anos, ela acredita num processo de ensino e aprendizagem que estimule também o lado humano de professores e estudantes. Conversamos com Ya Jen sobre o ensino da matemática, os obstáculos do contexto educacional brasileiro e a experiência da aplicação da abordagem no Brasil.

Ya Jen Chang: “Talvez o mais importante seja as crianças assumirem o protagonismo sobre o seu próprio processo de aprendizagem”. Foto: Arquivo pessoal

NNotícias da Educação – Quais são os principais desafios do ensino da matemática no Brasil?

YYa Jen Chang – Um dos principais desafios é que grande parte das pessoas tem um certo receio de lidar com questões matemáticas. Isso é curioso porque, quando você observa as pesquisas de cientistas, muitos deles falam da matemática como algo inerente ao ser humano. Não existe como separar o ser humano da compreensão e da lógica matemática. Tudo isso que fazemos no nosso cotidiano é a essência da lógica do pensamento matemático. E isso já vem nos acompanhando há mais de 3 milhões de anos, enquanto a linguagem, essa como conhecemos, só se tornou parte do nosso cotidiano há 300 mil anos. Ou seja, a lógica matemática antecede, inclusive, a linguagem. Então, por que a gente tem esse receio tão grande aqui no Brasil? Não existe essa questão de que a gente sempre fala, do “dom” da matemática. Eu já ouvi isso. Já me vi falando isso, assim, “eu sou de humanas, eu sou de exatas”. Essa conceituação está equivocada. Nós todos precisamos olhar para a matemática com um novo olhar, ver que ela realmente faz parte do nosso dia a dia. Você atravessa a avenida Paulista em zigue-zague? Não, ninguém faz isso. Isso é conceito de matemática, a reta é o traçado mais curto entre dois pontos. O que a gente precisa fazer nesse trabalho é justamente esse resgate que o programa Mentalidades Matemáticas está trazendo.

“O primeiro ponto de partida é acreditar que todas as crianças são capazes de aprender matemática em altos níveis”

NNa sua visão, como é possível equilibrar o ensino da matemática nas redes pública e privada?

YPelos dados que o PISA apresenta, o problema da não aprendizagem da matemática perpassa todas as classes sociais. Precisamos da tecnologia mais moderna que existe na sala de aula, que é o cérebro do professor. Temos que investir na formação do educador, como subsídio para que ele possa ter uma vivência positiva com a matemática. É preciso trabalhar também com o pensamento mais profundo sobre a matemática para que ele possa, então, oferecer isso aos seus alunos.

NDe onde vem a metodologia Mentalidades Matemáticas e como ela chega ao Brasil?

YO que aconteceu na Universidade Stanford: a professora Jo Boaler desenvolveu essa abordagem com um livro com esse mesmo nome, Mentalidades matemáticas, e a aplicou num curso de férias, nos Estados Unidos, em 18 dias. Ao longo desse período, ela descobriu que os alunos de fundamental 2 tiveram um avanço equivalente a 2,7 anos de escolaridade. Em 18 dias! Ela alia aquilo que existe de mais inovador dentro dos estudos da neurociência ao ensino da matemática e faz uma integração dessas duas ideias para trazer o conceito de Mentalidades Matemáticas. O Instituto Sidarta buscou justamente essa abordagem, entendendo que o ensino e a aprendizagem da matemática vivem uma situação extremamente alarmante aqui no cenário brasileiro. De acordo com o PISA, mais de 70% da população de 15 anos não domina o básico da matemática. O estudo também publicou, no relatório, que demoraria 75 anos para o Brasil alcançar a média dos países desenvolvidos. Eu brinco que não tenho mais 75 anos de vida e gostaria de ver isso ainda… Pelo menos começamos a mexer esses dados um pouco porque eles já ocorrem há quase 20 anos. Quem tem nos auxiliado a cocriar esse movimento aqui no Brasil é o professor Jack Dieckmann. Ele é diretor de pesquisa do Centro Youcubed, na Universidade Stanford, e tem atuado diretamente com vários atores brasileiros para que possamos tropicalizar esses estudos para o nosso contexto.

“Em vez de ensinarmos para uma criança quanto é 20 + 20, talvez a pergunta a fazer seja: de quantas formas diferentes você consegue chegar ao 40?”

NComo se dá a abordagem na prática?

YO principal ponto de partida é acreditar que todas as crianças são capazes de aprender matemática em altos níveis. Olhar realmente para o ser humano por trás disso, entendendo que ele é um ser matemático. Essa primeira camada é onde a gente fala tanto do professor, para ele se reconhecer como um ser matemático, quanto das crianças. 
É importante mandar essas mensagens para que elas entendam que podem errar. Percebemos que essa é uma “camisa de força” muito grande dentro do contexto escolar hoje; as pessoas têm muito medo de errar. Então, começamos avaliando e criando um ambiente seguro de aprendizagem, para depois introduzir problemas e desafios mais abertos para as crianças, em vez de focar em formas e procedimentos. Nossas atividades são extremamente visuais, para eles começarem a observar o que tem de regularidade, como poderiam padronizar o que estão observando, com que ideias matemáticas aquele grupo pode contribuir dentro do desafio que é posto, para que cheguem a uma conclusão entre eles. Nessa lógica, os estudantes têm que exercitar o que a matemática já faz: argumentar, defender a ideia. Fazendo esse tipo de argumentação até que cheguem a um consenso de que aquele é um resultado que eles conseguem defender coletivamente. Uma das coisas mais importantes é mostrar para as crianças que existem várias formas de chegar ao mesmo resultado. Em vez de ensinar para uma criança quanto é 20 + 20, talvez a pergunta a fazer seja: de quantas formas diferentes você consegue chegar ao 40? Esse é o exercício da flexibilidade numérica. São alguns desses princípios que trazemos, do senso numérico, da flexibilidade numérica, de trabalhar com essa questão do erro, de pensar matemática profundamente de uma forma interligada, que é o que trazemos ao cotidiano da sala de aula.

Algumas das atividades sugeridas no site Mentalidades Matemáticas: parte da iniciativa #YoucubedEmCasa Imagem: Reprodução

NO que é a matemática multidimensional?

YQuando pensamos nas atividades que fazemos hoje na sala de aula padrão, temos aquelas equações básicas para serem resolvidas. Já quando trabalhamos as multidimensões, trabalhamos, por exemplo, com elementos visuais, simuladores, com uma lógica participativa.
Essa matemática multidimensional é mais relevante para o nosso cotidiano. Tudo o que venho dando como exemplo faz parte dessa matemática mais multidimensional e nos ajuda a sair daquela só de memorização de fatos e procedimentos. Ela trabalha com a disciplina do ponto de vista dos desafios. É aquilo que expliquei: em vez de perguntar quanto é 20 + 20, que tal perguntar de quantas formas diferentes eu chego ao 40? Prove isso com algum elemento visual, ou com alguma coisa concreta, não só com a lógica argumentativa. Trazemos outros elementos para trabalhar com a matemática de forma mais viva e relevante para o cotidiano. E aí passamos pelo exercício de conjecturar, apresentar provas, desenhar diagramas, tudo para justificarmos aquilo que estamos tentando comprovar, que é o exercício voltado à mente do pensador matemático.

Atividade no Curso de Férias, realizado em janeiro de 2020: crianças no protagonismo de seu próprio processo de aprendizagem. Foto: Itaú Social

O que aprendemos com as crianças, todos os dias, são novas formas de pensar também a matemática”

NÉ possível aplicar o método Mentalidades Matemáticas em outras áreas do conhecimento?

YA matemática é a ponta do iceberg porque essa abordagem é, de fato, aplicável em qualquer outra área do conhecimento. Estamos cada vez mais nesse mundo de tecnologia mais e mais veloz, acreditando que temos de fazer tudo rápido. Não. Às vezes temos que parar e pensar nas coisas de uma forma mais profunda porque isso talvez nos leve para outros caminhos. Em essência, o que estamos fazendo ao falar da abordagem Mentalidades Matemáticas é trazer para o campo metacognitivo. Como o matemático continua aprendendo a pensar matematicamente no seu dia a dia? Pensando em história, por exemplo, como o historiador vai observar a história e tentar estabelecer os padrões que ela nos traz das épocas que são estudadas? E tentar buscar elementos e evidências para defender aquela lógica da história?

NO que é e como funciona o Youcubed?

YO Youcubed é uma plataforma desenvolvida pela Universidade Stanford onde são publicadas todas as pesquisas mais recentes e as ideias criadas nesse centro de pesquisas. Professores de mais de 140 países têm acesso a essa plataforma. Uma grande vitória para o Brasil é que o português brasileiro é o primeiro idioma estrangeiro para o qual o site foi traduzido. É um conteúdo extremamente rico, que estamos  disponibilizando gratuitamente a todos os professores. A plataforma aborda tanto a parte teórica, com as pesquisas publicadas, quanto a prática de sala de aula com atividades, filmes, cursos e outros materiais.
O professor que fala “poxa, por onde eu começo?” pode acessar esse site do Youcubed. Ele tem uma sugestão de proposta para aplicar ao longo de uma semana, período em que é possível fazer a abordagem Mentalidades Matemáticas e oferecê-la para a sua sala de aula, desde o infantil até o fundamental 2 e o ensino médio.

O professor Jack Dieckmann: parceiro na difusão do Mentalidades Matemáticas no Brasil. Foto: Itaú Social

NComo foi a experiência do curso de férias?

YPara quem trabalha na educação, ver o processo de aprendizagem das crianças é sempre incrível, no sentido do potencial do cérebro e da capacidade humana. Em muito pouco tempo, elas foram apresentadas aos conceitos matemáticos, se apropriaram desses conceitos e perceberam o quão potentes elas são. Nós já tínhamos ouvido falar de muitas dessas experiências no curso de férias do Youcubed, mas observar isso na prática, dentro do contexto brasileiro, trabalhando com algumas crianças em vulnerabilidade social… Você fala “poxa, realmente o cérebro humano é capaz de muito mais do que aquilo que imaginamos”. Essas crianças são muito potentes. Isso nos trouxe uma convicção de que é possível, sim. Trazendo uma abordagem diferente da matemática, ajudando-as a se reconhecerem como seres matemáticos, elas mesmas vão assumir o protagonismo. Talvez isto seja o mais importante: o protagonismo sobre o seu próprio processo de aprendizagem. Aí ninguém segura essas crianças.
Fizemos o curso de férias aqui no Brasil, onde o aplicamos no contexto de escola pública, numa cidade da Grande São Paulo, numa comunidade mais afastada, e os resultados que obtivemos para crianças do quinto ano foi de um avanço equivalente a 1,3 ano de escolaridade, em dez dias. Ou seja, essa abordagem, de fato, tem implicações bastante relevantes para o ganho de aprendizagem aqui no Brasil. Por isso, temos investido fortemente na ampliação dessa abordagem, em parceria com o Itaú Social, disponibilizando materiais gratuitos, o Youcubed, o site Mentalidades Matemáticas, porque queremos que isso chegue a mais pessoas.

Guia interativo para o Programa Mentalidades Matemáticas Brasil: download no site Youcubed. Imagem: Reprodução

NO que as crianças têm a ensinar aos professores?

YO que aprendemos com as crianças, todos os dias, são novas formas de pensar também a matemática. Elas sempre trazem insights novos, formas diferentes de enxergar alguns desafios que propomos a elas. Trazem evidências do quão potentes elas são. Então, quanto mais espaço se dá às crianças, instigando-as com boas atividades, em um bom processo de mediação do professor, melhor elas responderão. Assim, conseguem nos mostrar o quanto têm para oferecer ao mundo.

NPara um professor que leia a entrevista e se interesse pela metodologia, o que fazer?

YTemos o site Youcubed, disponível gratuitamente, com atividades, artigos científicos, exemplos de sala de aula. Há também o site Mentalidades Matemáticas, com atividades e artigos de outros professores. Vários webinários estão disponíveis em nosso canal do YouTube, onde é possível estudar, com o próprio professor Dieckmann e alguns formadores do Mentalidades Matemáticas, a forma como  trabalhamos essa abordagem na prática. Tem os livros também. Neste ano de 2021, vamos lançar cursos on-line no Polo, a plataforma de formação do Itaú Social.