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Conversas inclusivas

Jornalista mineira escreve livros que levam às crianças discussões sobre inclusão e solidariedade


Paula Emmanuella Fernandes. Foto: Arquivo pessoal

Por Nathália Bini, Rede Galápagos, Belo Horizonte
Depoimento de Paula Emmanuella Fernandes, jornalista e escritora

Durante a infância, todas as noites meu pai se sentava à beira da minha cama para ler histórias. Ele escolhia do acervo dele, uma coleção com mais de 3 mil livros infantis que ainda hoje ocupa um quarto de nossa casa. Tive ainda o privilégio de ter como mãe uma professora da educação infantil de escola pública, que muitas vezes foi à casa de alunos ausentes para entender o motivo das faltas. Ela também trazia ao nosso lar, para aulas de reforço gratuitas, aqueles que estavam com notas ruins. 

Acredito que o gosto pela leitura nasce sem imposição e depende de ser despertado e incentivado. Existem tantos jeitos… Quando os pais contam histórias antes de as crianças dormirem, numa roda de leitura com professores e colegas, numa deliciosa contação de histórias, numa visita divertida à biblioteca, vendo o adulto-referência lendo e tendo uma diversidade de exemplares à disposição. Eu percebia tantos assuntos que precisavam ser abordados que, há 6 anos, me enveredei por uma jornada como escritora (ainda caminhando a passos lentos). 

A maioria dos títulos que escrevi é para o público infantil. Nem por isso deixei ou deixo de buscar histórias reais ou, pelo menos, baseadas em fatos, em situações com as quais as crianças possam se identificar. Assim nasceram minhas personagens infantis: Beca, Alan, Lili, Mary, Bia…São vários títulos, com diversas narrativas para abordar assuntos diferentes entre si, como dislexia, síndrome de Down, refugiados da Síria, política para crianças e Covid-19. O ponto em comum é que todos falam sobre empatia, respeito, equidade, inclusão, solidariedade e representatividade.

O primeiro livro nasceu de uma triste percepção: a dificuldade que muitos enfrentam para lidar com a dislexia, um transtorno específico de aprendizagem cujo diagnóstico precoce e tratamento podem mudar a vida de uma criança. Em 2016, O que Beca tem de diferente? mostrou que a protagonista sofria tanto com a incapacidade de ler quanto com o julgamento dos colegas, que a chamavam de preguiçosa. Fiz o lançamento na escola em que minha mãe deu aulas a vida toda. Da tiragem de mil exemplares, 500 foram distribuídos em escolas públicas. Hoje ele está disponível para baixar no meu site.

O retorno de professores e pais, e, principalmente, dos estudantes, me encorajou a lançar outro livro, em 2017. Naquele ano a triste imagem de um garoto refugiado fugindo de seu país tornou-se bem conhecida quando foi publicada em quase todos os jornais do mundo. Essa imagem me marcou tanto que resolvi escrever sobre o assunto. Que língua você precisa falar para mostrar às crianças que é necessário estimular o respeito, a empatia e a solidariedade com quem teve de abandonar sua terra em busca de uma vida melhor? Não importa seu idioma. Existe a linguagem universal do amor. Mandei a história para algumas editoras e o livro Que língua você fala? acabou sendo publicado.

O ano eleitoral de 2018, marcado pela polaridade das discussões e pelo discurso de criminalização da política me levaram a escrever outro livro: Aprendendo sobre honestidade com Lili.  É preocupante que as crianças cresçam ouvindo tanto negativismo sobre algo fundamental para a vida em sociedade. Lancei de forma independente.  Meu compromisso era falar de maneira leve e isenta sobre a importância da política para a meninada. O acesso gratuito a outro assunto fundamental também foi minha bandeira quando lancei, em 2019, o Turminha Adownrável. Juntei minhas três paixões: literatura, inclusão e música. 

A pandemia que nos surpreendeu neste ano me fez viver numa montanha russa de sensações. Queria ajudar, fazer algo pensando nas crianças e veio a ideia do Xô, Coronavírus. Lancei em PDF para ser compartilhado até por WhatsApp. Para minha surpresa, viralizou. Recebi centenas de e-mails e cartas de crianças pelo país contando que haviam aprendido o que era esse vírus e que não precisava ter pânico. Só conseguiremos enfrentar este vírus se cada um fizer sua parte em relação aos protocolos de segurança. Como não sou da área da saúde, contei com o apoio de vários médicos e infectologistas que revisaram o material. Fiz o mesmo na produção de livros que falam de dislexia e Síndrome de Down. 

Acredito tanto no poder da leitura que procurei organizar uma forma de acesso fácil aos livros para toda a população. Na cara e na coragem, lancei o projeto da Biblioteca Solidária, em parceria com meus colegas Cauby e Josiane, diretores na empresa em que trabalho. Começamos com uma estante que instalamos em uma rua da minha cidade, Contagem. Foi tão gratificante ver que os exemplares iam mudando… sinal de que havia gente pegando e doando. Mas as chuvas mostraram que não era sustentável deixar os livros ao ar livre. Pensei então em criar pontos específicos em creches, entidades, associações e presídios. Com ajuda de amigos e do padre Ferreira, fizemos campanha para arrecadação de livros e recolhemos centenas de exemplares. Como a leitura ajuda de muitas maneiras, levamos uma parte para o pronto atendimento infantil do Hospital Municipal. O restante foi para cinco presídios mineiros. Assim que possível, retornaremos com o recolhimento das doações e a distribuição para os outros espaços, trabalho voluntário que foi paralisado pela pandemia.

A leitura é transformadora. E não pode ser vista apenas como “juntar as letrinhas”. Vai muito além da superfície dos olhos, perpassa conceitos, nos liberta da ignorância, amplia a visão de mundo, desenvolve o senso crítico, aperfeiçoa a capacidade cognitiva, a criatividade e dá asas ao imaginário, sem limites de tempo e espaço. Meu sonho é que meus leitores mirins possam se identificar com meus personagens e internalizar conceitos de empatia, solidariedade e amor. Sonho que a leitura se torne um hábito comum para todos os brasileiros, de forma democrática, gratuita e diversa.

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