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Comunidade escolar em ação

"Mobilizamos mães e professoras para fortalecer os vínculos das crianças e suas famílias. E criamos um guia para inspirar outras a fazer o mesmo"


Sete professoras, duas mães e uma missão: planejar e produzir a Caixola. Na imagem da reunião, Renata Laurentino (mãe de Lina), Luciana Fukui, Fernanda Aversani, Maria Cristina Camargo, Paula Gonzales, Karen da Silva (mãe de Luiza), Lúcia Gomes, Mariana Neder e Tatiane Lima. Foto: Luciana Fukui

Por Renata Laurentino, Rede Galápagos, São Paulo
Arte-educadora, facilitadora de projetos comunitários com foco nas infâncias e mãe de Lina, de 2 anos

Quando o ano de 2020 começou, eu estava super ansiosa porque esse seria um marco na vida de minha família. Lina, nossa bebê, então com pouco mais de um ano, iria pela primeira vez para a escola, passaria horas do seu dia brincando com as crianças do bairro onde moramos, na zona oeste da cidade de São Paulo, seria cuidada por outras pessoas além da nossa família e nós passaríamos a integrar a comunidade escolar.

A chegada do momento tão esperado trouxe dias intensos. Reuniões com famílias, estratégias de adaptação, algumas lágrimas… e, finalmente, muitos sorrisos e abraços nas professoras.

Lorena se arrumou toda para o grande momento: receber a Caixola entregue pela sua professora Luciana Fukui. Foto: Paula Gonzales

Na entrada e na saída da escola, na padaria, na feira, encontrávamos outras famílias que nos reconheciam, nos davam boas-vindas, nos contavam histórias inspiradoras sobre a escola e tudo que viviam nela, falavam sobre o quanto ela funciona como uma rede de apoio e cuidado para as famílias e também descreviam os desafios e as tentativas de superá-los. Um mês depois, eu já estava fazendo parte da reunião do conselho de escola, entendendo como era viver e cuidar de um Centro de Educação Infantil (CEI) público.

Luiza: vendo o mundo de outra cor. Foto: Karen da Silva

Passados alguns dias, a pandemia causada pela Covid-19 chegou. Começamos a nos olhar nos corredores e perceber que não era mais seguro levar as crianças para a escola. Um bilhete na agenda anunciou o fechamento como uma estratégia de cuidado.

Começava assim o isolamento social das crianças brasileiras. Um apagão, férias para as professoras, readaptação da rotina familiar, reuniões de reorganização da equipe, nossa comunidade silenciou. Mais um tempo de organização e começavam as propostas de atividades por meio do blog da escola. As professoras se reinventaram e se conectaram à tecnologia. Pela primeira vez, nossa comunidade assistia de casa a uma diversidade de propostas e conteúdos oferecidos diariamente a nossas crianças. Algumas adoraram, outras nem tanto. E assim os dias foram passando. 

Em certo momento, as professoras e as famílias se deram conta de que era necessário pensar em alternativas além das telas, que era preciso reconectar os elos da nossa comunidade para pensar como fortalecer os vínculos das crianças com as professoras e da nossa comunidade como um todo.

Tina: brincando de luz e sombra. Foto: Fernanda Tonoli Rodrigo

Depois de algumas reuniões, veio a ideia de fazermos um “mapeamento afetivo” para entender como estavam as crianças e as famílias em casa. Queríamos saber quais eram os desafios e as conquistas que estavam acontecendo nesse convívio familiar.

Ao mesmo tempo, surgiu a ideia de confeccionarmos coletivamente uma caixa de brincar, que seria entregue o mais rápido possível para todas as crianças e famílias. Fizemos um chamado pelos grupos de WhatsApp para saber quem gostaria de oferecer seus talentos, materiais e tempo para materializarmos o que chamamos em seguida de “Caixola”. Em reuniões virtuais, num período de um mês e meio, planejamos cada detalhe desde a captação e produção dos materiais, até o dia de entrega para as crianças, com todos os protocolos de segurança. Logo no início, percebemos que nosso projeto ia muito além de uma caixa de brincar. Ele se tornou a ferramenta que precisávamos para transformar nossos medos, incertezas e uma certa solidão, em uma ação com muito afeto e emoção. 

Maria Cecília e Maria Eduarda: fazendo arte no quintal. Foto: Jocarla Oliveira Gomes

Durante o processo, trocando com outras professoras e gestoras de escolas, percebemos que o que estávamos fazendo, poderia inspirar outras escolas a se mobilizar. Então começamos a desenhar esse Guia de Inspiração, para compartilhar o caminho que percorremos em nossa ação realizada no CEI Jamir Dagir, situado na Vila Ipojuca, São Paulo.

Na mesma semana em que entregamos a Caixola para todas as famílias da escola, seguimos mobilizando nossa comunidade para a realização de um sonho antigo, a revitalização do solário, um grande espaço aberto que vinha se deteriorando por conta de infiltrações. Nossos esforços estão concentrados para que ele fique pronto, lindo, seguro e com muitas plantas para receber as crianças quando elas voltarem. Toda essa experiência me mostrou que mesmo distantes fisicamente podemos estar juntos socialmente. E já que não temos certezas sobre o futuro, podemos encontrar coletivamente caminhos para transformar nosso presente.

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