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Compartilhar é o que nos torna humanos

"Não é pelo que estamos doando, e sim por estarmos ali, mostrando que nos importamos"


Voluntários pintam amarelinha no pátio: o caminho das crianças pode ser mais divertido. Foto: Arquivo pessoal

Depoimento de Ruthmar Couto Bittencourt, Gerente de relacionamentos, Juiz de Fora (MG)
Por Luís Gustavo Rocha, Rede Galápagos, Goiânia

Me chamo Ruthmar Couto Bittencourt. Vivo em Juiz de Fora e fui criada em uma família com 11 filhos, em Vista Alegre, interior de Minas Gerais. Recebemos uma educação para a partilha, aprendendo a dividir, porque assim a gente se humaniza. Todo mundo precisa do outro para ser humano. Uma pessoa, ao nascer, depende do cuidado de terceiros. E não tem quem consiga ser dono de tudo porque a vida é uma experiência compartilhada.

Desde pequena eu já atuava como voluntária. Na minha cidade natal, participava com meus pais e meus irmãos de ações da igreja católica. Ajudávamos a cuidar da igreja, a limpar a área ao redor, também a praça. Era um cuidado com a comunidade em que morávamos. Fomos educados nesse princípio: cuidar do nosso entorno para ter condições melhores no geral. Eu fazia parte das quermesses, arrecadando alimentos para famílias carentes. Anos depois, quando entrei para o Itaú, tive a oportunidade de participar do grupo de voluntários em que ajudo e para o qual procuro convidar mais pessoas.

Uma vez estávamos atuando num albergue, no centro de Juiz de Fora, para homens em situação de rua. Esse albergue tem capacidade para cem pessoas e elas podem entrar a partir das 5h da tarde, tomar banho, jantar e dormir. Fomos doar cobertores novos para a instituição, que recomenda fazer a entrega apenas lá dentro. No momento em que chegamos, eles já sabiam da nossa ida. Do lado de fora, as pessoas que não conseguiram entrar por causa da lotação nos agradeceram muito, mesmo sabendo que o cobertor só chegaria a quem já estivesse lá dentro. A gratidão deles era emocionante. Isso mexe com a gente. 

Outra vez fomos numa creche fazer uma festa de dia das crianças. Levamos alimentos e um bolo para comemorar. Eu me lembro de uma menininha, que devia ter uns 4 ou 5 anos. Ela veio correndo com um pedaço de bolo. Comeu com uma alegria tão grande! Aquela fatia, para ela, parecia uma joia. Ela já estava alimentada, mas o olho brilhando por aquele pedaço de bolo, por estarmos ali brincando, isso nos emociona. São pequenos gestos que fazem uma diferença grande. Às vezes você se pergunta por que nem todos podem ter condições parecidas e a resposta ética que se pode dar imediatamente diante de tanta desigualdade é ser solidário.

Sorriso no rosto: a recompensa de quem pratica o voluntariado. Foto: Arquivo pessoal

Acho difícil mensurar em números o resultado de minhas ações. O que posso dizer é que acredito estar fazendo a diferença na vida das pessoas que encontro. Quem mais sai ganhando com isso sou eu, porque a maior satisfação é ver a alegria, o sorriso das pessoas por causa da nossa presença. Não é nem pelo que estamos doando, e sim por estarmos ali, mostrando que nos importamos com elas. A empatia cria um ambiente melhor ao nosso redor.

Além de participar do Comitê Mobiliza Itaú Juiz de Fora, durante a pandemia ingressei em outro grupo de voluntários aqui da cidade, o Instituto Faça. Todos os dias são doados cerca de 250 cachorros-quentes para pessoas em situação de rua. Às quartas eu vou ao instituto, das 18h às 20h, ajudar na produção dos sanduíches. Depois sai uma equipe distribuindo. Somos 150 amigos que começamos a atuar quando vimos aumentar a quantidade de pessoas nessas condições. Nosso gesto é pequeno diante de tudo isso, mas acredito no bem que ajudamos a fazer. Também levamos agasalhos, suco, frutas e até comida para os cães, porque muitas pessoas em situação de rua têm seus animaizinhos de estimação.

Poder olhar para a realidade de quem está vulnerável, tentando descobrir como ajudar, ainda que me deparando com um monte de coisas que eu não consigo oferecer, é o ato que nos permite enxergar o significado de ser humano.

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