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Causas locais impulsionam doação no Brasil

Mulheres e jovens que contribuem com tempo e dinheiro para causas sociais locais: o perfil da doação no Brasil, segundo pesquisa da CAF


Move Vidas: na periferia de Curitiba, a 27 km do centro da cidade, projeto da pedagoga Gaivotta é o retrato da doação no Brasil. Foto: Arquivo pessoal

Por Gustavo Queiroz, Rede Galápagos, Curitiba

No ponto mais ao sul do município de Curitiba há uma avenida que corre ao encontro dos rios lindeiros Iguaçu e Barigui. Sem calçada ou asfalto, a rua de terra e as cerca de 3 mil famílias que vivem ao redor despertaram o interesse de Luzia de Andrade Cruz, a Gaivotta. Pedagoga e líder comunitária na Ocupação 29 de Outubro, Gaivotta é o retrato de um perfil de doação que ganha cada vez mais luz no Brasil: mulher intensamente preocupada com causas locais, doa tempo e dinheiro para a transformação da condição de vida de grupos em situação de vulnerabilidade. Neste caso, seus vizinhos.

Um levantamento realizado pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, em nome da Charities Aid Foundation (CAF) e da Aliança Global, corrobora esse cenário. O estudo “Brazil Giving 2020” mostra que, aos poucos, a doação ganha status de cultura no Brasil. Entre os mil entrevistados, 78% realizaram ao menos uma atividade beneficente em 2019. Desses, 67% contribuíram financeiramente com alguma causa. Entre 2018 e 2019, o número de pessoas que não se engajaram em qualquer tipo de trabalho de apoio social caiu, enquanto o número de doações de alimentos ou bens a organizações sociais, aumentou.

O brasileiro está disposto a contribuir diante da emergência social . E as causas locais são protagonistas. Mais da metade dos entrevistados (55%) prefere doar para organizações sociais que atuam à porta de casa, um cenário motivador para as organizações da sociedade civil (OSCs) de menor alcance. A  disposição para contribuir com causas se manteve estável nos últimos anos e não parece ser interesse somente de famílias com renda alta. Entrevistados com renda inferior a R$ 10 mil anuais, por exemplo, têm mais propensão que a média geral a contribuir com causas como apoio à pessoa com deficiência (26%) e programas de geração de emprego (13%).

Sentir-se bem é uma das motivações
Entre os motivos para realizar algum tipo de doação estão: “me sentir bem” (52%), “preocupar-se com a causa” (44%), “acreditar que todos precisam ajudar a resolver os problemas sociais” (43%) e “querer ajudar as pessoas menos favorecidas” (43%).  Diante dessa lista de respostas   — e dos conflitos urbanos que a atinge  —  Gaivotta, se tornou uma voluntária e doadora por “todas as opções acima”. Ela faz coro com diversas outras OSCs que atuam com apoio emergencial na ocupação urbana em que vive. O quintal de casa se transformou em um parque informal onde crianças participam de atividades diárias de letramento, famílias recebem apoio jurídico e psicológico gratuito e gansos em bando divertem meninos e meninas enquanto defendem a casa na árvore próxima ao lago.

Mulheres lideram no voluntariado
A proporção de brasileiros que fazem trabalhos voluntários se manteve estável nos últimos três anos, oscilando entre 52% e 53% dos entrevistados. Jovens entre 25 e 34 anos são mais propensos a realizar atividades deste tipo. Cerca de 62% dos ouvidos pela pesquisa nesta faixa etária se engajaram em algum tipo de atividade social em 2019. As mulheres são destaque nestes dados. De acordo com a pesquisa, nos últimos dois anos, 56% delas se propuseram a realizar atividades voluntárias, contra 49% dos homens. Elas também manifestam uma preocupação com “as pessoas menos favorecidas” maior que os homens (48% contra 37%) e, na mesma proporção, acreditam mais que “podem fazer a diferença”.

Luzia é uma dessas mulheres que dedicam a própria rotina às causas comunitárias. A iniciativa que administra, a “Move Vidas”, tem legitimidade no território, já que conta com participação ativa de moradores e moradoras de um dos redutos da ocupação. Em pouco tempo de existência, deu conta de organizar uma biblioteca comunitária, um centro de captação de água para distribuição gratuita e a entrega de alimentos e materiais de higiene a 490 famílias. Entre as categorias que mais atraem voluntários neste tipo de atividade estão as organizações religiosas (41%), as instituições de apoio a crianças e jovens (32%) e o combate à pobreza (26%). O  “Move Vidas” é um pouco de cada uma.

Impacto: entre 2018 e 2019, percepção dos entrevistados sobre o impacto positivo das organizações sociais aumentou em todos os cenários. Fonte: Brazil Giving Report 2020

Doação anual mais comum é de R$ 200
Além da disposição de tempo, grande parte das ações voluntárias são resultado de doação do próprio bolso. No último ano, a média de doação por entrevistado foi de R$ 617, mas a quantia mais comum doada é de R$ 200, entre aqueles que de fato realizaram transferências financeiras. No caso do público entre 25 e 34 anos, as causas de bem-estar animal chamam mais atenção: 29% dos entrevistados preferem doar para projetos com esse perfil.

Um deles é Walisson Omena. O adolescente de 17 anos vive na mesma ocupação que Gaivotta. Ao perceber o grande número de animais soltos pelas ruas de terra, não se conteve. Abriu mais um cômodo na pequena casa de madeira onde vive com outras seis pessoas. Agora, é referência no bairro. Recebe os animais, leva ao veterinário, cuida da higiene e marca presença nas feiras de adoção. Tudo com o próprio dinheiro.

O tipo de doação que ganha fôlego no momento é a on-line. Entre 2018 e 2019, mais brasileiros se mostraram propensos a doar pela internet e por meio de plataformas digitais. Mais uma vez, o interesse por este tipo de atividade é jovem. Um terço (34%) das pessoas com idade entre 18 e 34 anos que doaram o fizeram de forma on-line, via conta bancária.

Organizações da sociedade civil
Cerca de 85% dos entrevistados em 2019 entendem que as OSCs tiveram um impacto positivo no cenário internacional e 80% localmente. Caminham juntos os pedidos por transparência. Enquanto apenas 3% afirmam que “nada os faria doar mais no próximo ano”, 43% dizem que seriam motivadas a doar se pudessem “saber com certeza como o dinheiro é gasto” e 36% se houvesse “mais transparência no terceiro setor”.

Ocupação 29 de Outubro: pessoas e organizações pensam a transformação do próprio território, da limpeza do lixo à distribuição de alimentos. Foto: Gustavo Queiroz.

Pandemia e emergência
Segundo dados do Monitor das Doações Covid-19, desde o início da pandemia do novo coronavírus cerca de R$ 6 bilhões foram doados por empresas, pessoas físicas e organizações, em especial nas áreas da saúde, educação e assistência social. E a demanda não diminui. A retração econômica motivada pela pandemia gerou cenários de emergência em diversos espaços, como o atendimento à população em situação de rua.

Na Ocupação 29 de Outubro, Gaivotta se mantém e reforça a distribuição de cestas básicas e produtos de higiene. “Por aqui, continuamos atendendo. São 127 crianças que precisam de atenção. Seguimos as regras de distanciamento e higiene, mas ainda precisamos de doações”, conclui a pedagoga.

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