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Notícias Dez perguntas para

CAROLINA MÜLLER – “Voluntariado é engajamento social”

A pandemia está levando as organizações a um aprendizado mais rápido sobre ações de voluntariado e a superar dificuldades de mobilização de colaboradores


Carolina Müller: “A gente precisa de pessoas conectadas nessa energia do bem, a gente precisa fazer o bem”. Foto: Arquivo pessoal

Por Denise Lima, Rede Galápagos, São Paulo

O ano de 2020 tem sido desafiador em muitos aspectos. Especialmente para comunidades vulnerabilizadas, que muitas vezes dependem de ações voluntárias para o enfrentamento de efeitos da pandemia de Covid-19. Neste contexto, ganham relevância ainda maior as ações de voluntariado. Todos os dias, um bilhão de voluntários fazem a diferença nas vidas de pessoas e de comunidades segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), que instituiu o Dia Internacional do Voluntário, comemorado em 5 de dezembro. No Brasil, entre vários marcos desse esforço conjunto está a Ação Voluntária Global 2020 – Mobilização Pelo Direito à Educação, que tem live marcada para esta quinta-feira, 10 de dezembro, às 18h. Com a participação do Itaú Social, o evento integra uma ação em rede, que reúne empresas e seus colaboradores. Fundamental para a articulação dessa rede, o Centro Brasileiro de Voluntariado Empresarial (CBVE), há 12 anos em atividade, trabalha junto com as empresas para ajudar a desenvolver programas e ações que dialoguem simultaneamente com as necessidades das comunidades e aos interesses dos voluntários. Atenta à urgência de incluir cada vez mais a diversidade e as ações digitais, a secretária executiva do CBVE, Carolina Müller, chama atenção para uma definição essencial. “Voluntariado é engajamento social, é você fazer além das suas obrigações, é você se envolver com quem está ao seu redor, com o seu condomínio, com a sua rua, com as pessoas, com a sociedade e a gente precisa de pessoas conectadas nessa energia do bem, a gente precisa fazer o bem”. A seguir, em entrevista feita às vésperas do Dia Internacional do Voluntário de 2020, Carolina fala de desafios e aprendizados das empresas na área do voluntariado. 

NNotícias da EducaçãoDesde a fundação, em 2008, o CBVE tem a proposta de ser uma rede de promoção e desenvolvimento do voluntariado empresarial. O que foi conquistado até agora?

CCarolina Müller Ser um espaço de construção coletiva é o grande valor desta rede. Na prática, é o acesso que os gestores têm para resolver de forma rápida, sem burocracia, por meio de canais de comunicação internos. Isso facilita muito. Por exemplo, tivemos relatos de empresas que montaram os seus programas de voluntariado baseados na construção coletiva, em espaços de troca, muitas vezes tendo respostas das suas necessidades diretas, e que ficaram sabendo de soluções que eles nem imaginavam que existiam. Já houve caso de um gestor pedindo exemplos de ação de voluntariado para fazer de forma exclusivamente digital e, em seguida, outro gestor lhe passar o exemplo do que poderia ser feito. Isso funciona. A rede se ajuda mutuamente, e isso tem ficado cada vez mais forte.

NQuais os maiores desafios enfrentados pelas empresas para garantir a efetividade de seus programas de voluntariado?

CO desafio número um das empresas é o engajamento dos colaboradores nas práticas de voluntariado. Como é que eu, gestor de voluntariado, construo ações que sejam estratégicas para a empresa, que dialoguem simultaneamente com os interesses dos voluntários e com as necessidades das comunidades? Alinhar esse tripé é um grande desafio. O segundo desafio, em muitas empresas, talvez seja a questão do patrocínio. É preciso que a direção tenha compreensão da prática do voluntariado, o que tem crescido muito nos últimos anos. Com a pandemia, o voluntariado ganhou de fato um espaço de destaque. Temos recebido muitos gestores procurando o conselho porque querem implementar seus programas de voluntariado, pois agora isso está vindo das diretorias.

“Só no exercício da política pública a gente consegue fazer uma transformação maior. Reforçando as políticas públicas conseguimos estar junto com os governos e chegar ao impacto coletivo, que é onde a gente dá a grande tacada de transformação social”

NDe que forma o CVBE atua para conscientizar os associados sobre  a importância de transformar o voluntariado em ferramenta de inclusão de minorias, como pessoas com deficiência, por exemplo? É mais produtivo abraçar políticas públicas ou desenvolver programas próprios e mais estratégicos para o perfil da empresa?

CNós sempre praticamos a escuta e a partir daí a construção das atividades. Em todas as nossas ações a gente faz avaliação de satisfação para direcionar. Teve um encontro em setembro de 2018 aqui no Rio de Janeiro, capitaneado pela empresa Wilson, Sons, em que a questão da inclusão foi colocada muito fortemente por alguns participantes. Nós ouvimos os questionamentos e a partir dali começamos a olhar de forma mais atenta para essa questão de inclusão. O CIEDS (Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável) já havia participado de alguns fóruns para falar de inclusão, mas essa questão ainda não estava incorporada na prática do conselho. Desde então, passamos a ter um olhar muito mais cuidadoso com isso, incorporando essa pauta em nossa discussão e em nosso fazer, fomentando o tema junto aos associados. Temos prestado cada vez mais atenção a ferramentas e a possibilidades, e temos trazido essa questão com mais veemência para que as minorias estejam incluídas. Também nos nossos questionários de participantes temos cuidado disso, para olhar para a inclusão e para ter indicadores. Quanto a abraçar políticas públicas e desenvolver programas próprios, é possível fazer ambos. E isso depende de cada organização. Abraçar políticas públicas é essencial. Só no exercício da política pública a gente consegue fazer uma transformação maior. Reforçando as políticas públicas conseguimos estar junto com os governos e chegar ao impacto coletivo, que é onde a gente dá a grande tacada de transformação social. Paralelo a isso você abraça as políticas públicas e pode também customizá-las, de forma a contemplar o perfil de cada empresa e direcionar como ela pode, na medida do seu passo, desenvolver essa ou aquela ação de voluntariado, olhando para a inclusão de minorias e o fazer junto.

NEm 2016 o CBVE tornou-se parceiro da ONU, por meio do programa UN Volunteers, para ajudar o Brasil a alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) lançados ao mundo um ano antes. Como evoluiu essa parceria?

CO CBVE e o UN Volunteers trabalharam em parceria por cerca de dois anos, de 2016 até um pouco de 2018. Estivemos muito próximos fazendo oficinas junto com o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), com formação para gestores incorporarem as ODS nas práticas de voluntariado. Depois, em dado momento o Brasil saiu do mapa da fome e a ONU mudou sua estratégia, diminuiu sua estrutura no país. Isso também impactou as possibilidades da parceria. Mesmo assim, continuamos dialogando. Há ideias muito legais e fortalecer essa parceria com a UN Volunteers vai ser muito importante, aproveitando que o voluntariado está num momento de crescimento.

NEm um ano excepcional como este 2020, como o CBVE tem agido para que as empresas mantenham programas de responsabilidade social?

CCom a pandemia, o CBVE fez toda uma adequação de agenda, reposicionou-se para que pudesse fortalecer essa atuação. Criamos a campanha #CBVE.Covid, fizemos uma parceria com a CUFA, que é a Central Única de Favelas, uma entidade nacional. Entendendo que o drama principal dessa pandemia está nas comunidades e que muitas vezes o voluntariado trabalha nessas regiões, fomos escutar a CUFA, os líderes de Paraisópolis, para ver no que as empresas poderiam ser mais assertivas. A partir dessa parceria do CBVE com a CUFA outras empresas associadas fortaleceram ações. Além disso, trouxemos visibilidade às ações das associadas, muito num espírito de inspirar os outros para o que pode ser feito. E, também para entender como trabalhamos o voluntariado nesta pandemia. O voluntariado se alimenta do calor, do abraço, da presença, do olho no olho. Então como é que a gente faz essa volta, como é que a gente traz esse voluntariado para um momento de isolamento social? A gente foi entender melhor como é que se faz engajamento on-line e foi provocando diálogos, debates junto aos associados para que pudessem estar mais presentes. Num primeiro momento, vivemos muito a fase das doações, de aplacar a fome, as necessidades básicas. Depois, no dia 28 de agosto, Dia Nacional do Voluntariado, trabalhamos o despertar da solidariedade e dos valores. Para um terceiro momento tratamos de ações de longo prazo, mais perenes e mais estruturadas. Um exemplo é a mentoria on-line sobre como os voluntários podem estar junto de empreendedores, de pessoas que precisam buscar sua empregabilidade, de alunos e de outros. Tem sido um trabalho focado nessa questão, nesse reposicionamento, trazendo para o CBVE um momento muito mais digital.

NEm termos numéricos, como tem sido a atuação da rede de associados ao CBVE frente à pandemia de Covid-19?

CAté novembro, totalizaram doações financeiras de mais de R$ 1,4 bilhão, impactando cerca de 3,5 milhões de pessoas. Também foram doados 5 milhões de testes para diagnóstico da doença, além da construção ou ativação de 484 leitos e 211.902 equipamentos hospitalares. As ações englobam ainda a veiculação de 13 campanhas de mobilização, prevenção e matchfunding, a doação de 6,5 mil toneladas de alimentos e 30,4 toneladas de refeições prontas, além de 36,5 toneladas de kits de limpeza e instalação de 1.200 caixas d’água.

NCada vez mais o voluntariado empresarial tem sido visto como fonte de valor para as empresas, interna e externamente. Há uma receita para fazer um alinhamento entre as ações de responsabilidade social e os objetivos estratégicos dos negócios?

CTudo aquilo que a empresa faz além de suas obrigações é voluntariado. Então, doar equipamentos para um hospital, construir um hospital, doar alimentos à comunidade é voluntariado. E as empresas começaram a despertar para essa fonte de valor que fortalece a sua imagem de marca. As pessoas aceitam pagar por produtos de empresas que são responsáveis, que cuidam da sua cadeia de valor, que se envolvem com suas comunidades, que pensam numa economia circular, que pensam nos cuidados com o meio ambiente. Esse posicionamento tem sido cada vez mais forte na sociedade, e as empresas estão entendendo como um novo valor, mais ainda porque o voluntariado faz o despertar de novas competências. Elas estão aí para serem desenvolvidas, são competências muito mais de relacionamentos estruturais, do novo fazer das tarefas múltiplas. E o voluntário, de uma forma geral, tem que ser uma pessoa mais compreensível a dificuldades, a momentos de estresse, a momentos críticos. Então imagina esse valor num momento como o que vivemos hoje.

“Em 2021 vamos trabalhar dois grandes temas: em educação, o foco é diminuir a evasão escolar; na área ambiental, a proteção dos oceanos”

NDe que forma o voluntariado melhora a relação das empresas com a comunidade? Existe uma consciência de que todos saem ganhando com isso?

CHá um dado muito interessante sobre isso no Estudo sobre Voluntariado Corporativo Empresarial no Mundo, realizado pelo Itaú Social. Até então se entendia que o voluntário é o porta-voz dos valores das empresas para as comunidades onde elas estão inseridas. Mas esse estudo apontou que o voluntariado é a escuta da empresa junto à comunidade, para trazer para a empresa o que a comunidade de fato necessita. Dia desses vi uma definição que achei fantástica: o voluntário hoje é o “embaixador” da empresa junto à comunidade. Ele é o cidadão que leva os valores estratégicos da empresa para a comunidade –  e traz de volta, a partir de um processo de escuta, as reais necessidades que ela tem. E isso é fundamental. Traz um olhar totalmente diferente, porque dá chance de a empresa realizar ações do ponto de vista real das necessidades da comunidade.

NTomando por base as demandas dos associados, o que o CBVE projeta para a evolução do voluntariado empresarial nos próximos anos?

CEstá ocorrendo uma evolução importante do voluntariado empresarial corporativo. Conquistamos um espaço muito grande este ano e acredito que em 2021 venha a ser consolidado. Também será a consolidação da compreensão da importância das redes como o CBVE  e como o CLAVE, que é o Conselho Latino-Americano de Voluntariado Empresarial. O Conselho vai atuar junto ao governo federal, vai tramitar com organizações como a ONU, entre outras. Estive recentemente  com algumas organizações, para fazer com que essa temática evolua, esteja cada vez mais assertiva.

NQuais são os focos para atuação em 2021?

CVamos trabalhar sob dois grandes guarda-chuvas. Vai ser a primeira vez que trabalharemos com essa mobilidade, então vamos abraçar o tema da educação, mais especificamente a evasão escolar. O Brasil já tinha um grande déficit, um grande problema com a evasão escolar. Agora, com a Covid-19 isso vai se agravar mais, e há uma série de ações de voluntariado que podem ser feitas em parceria com o governo, com secretarias de educação e com organizações sociais. Vem, por exemplo, a mentoria, ter voluntários mentores próximos a esse alunos, trabalhando o engajamento deles, conteúdos e tudo mais.  E tem a preservação ambiental, porque a ONU decretou que em 2021 vamos entrar na década dos oceanos. Considerando que o grande pulmão do planeta está nos oceanos, para onde seguem todos os rios e afluentes, então, por mais que uma empresa esteja no meio do Brasil e não tenha contato direto com os oceanos, ela tem impacto com as suas ações. O próximo encontro aberto do CBVE em 2021 vai ser sobre essa temática, a década dos oceanos, para a gente entender melhor e ver como as empresas podem se engajar. Quem sabe a gente consiga  fazer uma grande ação conjunta, um grande movimento voluntário.