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Campo fértil

Serta é referência na formação em agroecologia e no empoderamento de jovens moradores de zonas rurais do Nordeste


Valdiane Soares Silva escuta crianças da zona rural de Glória do Goitá sobre o período de crise sanitária provocada pela Covid-19: medos e dúvidas. Foto: Bruna Lima

Por Alice de Souza, Rede Galápagos, Recife

Aos 15 anos, terminando o ensino fundamental, Valdiane Soares Silva imaginava que só conseguiria um futuro com melhor qualidade de vida se deixasse sua terra natal para trás. Sua perspectiva era reproduzir o destino de tantas outras mulheres e meninas e sair do Sítio Gameleira, zona rural da cidade de Glória do Goitá, interior de Pernambuco, com destino à capital Recife ou talvez ao Sudeste. Mas justo nessa época, no meio da adolescência, o Serviço de Tecnologia Alternativa (Serta) cruzou o caminho de Valdiane e redesenhou o futuro dessa história.

O Serta é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), com sede nas cidades de Glória do Goitá e Ibimirim, que promove a educação no campo. Essa é a forma mais simples de explicá-lo, mas que não faz jus ao papel da entidade e no seu potencial de transformação de vidas e de perspectivas. Fundada em 1989, a partir da experiência de técnicos e educadores convocados pelo Centro de Capacitação e Acompanhamento aos Projetos Alternativos (Cecapas), o Serta nasceu da intenção de proporcionar novos espaços, tempos e conteúdos de aprendizagem. E para questionar a ideia de que somente longe do campo seria possível uma vida digna.

Formação emancipadora
Há quem veja o campo como um espaço “atrasado”. Reverter essa imagem foi a motivação do fundador do Serta, Abdalaziz de Moura. Segundo Alexsandra Maria da Silva, presidente da organização, o Serta busca valorizar o território e incentivar que as crianças e adolescentes vejam o potencial daquele lugar. “Os técnicos decidiram desenvolver e difundir as tecnologias alternativas para contribuir com o fortalecimento da agricultura familiar”, diz Alexsandra. O trabalho que começou educando para a produção limpa, livre do uso de agrotóxicos, acabou se revelando um campo fértil para uma formação ainda mais ampla, emancipadora, inclusiva e capaz de mudar realidades.

Em 2.000, o Serta iniciou a formação de agentes de desenvolvimento local na Bacia do Goitá, que compreende quatro municípios: Lagoa de Itaenga, Feira Nova, Glória do Goitá e Pombos. Foi esse curso que levou Valdiane, hoje com 36 anos, para dentro da organização, de onde ela nunca mais saiu. “Foi o primeiro lugar que me considerou e me viu como sujeito em desenvolvimento, capaz de criar e recriar soluções para mudar a minha vida e o meu entorno”, explica ela, que coordena vários projetos como colaboradora da entidade. 

Referência em agroecologia
A formação de agentes de desenvolvimento local já concluiu seis turmas e foi o embrião do curso técnico em agroecologia do Serta, hoje referência em todo o Brasil. As duas formações têm a mesma base: metodologia própria de valorização da identidade de cada sujeito morador do campo, que depois se transformou no Programa Educacional de Apoio ao Desenvolvimento Sustentável (Peads), hoje replicado em mais de 70 escolas, de 15 municípios, e incorporado às Diretrizes Operacionais para Educação do Campo, homologadas pelo Ministério da Educação (MEC).

O curso técnico em nível médio em agroecologia foi criado em 2012 e dura um ano e meio. Envolve uma formação presencial de uma semana e a aplicação prática dos conhecimentos na própria localidade onde vive o estudante nas três semanas seguintes. Desde a primeira turma, mais de 2 mil pessoas foram formadas, de 100 municípios de seis estados, e 10 mil visitaram os dois campi do Serta para conhecer a iniciativa. O curso tem credenciamento do Conselho Estadual de Educação e da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco (Sectma).

“São cerca de 10 hectares, um campo de experimentação de teoria, ensino e aprendizagem para aplicar nossa experiência de base agroecológica, visando a segurança alimentar nutricional, a segurança energética e hídrica”, explica Alexsandra Silva, que também já foi uma aluna do Serta – e como todos reverbera em palavras o conhecimento adquirido. “Sou filha de agricultores e na minha adolescência ajudava meus pais na propriedade, mas eu tinha vergonha. Quando alguém da cidade chegava, eu me escondia debaixo do chapéu. Essa instituição mudou a minha concepção de mundo.”

A próxima conclusão do curso, adiada para dezembro de 2020 em função da pandemia, formará 300 técnicos em agroecologia. José Clóvis Pacheco, 60 anos, era administrador e contador, mas depois que passou pelo Serta se autointitula agroecologista. É no Sítio Matinha, propriedade que mantém na cidade de Chã de Alegria, que ele replica os conhecimentos. “Metade do meu sítio é de lazer, a outra é da agroecologia. Trabalho no intuito de fazer uma agrofloresta e uso várias tecnologias que aprendi no Serta. Foi muito enriquecedor”, diz.

Maria Vitória Nascimento, 9 anos, toca violino na orquestra do Projeto Criança Desenvolvendo Cidadania: “Aprendi a tocar com o coração”. Foto: Bruna Lima

Conjunto de iniciativas
Além do curso de agroecologia, o Serta também atua com outros projetos. O “Juventude Innova – educação e ação pelo clima na Borborema” ocorre na região do Planalto da Borborema, na Paraíba, para a formação de agentes em desenvolvimento climático. Ao redor do Complexo de Suape, no Cabo de Santo Agostinho, Pernambuco, eles trabalham implantando laboratórios vivos de desenvolvimento de comunidades. O “Mutirão Ciranda”, que já formou 250 pessoas, ocorre em comunidades rurais de 23 cidades do interior e região metropolitana do Recife. Há ainda uma iniciativa de fortalecimento da agricultura familiar, na qual é ofertado acompanhamento para melhorar e qualificar as propriedades, resultando na instalação de feiras agroecológicas no Sertão do Moxotó. 

O Serta é parceiro do Itaú Social no programa Missão em Foco, para desenvolvimento institucional da organização e formação de equipes. Por meio dessa parceria, além do fortalecimento das competências da entidade, 220 crianças e adolescentes do Sítio Gameleira, em Glória do Goitá, estão recebendo formação em música. O trabalho acontece com o Projeto Criança Desenvolvendo Cidadania, que mantém o grupo musical Sopro da Vida, o Grupo Anjos de Cordel (dedicado à escrita de poesia) e a Orquestra Divina Sinfonia. 

Esse projeto é coordenado por Valdiane, que replica na mesma comunidade onde cresceu o que aprendeu no Serta. “É uma ação de forma sistemática, a partir de uma lógica de desenvolvimento integral com a criança, o adolescente, a família, a comunidade, sua casa e a rede de proteção infantojuvenil”, explica. Há uma matriz de desenvolvimento para cada criança, para acompanhamento psicológico, pedagógico e social. 

Escuta ativa
Antes da pandemia, as atividades com o grupo aconteciam uma ou duas vezes por semana. Agora, as equipes estão levando pessoalmente toda semana um roteiro de atividades e fazendo escutas com os participantes e parentes. “Percebemos que era um momento de qualificar ainda mais as nossas ações e desenvolver um produto que sirva de experiência para outras partes do Brasil”, diz Valdiane. Maria Vitória Nascimento, 9 anos, toca violino na orquestra há três anos. “O mais importante que aprendi foi a tocar com o coração”, conta. Para a mãe dela, a agricultora Severina Helena Silva, 34 anos, a filha está mais feliz e desinibida desde que começou a tocar. “É uma emoção muito grande a gente saber que uma criança da gente, agricultor, pessoa simples, vai fazer aula de música. Boto no Face, no Zap, mostro pra todo mundo”.

A pandemia também não parou a maioria dos outros projetos do Serta, que inclusive iniciou um trabalho emergencial em Alagoas, para comprar alimentos de base agroecológica, transformar em cestas básicas e doar a famílias em maior vulnerabilidade. Foram distribuídas 62 toneladas de alimentos, 3 mil cestas básicas, 11 mil máscaras e 10 mil itens de limpeza. Já o Projeto Criança Desenvolvendo Cidadania segue com distribuição de material pedagógico, doação de livros com conteúdo voltado às boas práticas para prevenção e combate à Covid-19 e visitas de acompanhamento e escuta das crianças e adolescentes.

Seja por meio de uma emergência, do legado na vida das pessoas ou do permanente esforço em fazer mais pelo campo, o Serta realiza a visão de seu fundador Moura. ”Ele diz que o Serta é um espírito, que qualquer um pode levar para onde quiser”, resume Alexsandra. 

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