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Polo de desenvolvimento educacional
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Cada hora importa para aprender

Confira o artigo da superintendente do Itaú Social, Angela Dannemann, publicado no jornal O Globo neste domingo, dia 24 de outubro


Por Angela Dannemann, superintendente do Itaú Social*

Quando nasce uma criança, a expectativa do núcleo familiar geralmente é poder oferecer o máximo de aprendizados durante sua formação. Quem está na camada mais rica da população pode oferecer a seus filhos ensino de inglês ou outra língua estrangeira, aulas de esporte, passeios ao teatro e ao cinema. Nas férias, também consegue realizar alguma programação especial.

Proporcionar essas oportunidades não é nem de longe a realidade da maioria dos lares brasileiros. No país que figura no oitavo lugar do ranking dos mais desiguais do mundo, de acordo com o Pnud (Programa das Nações Unidas para Desenvolvimento), a conclusão do ensino médio já é uma conquista a comemorar. Apenas 48,8% dos estudantes finalizam esta etapa (PNAD Contínua 2019).

As oportunidades oferecidas às crianças e aos adolescentes influenciam sobremaneira o desempenho educacional. O americano James Coleman, em 1966, foi o primeiro a identificar que o nível socioeconômico das famílias era determinante no aprendizado dos alunos. O sociólogo concluiu que estudantes filhos de pais ricos e escolarizados trazem em seu repertório uma vantagem que vai além do que é aprendido nas escolas.

De que as famílias mais favorecidas têm condições financeiras para oferecer mais oportunidades de aprendizado aos seus, não há dúvida. Porém identificar quais são essas diferenças é uma chance de amenizar os efeitos da desigualdade. Se não partimos todos da mesma linha, de onde partem os filhos dos pais sem condições de oferecer aprendizado além da escola?

Angela Dannemann

Estudo inédito do Itaú Social estima que, no Brasil, as crianças de famílias mais pobres, ao chegar ao fim do ensino fundamental, tenham recebido 7.124 horas de aprendizado a menos que as de famílias mais abastadas. Isso equivale a quase oito anos de uma escola regular, com quatro horas de aula por dia. Os dados impressionam por quantificar a enorme desigualdade educacional no Brasil.

Chamado de Cada Hora Importa, o levantamento transformou em horas as diversas formas de aprender, como brincadeiras e leitura em família, pesquisas via internet, atividades extracurriculares (esportes e cultura) e o ensino regular.

A diferença de horas de aprendizado revela uma desigualdade estrutural, que vai além das trajetórias individuais e, portanto, é impossível pensarmos num desenvolvimento do Brasil sem a criação de políticas públicas eficientes. A ampliação de matrículas de tempo integral (pelo menos sete horas diárias na escola) no ensino fundamental é uma das medidas importantes para oferecer mais horas de aprendizado aos estudantes mais vulneráveis.

Outro caminho para proporcionar oportunidades de aprendizado aos estudantes mais vulneráveis é a realização de atividades em contraturno escolar, por meio do trabalho das organizações da sociedade civil, bibliotecas comunitárias e equipamentos públicos de cultura e de esporte. Esses agentes estão cumprindo um importante papel na educação integral, evitando que o abismo de desigualdade educacional seja ainda maior.

Em tempos de pandemia, quando as desigualdades foram evidenciadas, precisamos lembrar que a escola é a instituição-chave para a educação, mas não é o único espaço onde é possível aprender. O conceito de educação integral indica a necessidade de uma concepção educacional que conte com diferentes tempos, espaços e conteúdos. Estimular as parcerias pode ser decisivo para mais equidade na educação. Afinal, cada hora de aprendizado importa para o desenvolvimento pleno e plural das crianças e adolescentes.

*Originalmente publicado no jornal O Globo