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Polo de desenvolvimento educacional
Notícias Dez perguntas para

Brincar para entender a vida

Pedagogo fala sobre a experiência do jogo como realização da própria existência. Em meio a um período de isolamento social, o “espírito lúdico” não contribui para fugir da realidade, mas para entendê-la


Dez perguntas para:
Lino de Macedo
Pedagogo, é mestre, doutor e especialista em psicologia do desenvolvimento

Lino de Macedo: “O espírito lúdico pode ajudar a enfrentar essa situação de uma forma leve, otimista e com coragem e alegria apesar de tudo”. Foto: Arquivo pessoal

Por Gustavo Queiroz, Rede Galápagos, Curitiba

“Quem joga jurou”. A frase do filósofo e jornalista francês Émile Chatier (1868-1951), conhecido sob o pseudônimo Alain, é um paradigma que interessa o professor emérito de psicologia da Universidade de São Paulo (USP) Lino de Macedo. “Na prática isso significa que, quando você joga, está comprometido consigo mesmo, está comprometido com as pessoas que compartilham a jogada, está comprometido com a vida”, explica Lino. O fato é que, apesar de existirem diversos tipos de jogo (o de exercício, o simbólico, o de regras), todos pressupõem uma metáfora clara: o jogo é a vida e, por isso mesmo, “cria conflitos e projeções, concebe diálogos, induz a praticar argumentações, resolve ou possibilita o enfrentamento de problemas”. 

Isso é o que Lino defende no livro Os jogos e o lúdico na aprendizagem escolar (Artmed, 2005), que assina com outras duas autoras. Especialista na proposta construtivista de Piaget, Macedo acredita que brincar é coisa séria, pois a brincadeira é um espaço privilegiado de desenvolvimento e aprendizagem. “O jogo é uma brincadeira organizada”, afirma. Brincar, para ele, é uma necessidade da criança, enquanto o jogo é uma possibilidade à medida que amadurecemos. Brincar não é outra coisa senão sobreviver. Em conversa com Notícias da Educação, Lino fala sobre como o lúdico pode ser usado de forma corajosa para viver e aprender em um momento de distanciamento social.

NNotícias da Educação – Seu trabalho tem um foco especial na psicologia do desenvolvimento. No contexto em que vivemos hoje, de distanciamento social, como a dimensão lúdica pode contribuir para a aprendizagem?

LLino de Macedo – O lúdico é sinônimo de jogo, mas é também uma atitude, um jeito de se posicionar diante das situações. Por isso, um professor com espírito lúdico é aquele que trata os alunos com carinho e enfrenta os problemas com tranquilidade e leveza. Ele transmite um valor. Neste contexto da pandemia, o lúdico ajudou muito a enfrentar as dificuldades. Tem hora em que a internet não funciona bem, o aparelho nem sempre está disponível, e a criança ou o próprio professor não sabem lidar com as plataformas ou os aplicativos. Aqueles acostumados com as aulas presenciais e com os hábitos de frequentar os espaços da escola, como comer com os amigos, tiveram que se adaptar a uma nova realidade. Então, tanto da parte do professor quanto dos alunos e das famílias, a atitude lúdica deve aparecer diante do erro, da dificuldade, da imposição de utilizar outro jeito de se comunicar. O espírito lúdico pode ajudar a enfrentar essa situação de uma forma leve, otimista e com coragem e alegria apesar de tudo.  

NO jogo cabe na escola que conhecemos hoje?

LHoje as chamadas metodologias ativas são consideradas as melhores estratégias pedagógicas para trabalhar em sala de aula, seja ela presencial ou híbrida. Elas estão ligadas à ideia de estabelecer projetos, situações-problema, jogos e estratégias como a gamificação e a sala de aula invertida. Isso porque o jogo é envolvente. Se você estiver com sono, com preguiça ou diante de uma dificuldade muito grande, o jogo vai no caminho contrário e pede envolvimento, foco e resolução de problemas. As atividades não são tão fáceis – logo, não são desinteressantes – e também não tão difíceis, a ponto de impossibilitar a resolução. Na sala de aula tradicional, por exemplo, muitas vezes você tem situações muito fáceis ou muito difíceis para alguns alunos e com isso eles perdem o interesse, e isso não é bom. Então o jogo pode ser um recurso, mas o professor precisa conhecer, gostar de jogar. Ele precisa ser criativo para criar situações-problema, ou seja, fixar certos recortes para conversar com os alunos, pedir argumentação e discutir. Mas obviamente o jogo não substitui os conteúdos escolares. 

“Quando bem administrado, o jogo desenvolve habilidades importantes: socioemocionais, cognitivas, de tomada de decisões, raciocínio, argumentação e foco”

NComo essas metodologias ativas contribuem para o processo de aprendizagem?

LQuando bem administrado, o jogo desenvolve habilidades importantes: socioemocionais, cognitivas, de tomada de decisões, raciocínio, argumentação e foco. Nele você pode trabalhar sozinho ou em grupo. Trabalhar valores e atitudes de uma forma que otimiza o uso disso em outros conteúdos de sala de aula. Você pode usar determinados jogos para trabalhar raciocínio, atitudes, disciplinas, foco e certos conteúdos da matemática, mas isso não substitui o ensino de conteúdos propriamente matemáticos. Então ele é uma ferramenta que ajuda, que colabora, que otimiza e possibilita ao professor mostrar e valorizar alguns aspectos. Por exemplo, eu dou aula em um curso de especialização em alfabetização, ou seja, professores que trabalham com crianças de primeira e segunda série, e gostei que muitos educadores utilizaram os jogos, criaram joguinhos, desenvolveram situações lúdicas para alfabetizar os alunos no contexto de casa. Eu gosto, acho que é um recurso, e no sistema digital ele pode ser muito útil.

NA tecnologia pode contribuir nesse contexto? É possível “gamificar” processos de aprendizagem?

LAs tecnologias já existiam antes da pandemia, mas eram pouco utilizadas no contexto da sala de aula. Hoje você pode gravar uma aula, compartilhar um vídeo, definir um melhor horário para assistir a um conteúdo, o professor pode organizar salas em que alguns alunos trabalham entre si. Ou seja, estão se descobrindo ferramentas que permitem a montagem dinâmica de salas de aulas. E o jogo pode ser um bom iniciador para o aluno lidar melhor com certas situações. Então é um recurso metodológico bom, mas que ainda não é bem usado.
Alguns professores têm medo do jogo. Há certos fantasmas porque, de fato, há crianças e adultos que, se você não disciplinar, não organizar, eles jogam o dia todo e aí o jogo ocupa o lugar das outras coisas e se torna um vício. Se esse aspecto ficar muito predominante, o professor e a família precisam criar formas de restringir o uso. Mas isso vale para tudo: o trabalho pode se tornar viciante, a novela ou qualquer outra coisa, ou seja, isso não está no jogo, isso está em qualquer atividade. É claro que, como o jogo é desafiador e interessante, as pessoas gostam de praticar e há jogos muito bem-feitos, há sites muito bem montados; o jogo é o aplicativo mais produzido no mundo hoje.

“O que eu proponho é que a família jogue junto com as crianças, compartilhem os jogos deles, saibam o que estão jogando, conversem sobre o jogo. Ou seja, utilizem essa situação, essa prática lúdica como um modo de saber sobre a vida do filho”

NÉ interessante que os responsáveis façam um acompanhamento na hora de jogar?

LAlguns responsáveis são muito permissivos, outros são muito controladores. Esses extremos prejudicam um bom uso do jogo como ferramenta de aprendizagem. O que a gente vê muito é a criança com seu joguinho preferido e o pai em paralelo jogando o preferido dele. O que eu proponho é que a família jogue junto com as crianças, compartilhem os jogos deles, saibam o que estão jogando, conversem sobre o jogo. Ou seja, utilizem essa situação, essa prática lúdica como um modo de saber sobre a vida da criança, de discutir com ela, fazer uma boa gestão do tempo e do espaço para isso. Colocar limites e compartilhar as escolhas. 
Isso também vale para o professor. Ele tem a oportunidade de fazer certas marcações importantes para as quais às vezes, no contexto de outros assuntos da aula, não há espaço. Os jogos facilitam que ele saiba sobre os interesses dos alunos e os estimule a certas práticas que julga interessantes.

Obra do professor Lino, lançada em 2005: argumentações praticadas no jogo ajudam a enfrentar problemas

NEm um artigo publicado no site Nova Escola você cita a diferença entre “educar o todo” e “educar a parte”. Qual a diferença entre esses dois conceitos?

LO jogo, tal como a vida, é a história de que ninguém pode ocupar o seu lugar e fazer por você. A pessoa não pode respirar pelo outro, não pode aprender pelo outro, não pode jogar pelo outro. É isso que eu chamo de “ser todo”. Um professor pode e deve aprender com o aluno facilitando as situações de aprendizagem e desenvolvimento. Mas ele não pode aprender no lugar do aluno.
Ao mesmo tempo, nós somos parte de um grupo. Uma criança que aprende a ler passa a fazer parte de uma comunidade leitora. Ela passa a fazer parte daquelas pessoas que usam a leitura, que sabem ler, que gostam de ler, que gostam de livros e que se interessam por esse tipo de objeto sociocultural. Então nós também somos parte. Somos seres de complementaridade.
Nós temos capacidade cognitiva de compreender, mas quem fala é o outro. Por exemplo, você lê o que está escrito em um texto. O texto é de quem escreveu, mas a leitura é sua. Numa sala de aula todos os alunos podem ler o mesmo texto, mas cada leitura é individual. Então esse jogo de ser todo e fazer parte, ao mesmo tempo, de um modo indissociável que compõe essa dialética sujeito e objeto é uma forma importante de interação e complementaridade.

“O jogo é completo no sentido de que ele implica disciplina, hábitos, valores, atitudes, domínio de habilidades, competências e principalmente implica que você seja protagonista”

NEm alguns tipos de jogos há um estímulo à competição. Contudo, você afirma em alguns espaços que “brincar é mais que aprender”. Isso quer dizer que os jogos têm objetivos que extrapolam a simples ideia de competir? 

LEu sempre falo: o jogo, a brincadeira, não tem como objetivo a competição. A brincadeira é passar um tempo, estar junto, distrair-se e divertir-se fazendo alguma coisa de uma forma leve e não competitiva. O jogo de regras tem um objetivo mais claro que permite a comparação entre os participantes na forma de que “ganha” o mais rápido, o que faz mais pontos. As crianças gostam desse tipo de jogo, mas o problema é a “competição pela competição”, ou seja, quando se torna um espaço para você desrespeitar o outro, pra você se sentir melhor do que o outro. Nesse caso, há um mau uso do jogo. 
De fato, ganhar e perder são estimulantes. Você compete pelo resultado, mas o processo do jogo pode ser cooperativo: é necessário seguir as regras, esperar a vez de jogar, existem penalizações… Então o professor pode fazer uso das situações competitivas para discutir e estimular práticas cooperativas. 

NComo os jogos podem ser usados para trabalhar sentimentos e atitudes negativas?

LO jogo é completo no sentido de que ele implica disciplina, hábitos, valores, atitudes, domínio de habilidades, competências e principalmente implica que você seja protagonista e responsável pelas suas próprias ações. Ele imita a vida por implicar regras e objetivos a que você deve se submeter. Ele estimula uma série de características boas e ruins. Você pode usá-lo para fazer comparações deselegantes, para roubar, e isso pode ser uma oportunidade para trabalhar essas atitudes negativas.
Então o jogo é um tipo de linguagem; ele implica que você se comprometa com uma situação, que você vá até o fim e chegue a um objetivo. Ele tem muitas propriedades que são boas na vida, e aquelas que eventualmente forem ruins você pode trabalhar e mostrar que não vale a pena. 

NO jogo pode, então, ser um caminho para uma educação mais justa e inclusiva?

LEle é mais um recurso que o professor pode usar para trabalhar com os alunos. Porque hoje as escolas desenvolvem aspectos socioemocionais, atitudes e valores que estimulam a convivência e inclusão em um contexto institucional em que se devem respeitar os tempos e espaços. E o jogo pode ser bom para trabalhar esses aspectos. Principalmente em uma situação de ensino híbrido, já que os alunos podem estimular esses valores também em casa.
Eu li uma tese de uma especialista em terapia ocupacional que trabalhou com quatro crianças com problemas motores, adaptando jogos para elas participarem. À medida que as crianças iam aprendendo a jogar, elas queriam desafiar os colegas de classe que não tinham as mesmas dificuldades que elas tinham. O que aconteceu foi que a professora criou situações em que as dificuldades motoras não eram impeditivos no jogo e todos participavam. 

“Jogar é alegria, liberdade, é tomar decisões e ser responsável pelos seus atos. É a alegria de você estar junto com outras pessoas em uma situação lúdica e lúcida ao mesmo tempo”

NNa sua visão, o que o jogo simboliza? Como ele inspira você?

LQuando você joga, está comprometido consigo mesmo, está comprometido com as pessoas que compartilham a jogada, está comprometido com a vida no seu sentido não de sobrevivência, mas no sentido de recuperar da vida aquilo que é superior nela. Jogar é alegria, liberdade, é tomar decisões e ser responsável pelos seus atos. É a alegria de estar junto com outras pessoas em uma situação lúdica e lúcida ao mesmo tempo.