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Polo de desenvolvimento educacional
Notícias Dez perguntas para

BERNARDO TORO – Cuidar de si mesmo e cuidar do outro

O filósofo e pensador da educação fala sobre aprendizagem e organização social na pandemia, mostra que altruísmo e solidariedade podem ser aprendidos e defende a construção de um sistema educativo de alta qualidade que funcione para todas as pessoas da sociedade


“Vamos chegar aonde devemos chegar apoiando as crianças e os jovens. Todos os adultos, senão a coisa não funciona”

NNo romance O jogo das contas de vidro (1943), de Herman Hesse, uma passagem diz: “O que mais necessitamos é de professores, homens que ministrem à juventude a capacidade de medir e de julgar e que sejam seus modelos no respeito à verdade, na obediência ao espírito, no serviço à palavra”. Se pensarmos nos professores da afirmação como sendo o sistema educativo num sentido mais amplo, ainda é possível articular esse pensamento de Hesse às necessidades educativas atuais dos nossos jovens?

BBernardo Toro — Em primeiro lugar a citação me pareceu belíssima. Quando me fazem essa pergunta eu sempre respondo da seguinte forma: é possível? Sim! E se há dúvidas veja o exemplo da Finlândia. Antes dos anos 1970 ninguém sequer sabia onde ficava a Finlândia. Ninguém sabia se existia. É como se eu perguntar hoje para alguém onde fica Vanuatu e a pessoa me respondesse: “O que é isso?”. Com a Finlândia era a mesma coisa, e hoje todos sabem onde fica. As pessoas esquecem que a Finlândia era um país extremamente pobre, dominado pela Rússia e, em outros períodos, pela Suécia. Uma dominação bastante complicada. Porém, em certo momento eles se perguntaram: o que vamos fazer como país entre duas potências tão grandes como Rússia e Suécia? Temos que ser algo, não podemos continuar nos lamentando. Primeiro se deram conta do que tinham. Gelo, pinheiros, alces e muito frio. A Finlândia não tem carbono, petróleo, gás. O que tinham era uma boa indústria madeireira, de móveis, que se chamava Nokia. As pessoas pensam que a Nokia começou com os telefones, mas era uma indústria de madeira e depois de borracha. No entanto, tinha uma grande gestão e a usaram para transformar a empresa. Eles tomaram uma decisão: vamos oferecer algo inovador ao mundo. Vamos oferecer ao mundo a comunicação sem fio e vamos educar toda uma geração para que seja capaz de estar neste mundo de uma forma diferente. Vamos investir mais da metade do que temos em educar a próxima geração. O resto da história é conhecido. Em muito pouco tempo se transformou no país número 1. Um país que não tinha nada. Por casualidade, estive no lançamento aqui na Colômbia de um livro muito importante na Finlândia e que foi traduzido para o espanhol. Foi o primeiro livro finlandês publicado na Colômbia. Se chama Aprendizado excepcional [possivelmente se refere a Aprendizado extraordinário, de Kirsti Lonka]. O livro mostra como o país construiu a nova reforma educativa. No início do ano passado a Finlândia acabou com as avaliações educativas. O argumento é simples: o mais importante num sistema educativo é que as crianças aprendam. Se uma criança não aprende, para que avaliá-la se a única avaliação possível é que ela aprenda? Foi tomada a decisão de que a educação é uma responsabilidade dos adultos e que se uma criança não aprende é problema dos adultos, não dela ou dos jovens. Perceba que é uma decisão política, social, coletiva. Não podemos culpar o aluno pelo fracasso. Também no início do ano passado chegaram à conclusão de que uma das coisas que dificultam o aprendizado é a avaliação somativa. De que adianta dizer ao jovem “você foi reprovado”’ se ele não aprendeu? A educação não existe para reprovar pessoas; ela existe para que as pessoas aprendam. A pergunta é outra: o que se deve fazer para que aprendam? Então, surge o que eles chamam de avaliação formativa, o feedback positivo. Vamos chegar aonde devemos chegar apoiando as crianças e os jovens. Todos os adultos, senão a coisa não funciona. Então, para a sua pergunta eu respondo: sim, é possível.