Ir para o conteúdo Ir para o menu Ir para a Busca
Polo de desenvolvimento educacional
Notícias Boas lições

Aulas com novo ritmo


O idealizador do Matéria Rima, no centro da foto: de Jodson do Nascimento Silva a MC Joul. Foto: Jonathas Magalhães

Por Alecsandra Zapparoli, Rede Galápagos, São Paulo

Jodson do Nascimento Silva cresceu ouvindo da mãe Maria de Lurdes a frase: “Vocês não podem ser igual a todo mundo se quiserem ser alguém na vida”. Chegou a São Paulo de Jaboatão do Guararapes,  Pernambuco, com apenas 1 ano e foi morar na periferia de Diadema com o pai e os três irmãos. Aos 7, quando entrou na escola, uma das primeiras coisas que aprendeu foi pular o muro. “O lugar era escuro, parecia mais um presídio”, lembra ele, hoje com 41. Interessado em todo tipo de música, foi o som do choro da mãe que o tocou quando, aos 11 anos, ele abandonou a escola. “Meu pai bebia, batia nela, saiu de casa e eu não podia ser a razão de mais choros”. Jodson decidiu se transformar. Voltou para a escola aos 16 anos e ganhou a sua primeira boa nota depois de fazer rimas sobre anatomia do corpo humano enquanto se preparava para uma prova de ciências. Para a sua surpresa, a professora o incentivou e fez um reconhecimento público. Ali, Jodson renascia como MC Joul e dava seus primeiros passos para um projeto que seria transformador: o Matéria Rima.

360CD lançado em 2015: rimar para educar, um jeito criativo para engajar no aprendizado. Ilustração: Caricaturas Grand e colorização Douglas/Divulgação

Criado em 2002, o foco no começo eram as apresentações de hip hop, que Joul fazia com dois amigos. Mais dança do que versos. De Wagner de Oliveira José, o Sasquat, em liberdade assistida na época, surgiu a “Química Perfeita”, com rimas sobre a tabela periódica. Tiago José do Nascimento Silva, o Puma, ajudou na geografia fazendo “De Rolê Pelo País”, música com os estados do mapa do Brasil. Com estas e outras dez composições gravaram o CD Procurando Respostas, em 2005. Com a proposta inusitada, rodaram alguns países em viagens curtas. Foram para a Alemanha, França e Senegal.

Não demorou para chamarem a atenção da Secretaria Municipal de Cultura de Barueri e o projeto foi testado e aprovado em 42 escolas públicas com apresentações artísticas nos períodos da manhã e da tarde, entre os anos de 2010 e 2012. Na véspera do Ano-Novo de 2013, MC Joul recebeu uma ligação inusitada. Era o prefeito de Diadema, Lauro Michels, que o convidava para a cerimônia de posse. Dias depois, recebeu sinal verde para ampliar o projeto. Com o repasse financeiro da Secretaria de Educação de Diadema, garantiu o desenvolvimento do projeto em 15 escolas municipais, atendendo mais de 900 crianças da rede de ensino da cidade.

Workshow na EMEB Mário Santalucia: uma das quinze escolas municipais em Diadema participantes do projeto. Foto: Jonathas Magalhães

Passados dois anos, em 2015, foram vencedores nacionais do Prêmio Itaú-UNICEF, programa que reconhecia organizações da sociedade civil (OSCs) com atuação em educação integral e inclusiva – a inscrição para a edição 2020 do Programa Itaú Social UNICEF, desenvolvido a partir das experiências do Prêmio, começou no dia 20 de julho . Na época, o Matéria Rima foi escolhido entre quase duas mil iniciativas. Além de dar projeção à instituição em si, o prêmio ajudou Diadema a se tornar referência de política pública municipal em educação. “Nossa ideia não era ensinar com a música, mas sim inspirar. Aguçar a curiosidade das meninas e meninos”, diz Sasquat. Na edição do prêmio em 2018 (assista aqui), voltaram a se destacar: ficaram entre os dez melhores do país na categoria Parceria em Ação.

Apresentação na cerimônia do Prêmio Itaú-UNICEF: vencedores em 2015 e finalistas em 2018. Foto: Jonathas Magalhães

A exposição positiva rendeu bons frutos para a cidade, que chamava a atenção pelo seu alto índice de violência. E também alavancou a instituição que, com o dinheiro recebido, financiou uma colorida casa de três andares em Diadema. Ali ensinam gratuitamente discotecagem, grafite, dança, rima, produção musical, artes integradas, flauta e educomunicação. “É como se fosse um refúgio das crianças”, diz Letícia Ágata, 15, chamada ali de “multiplicadora”.  Lelê, como é conhecida, frequenta o espaço desde os dez. Pretende cursar medicina, mas ainda tem dúvida da especialidade. “Estou entre neuro e cardio”, conta. “Mas também tenho vontade de ser atriz”.

A casa em Diadema: cerca de 120 crianças e adolescentes são atendidas por mês. Foto: Jonathas Magalhães

Enquanto Lelê batalha pelo seu sonho ainda indefinido, MC Joul tenta atravessar a crise financeira causada pela Covid-19. Empregava 25 pessoas, que hoje estão em casa, entre eles educadores. A prefeitura de Diadema também não renovou o contrato com a Matéria Rima para 2020. “Vendemos camisetas e canecas e abrimos recentemente no site uma área para doação, mas ainda é insuficiente porque atendemos 120 crianças e adolescentes entre sete e 17 anos”, diz MC Joul. E como este texto vai terminar? Com uma rima dele, claro, feita à pedido da reportagem:

“Sabemos que não está fácil pra ninguém com essa situação

Pessoas não são números, preste muita atenção

As curvas crescem e não fortalecem a periferia

Século 21, pessoas morrem por ignorância e pandemia

Isso me entristece, mas não enfraquece minha poesia

Sairemos dessa melhores porque há sempre de brilhar um lindo dia

Já falei, falo e não me cansarei de repetir

O nosso sucesso é fazer uma criança sorrir”

MC Joul

Na voz dele fica mais bacana. Ouça:

Faça parte