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Polo de desenvolvimento educacional

Artigo | Terra fértil

Resultados em educação decorrem de sistema capaz de estimular continuamente a vontade de aprender

Por Angela Dannemann*

O famoso escrivão Pero Vaz de Caminha deixou claro, logo que chegou a terras brasileiras, que em nosso solo, se plantando, tudo dá. No entanto, quando se trata de cultivo permanente, é preciso manter o solo fértil e usar as mais diversas técnicas e recursos para obter as melhores colheitas. Assim é também quando temos a tarefa de educar crianças e jovens – os melhores resultados decorrem de um sistema capaz de estimular continuamente a vontade de aprender.

Na Educação, esse sistema é constituído por vários componentes, como currículo, espaços e recursos didáticos adequados, gestão eficiente, avaliações significativas e, o mais importante, a presença de um professor qualificado, fato já extensamente comprovado em pesquisas nacionais e internacionais. Aqui estou falando de um ser humano que tem uma formação específica para educar outros seres humanos e é valorizado como profissional nesse papel – isso parece óbvio, mas não é. O professor é o único profissional que tem esse propósito. Para que se transforme nesse profissional, também depende desse sistema. Ou seja, estamos falando de um círculo, que pode ou não ser virtuoso, de um “cultivo permanente” cuja colheita principal são pessoas estimuladas a aprender e também a ensinar por toda a vida. É a esses profissionais e a aspectos a eles relacionados que vou dar ênfase neste artigo.

No atual contexto, crianças e jovens já chegam à escola carregados de informações e sabendo onde encontrar mais. Nessa conjuntura, são escassos os valores e o que eles possibilitam: a capacidade de discernir a respeito das situações do dia a dia e de transformar informação em conhecimento significativo; de identificar, processar e respeitar as atitudes das pessoas a sua volta; e de aplicar tudo isso para tomar decisões a respeito da própria vida e desenvolvimento (análise e raciocínio crítico, convivência em grupo e autonomia). Isso demanda dos professores uma formação inicial capaz de lidar com a complexidade e multiplicidade de tarefas voltadas para desenvolver o potencial dessas crianças e jovens. Explico: a formação de professores precisa articular a teoria com uma prática contextualizada, atenta às especificidades do momento presente, à cultura local e às características, expectativas e trajetórias dos alunos matriculados nas escolas.

O educador tem de conhecer seu educando e sua história singular; como ele constrói suas representações dos objetos de aprendizagem; como apresenta sua personalidade perante os grupos; como se dão sua interação, sua percepção, sua tomada de decisão. Usando seus sentidos, a criança consegue identificar, mapear, elaborar, construir e desenvolver o conhecimento. O contato direto e contínuo entre professores e estudantes é o que permite a continuação da descoberta e da evolução do indivíduo, para além do ambiente familiar, tanto do ponto de vista socioemocional como do cognitivo. É o que possibilita a formação do cidadão, tendo em vista que, como sujeitos únicos, as crianças e jovens aprendem de maneira singular, vinculada a seu contexto social. Ou seja, o professor, além de estar preparado no campo cognitivo, precisa desenvolver seus sentidos, sua intuição e seus valores. Essa formação não mais pode se restringir a preparar profissionais com uma boa bagagem de conhecimentos e métodos de ensino; precisa ir além, gerando profissionais com uma atitude mais aberta, capazes de criar alternativas para situações que se apresentam em seu dia a dia, de possibilitar desafios interessantes para suas turmas e também de buscar e aplicar novas metodologias e tecnologias que facilitem essa criação. Esses são os desafios contemporâneos para criar e manter um ambiente interessante, seguro e de contínua aprendizagem.

No entanto, a formação desse ser humano se constitui como parte desse sistema. Também se faz necessário destacar algumas outras partes dele que vão potencializar uma “boa colheita” de professores qualificados e, por consequência, de crianças e jovens bem formados, que, por sua vez, podem vir a semear uma nova “boa colheita” de mais professores qualificados.

Nesse sistema, além dessa formação inicial de professores adequada ao contexto e à contemporaneidade, serão essenciais uma boa estrutura e um bom processo de ingresso na profissão, preferencialmente articulados com essa formação inicial. Implementar uma política que vincule os anos finais da formação inicial com vivências nas escolas, orientada pelos planos de Educação, currículos e avaliações, poderá trazer a articulação entre teoria e prática, bem como entre academia e escolas, que será benéfica a todos os envolvidos. É preciso que se dê uma real troca, em que a pesquisa contribua para as situações do dia a dia escolar, e o cotidiano das escolas e redes gere temas para aprofundamento em pesquisas – o abismo histórico que existe nesse âmbito precisa ser vencido. Basta começar por reconhecer que, nos dois campos, há inteligência que ainda não está sendo bem aproveitada nem articulada.

No entanto, leis bem elaboradas de estágios probatórios ou residências pedagógicas que criem essa articulação não são suficientes. Na ponta das redes, é necessário implementar condições de trabalho e progressão de carreira que conduzam esse novo profissional gradativamente à condição de regente de uma classe, sob a supervisão de um profissional regente mais experiente, para que ele seja atraído pela função e se sinta cada vez mais seguro nessa delicada tarefa de formar outra pessoa. Uma boa política de progressão na carreira docente poderá propiciar essa tutoria positiva e evitar a inevitável perda de bons professores para carreiras de gestão ou outras fora das redes em busca de melhores salários, por falta de opções ao longo de sua vida. Ainda hoje um bom professor só consegue aumento salarial por tempo de serviço ou titulação, o que tem produzido enormes frustrações e desafios para a atratividade da categoria. Devemos nos perguntar o que estamos incentivando com esse processo e se já não é hora de mudar.

Mantendo o olhar sobre esse profissional, uma forma interessante de aumentar a atratividade, além de produzir melhores condições de trabalho, seria ter carreiras alternativas. Na carreira em Y, ou seja, com duas possibilidades, ocorreriam aumentos progressivos para os docentes experientes com interesse em seguir tanto para a gestão como para a continuidade em sala complementada pelo papel de orientar e supervisionar os novos ingressantes. Em resumo, ele poderia escolher entre duas opções com aumentos paralelos, conforme o trabalho desenvolvido: seguir para a gestão, especializando-se nisso, ou para a orientação/supervisão de novos professores. Outra forma seria proporcionar a carreira em W, com três possibilidades, adicionando uma opção às duas anteriores, para docentes dispostos a formar ou tutorar colegas docentes em situações particulares do dia a dia da escola, em disciplinas específicas ou em temas relevantes para o desenvolvimento das crianças e jovens, tais como o uso de resultados de avaliação, as fases de transição do desenvolvimento humano, o clima escolar, entre outros, proporcionando uma formação em serviço efetiva e integrada às necessidades da escola ou de grupos de escolas próximas ou em situações similares.

Por fim, é necessário destacar que tecnologias educacionais têm se provado mais eficientes quando “fertilizam” esse sistema, pois somente quando tecnologia e professores estão aliados se obtêm bons resultados. Reforço: tecnologias educacionais devem estar a serviço de quem ensina e não o inverso. A pesquisa mais recente tem demonstrado que os usos que facilitam a personalização da aprendizagem de crianças e jovens ou o aumento da produtividade de escolas, deixando professores mais dedicados a tarefas mais nobres, são os que têm trazido os melhores resultados. Exemplos disso são softwares que disponibilizam listas com problemas e desafios on-line e outros que avaliam a progressão da aprendizagem com tecnologia adaptativa, usando inteligência artificial para capturar o que a criança/jovem já aprendeu e produzindo novas perguntas e tarefas mais desafiadoras. Um professor qualificado será capaz de identificar as boas tecnologias e contribuirá para aprimorá-las.

Somos pessoas e precisamos de outras pessoas para evoluir. Bons professores nos formaram e seguem dedicados a essa função. Cabe a nós não duvidar dessa máxima e investir continuamente nessas pessoas para poder alcançar a “boa colheita” que todos desejamos.

*Angela Dannemann é superintendente do Itaú Social. O artigo foi publicado no livro “Educação em Debate”, organizado pelo Todos pela Educação, Editora Moderna e Fundação Santillana. Disponível neste link, a obra reúne 46 artigos sobre os desafios da educação brasileira no período 2019-2022.