Ir para o conteúdo Ir para o menu
Polo de desenvolvimento educacional

Artigo | É tempo de repactuar a parceria entre organizações sociais e investidores

Por Angela Dannemann e Fernanda Zanelli*

As Organizações da Sociedade Civil (OSCs) são estratégicas na composição e controle de políticas estruturais. No Brasil, foram essenciais no período da redemocratização (1980-1990) para a consolidação de avanços sociais. Hoje, têm grande legitimidade onde estão inseridas, já que são peças fundamentais no quebra-cabeça de políticas que precisam ser intersetoriais e articuladas nos territórios.

Nas últimas décadas convênios públicos e doações empresariais foram fundamentais para a manutenção financeira das OSCs, tendo em vista a redução de recursos internacionais que foram substancialmente importantes para o crescimento do setor até a década de 90. A trajetória das empresas no campo social passou por distinções entre o escopo da Responsabilidade Social Corporativa e da Filantropia que, mais tarde, daria lugar ao conceito de Investimento Social Privado (ISP). Fundamentado na ideia de que o trabalho social necessitava ir além da caridade, esse emprego de capitais buscou tornar o investimento mais eficiente com o passar dos anos.

A orientação para resultados, no entanto, trouxe desafios para a parceria entre organizações sociais de base territorial e os institutos e fundações empresariais, já que para as empresas as OSCs têm dificuldades em responder aos mecanismos de gestão, ao passo que, para as organizações, as empresas não são capazes de compreender o cenário multifacetado em que elas estão imbricadas.

O alinhamento do investimento ao negócio é outro aspecto que tenciona esta relação. O relatório Benchmarking do Investimento Social Corporativo – BISC – 2017, aponta um aumento de 25% entre as empresas que afirmam investir tendo como premissa o alinhamento ao negócio, no período de 2013 a 2016. O risco deste direcionamento é que nem sempre as escolhas temáticas e territoriais desses investidores irão coincidir com as demandas sociais emergentes.

Especificamente em relação às temáticas, a composição de uma carteira de projetos aderente aos negócios dificulta a possibilidade do investimento na missão da organização, cuja atuação geralmente abriga agendas diversificadas para lidar com as necessidades comunitárias. Segundo dados do censo GIFE 2016, 58% dos respondentes apoiam programas de OSCs a partir de linhas programáticas pré-estabelecidas.

Por outro lado, para as OSCs, elementos que estão relacionados ao fortalecimento institucional figuram como as principais áreas de dificuldade na relação com investidores. Contraditoriamente, é nesse aspecto que há menos emprego de recursos. Apenas 24% dos 116 investidores respondentes apoiam OSCs institucionalmente, ainda conforme o Censo GIFE 2016.

Para organizações sociais, aprimorar a gestão passa pelo convencimento da sociedade de que resolver questões institucionais, e ter recursos para isso, são tão importantes quanto realizar o atendimento às comunidades.

A impossibilidade de investir em estruturas de recursos humanos, comunicação, planejamento, inovação, monitoramento de resultados e sustentabilidade econômica é uma grande pedra no sapato que, há anos, impede organizações sociais de avançarem em suas missões.

Para iniciar uma trajetória nesse sentido é urgente repactuar as bases da relação entre OSCs e investidores. Mais autonomia financeira para as organizações, associada à co-responsabilidade pelos resultados entre todos os envolvidos, são centrais para potencializar a capacidade de agir de estruturas e sujeitos com potencial para serem referências no desenvolvimento de metodologias geradoras de transformações sociais.

O papel do investidor social privado, além de prover recursos, é o de possibilitar espaços de troca, viabilizar assessoria naquilo que as organizações identificam como entraves, planejando, para isso, maior tempo de parceria.

Trata-se de fomentar iniciativas lideradas pelos grupos mais atingidos pela desigualdade, considerando as camadas econômicas, raciais, culturais, geográficas e de gênero. Entre os desafios está também o de assumir maior risco inicialmente, em prol de um potencial de inovação contido nas soluções emergentes dos territórios, que podem trazer resultados sociais mais consistentes em longo prazo.

Ao deslocar o status quo verticalizado das parcerias entre investidores e OSCs, trabalha-se para que práticas de gestão democrática sejam cada vez mais comuns nas instituições, aproximando-as do que são por essência: lócus de produção social, cultural e econômica grafadas pela experiência das comunidades onde atuam.

*Angela Dannemann e Fernanda Zanelli são, respectivamente, superintendente e especialista em Programas Sociais do Itaú Social