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Polo de desenvolvimento educacional

Artigo | Desenvolvimento integral: vivendo e aprendendo

A unidade escolar, embora seja uma instituição chave para a educação, não é o único lugar onde habilidades e conhecimentos podem ser conquistados

 

Por Fernanda Zanelli*

Não existe caminho para educação fora da realidade como ela é, inacabada. A presença de cada vida humana na Terra se manifesta no movimento e na consciência de nossa incompletude. O aprendizado é, portanto, um caminho longo e pode ser expresso pela fórmula de Bhaskara, por um dia no museu ou naquele abraço de adeus.  Até a areia quente nos pés descalços nos ensina, porque na concepção de uma educação integradora o corpo e as várias dimensões que perpassam a vida são importantes, sejam elas emocionais, culturais, intelectuais ou físicas.

Em tempos de corpos distanciados, é necessário reinventar maneiras de viver. Mas, como nos diz Paulo Freire, a educação para a vida sempre assim se fez, se refazendo, transbordando espaços, tempos e conteúdos para além dos muros da escola.

A unidade escolar, embora seja uma instituição chave para a educação, não é o único lugar onde habilidades e conhecimentos podem ser conquistados. Embora não seja comum a reflexão sobre outros espaços que compõem o saber, um olhar mais atento perceberá que, mesmo nas salas de aula, diferentes mundos convivem por meio da bagagem de vida de cada aluno e professor. Com um pouco mais de distância, também é possível compreender o contexto dinâmico em que a escola está inserida: fluxo de pessoas, o trânsito de carros, tantas trajetórias enredadas no curso de uma memória coletiva. Neste cenário, merece destaque o trabalho das Organizações da Sociedade Civil (OSCs), que sustentam oportunidades para crianças e adolescentes refletirem sobre o percurso de suas vivências, experimentarem novas linguagens e expressarem suas ideias.

Assim como a educação transcende os espaços, o tempo da aprendizagem não termina quando bate o sinal da escola. Em momentos de confinamento fica ainda mais evidente que diversidade também se manifesta nos ritmos, na forma como cada um tem seu momento exato de chegar até a última linha e passar para a página seguinte. O respeito e a compreensão desta amplitude de tempos para desvendar o mundo também faz parte de um olhar para o desenvolvimento pleno.

 

 

 

 

Apesar da complexidade do organismo humano e tantas palavras difíceis para descrever o comportamento do cérebro, evidências científicas demonstram que a conquista de novos aprendizados depende de atividades culturais e sociais que sempre exercemos. A exemplo do mito, é como se nossos ancestrais tivessem deixado em seu legado de hábitos e costumes um fio de ouro para nos conectar com o essencial, a despeito do labirinto de informações e estímulos a que somos submetidos.

A neurocientista Adele Diamond, da Universidade de British Columbia, em sua participação no Ciclo de Debates, realizado em 2019 pelo Itaú Social, foi categórica ao afirmar que treinar exclusivamente a cognição não é a melhor maneira de conquistar avanços no desenvolvimento, assim como o economista Flavio Comim demonstrou, a partir de estudos científicos, que as artes e os esportes têm papel fundamental para este objetivo. Segundo ele, a música, por exemplo, possibilita o raciocínio espacial-temporal de crianças, assim como a dança contribui para a autoconfiança, persistência e trabalho em grupo.

Neste momento histórico de crise, é de extrema importância o fortalecimento das instituições, das redes e movimentos de base que vivenciam esta concepção de educação, profundamente conectada às pessoas e à realidade, e que, a partir daí, evidenciam as consequências das desigualdades e da violação de direitos, mas também enxergam o poder de cada agente social na tarefa de transpor este cenário. A persistência das OSCs – que há anos atuam pelo desenvolvimento pleno de crianças e adolescentes – é, antes de tudo, esperançosa, pois não há outra maneira possível de desbravar novos caminhos que não seja pela crença de que é possível avançar.

Por mais contraditório que pareça, o (des)envolvimento depende das relações, do comum que nos atravessa como seres sociais e coletivos para gerar autonomia. Autonomia de ser quem somos e ler o mundo com a mesma peculiaridade que marca a experiência de cada ser neste planeta.

*Fernanda Zanelli é especialista da área de comunicação do Itaú Social, mestranda em Ciência da Informação (ECA-USP), com especialização em Globalização e Cultura e Gestão de Políticas Culturais.