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Polo de desenvolvimento educacional

Artigo | Aprimoramento contínuo

A formação continuada de professores é estratégia fundamental na busca por uma educação de qualidade

 

Por Tatiana Bello Djrdjrjan*

A educadora e pesquisadora uruguaia Denise Vailant destaca a formação inicial e continuada de qualidade como um dos quatro pilares de atratividade da carreira do professor. No Brasil, o debate sobre o tema tem se intensificado ao longo dos últimos anos, com o aumento do volume de pesquisas e a mudança do objeto de estudo. Mapeamento realizado pela pesquisadora Marli Eliza Dalmazo de Afonso André aponta que o número de dissertações de pós-graduação na área de educação com foco em formação continuada passou de 7% na década de 1990 para 22% em 2007. Ao mesmo tempo, as análises, antes concentradas nos cursos de formação inicial (75%), têm se voltado ao professor, seus saberes, práticas, opiniões e representações (53%).

Toda essa produção intensifica a discussão em torno das condições de trabalho do professor, que passa, entre outros fatores, pela formação inicial e continuada. O professor recém-formado ainda não está completamente pronto, é claro, para lidar com os desafios da sala de aula. As universidades oferecem as teorias e as bases gerais do ensino, mas há questões que só vão surgir quando o docente começar a conviver com as diferentes realidades das escolas e dos seus alunos. Além disso, vivemos em um mundo dinâmico, com trânsito livre e rápido de ideias e transformações. É essencial que o professor se mantenha aberto para aprender o tempo todo, para aperfeiçoar suas técnicas e para trabalhar ombro a ombro com os alunos e toda a comunidade escolar na construção do conhecimento. Vailant, em seu projeto “Professores na América Latina: radiografia de uma profissão”, reforça a necessidade de esforço para a formação em serviço.

Ao mesmo tempo, o Brasil ainda enfrenta grandes desafios no ensino e na aprendizagem, fato que ganha ainda mais complexidade quando se trata do domínio da Língua Portuguesa. De acordo com dados do Ministério da Educação, uma em cada três crianças de oito anos de idade não consegue escrever de forma condizente com sua faixa etária. Seja em leitura, escrita ou oralidade, inúmeras deficiências precisam ser superadas.

O enfrentamento dessas questões exige preparo. Os processos de formação continuada, apesar de não serem a solução para todos os problemas da educação no País, podem estabelecer um diálogo mais positivo com os docentes, gerando motivação e interrompendo o círculo que perpetua formas de agir cristalizadas no dia a dia. Proporcionando maior significado à atividade, reforça a confiança do professor em garantir a aprendizagem dos alunos. Os processos formativos não devem se restringir apenas aos conhecimentos científicos, mas considerar comportamentos, atitudes e valores.

Em um evento voltado a docentes de Língua Portuguesa realizado em São Paulo, ouvi uma declaração muito assertiva de um professor carioca. Ele dizia: “Na era da informação instantânea e da hiperconexão, a proposta da escola não pode ser a de simples transmissora de conhecimentos. Sua competência está em desenvolver capacidades, em despertar nos alunos o desejo de interagir com o conhecimento que se multiplica, fazer conexões com a vivência cotidiana e, acima de tudo, gerar transformações. Dessa forma, o conhecimento se torna vivo”. Ou seja: aperfeiçoar e atualizar sempre as técnicas de ensinar, manter-se em constante aprendizagem e saber traçar um bom planejamento de busca por resultados são estratégias que permitem ao professor ensinar melhor, e ao aluno, aprender mais.

Considerando a complexidade de todo esse cenário, o processo de formação continuada é um importante apoio ao trabalho docente, na medida em que possibilita ao professor resgatar suas potencialidades e capacidades, compreender sentimentos e emoções, para exercer a escuta e a empatia junto aos alunos e a comunidade escolar. A Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro, iniciativa da Fundação Itaú Social e do Ministério da Educação, em parceria com o Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), é uma proposta que procura seguir esse caminho. Atua com o objetivo principal de oferecer formação ao docente para melhorar a didática de produção de textos e mobilizar os professores para o ensino da Língua Portuguesa.

O Programa disponibiliza a Coleção da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro (Cadernos do Professor), material de apoio que apresenta as sequências didáticas que orientam as práticas na sala de aula. Em 2016, uma das estratégias de formação que a Fundação Itaú Social e Cenpec lançaram foram os Percursos Formativos, um diagrama interativo que abrange os eixos de Leitura, Oralidade, Escrita e Análise Linguística, em que o próprio educador conduz seu aprendizado.

O conteúdo didático e a realização das atividades propostas podem ser considerados um exemplo de formação continuada, uma vez que possibilita a construção de conhecimentos e práticas pedagógicas, o contato com novos elementos educacionais, assim como a construção de uma relação mais próxima entre professores, alunos e comunidade. As experiências não se encerram na premiação final oferecida aos autores dos cinco melhores textos de cada gênero, mas instigam o aprimoramento contínuo de saberes na vida escolar, do domínio da leitura e da escrita pelo bem da vida em sociedade.

*Tatiana Bello Djrdjrjan é especialista em educação do Itaú Social