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Articulação para avançar

A colaboração entre estado e municípios na formação de gestores das escolas públicas se reflete nos resultados de aprendizagem dos estudantes


Formação com diretoras em Ibirajuba, município da Gerência Regional de Educação Agreste Centro Norte, PE. No estado, o programa Criança Alfabetizada — Eixo de Gestão teve percursos formativos realizados no contexto do programa Melhoria da Educação. Foto: GRE Agreste Centro Norte

Por Maggi Krause, Rede Galápagos, São Paulo

Professor há 37 anos, Erivan Lopes assumiu a Secretaria de Educação de Brejão, PE, em 2017. O município tem cerca de 10 mil habitantes e 2.300 alunos na rede municipal. “As famílias sonham com um futuro melhor para suas crianças”, enfatiza o secretário, que participou com professores de um seminário sobre práticas bem-sucedidas, na sede da Gerência Regional de Educação (GRE), em Garanhuns. “Saímos envaidecidos, seguros de que sabemos fazer educação de qualidade. As tecnologias entraram de uma forma valente, arretada!”, diz. As práticas apresentadas sinalizaram avanços na alfabetização, com as crianças do segundo ano lendo perfeitamente. 

No início do mês de outubro, Erivan torcia pela aluna Laura Lorrana, do quarto ano, que passou as etapas regionais e chegou à final estadual do Concurso Ler Bem, projeto de incentivo à cultura da Associação Pernambucana de Atacadistas e Distribuidores (Aspa). A cidade de Brejão é uma das 184 que aderiram ao programa Criança Alfabetizada. “Somos apoiados pela gerência estadual com capacitações, materiais didáticos, formações do Criança Alfabetizada; nosso relacionamento é muito bom”, elogia ele, que participa de reuniões e fóruns junto com os outros 21 secretários do agreste pernambucano. “Os cursos de formação à distância nos deixaram fortalecidos. Neste semestre as escolas reabriram pintadas, seguindo os protocolos e prontas para as avaliações externas”, ressalta Erivan. 

A maioria dos municípios do Agreste Meridional conta com apenas uma escola de ensino médio. As matrículas do ensino fundamental são responsabilidade da rede municipal. “É impossível oferecer qualidade no ensino médio sem uma base razoável nos anos iniciais, por isso é preciso fazer uma articulação forte com os municípios”, explica Adelma Elias da Silva, responsável pela Gerência Regional de Educação (GRE) do Agreste Meridional, que supervisiona as 52 escolas da rede estadual, com 30 mil estudantes, a maioria no ensino médio. Ela participou das formações que serviram de base para a tecnologia educacional Colaboração entre estado e municípios através de uma cadeia formativa, acessível pelo site Melhoria da Educação, do Itaú Social. A tecnologia tem por objetivo estimular e garantir condições equitativas de ensino nas redes municipais e para isso propõe ações de formação continuada dos gestores escolares pelas equipes técnicas das secretarias estaduais, regionais e municipais.

“Uma coisa importante que resultou dos encontros foi que todos trocaram a ideia de subordinação ou de competitividade por colaboração”, diz Adelma. Em Pernambuco há municípios que isoladamente não teriam condições de realizar um programa de formação de professores e gestores, avaliação e acompanhamento pedagógico. “Junto com o Melhoria da Educação fizemos um mapeamento da estrutura de pessoal das secretarias municipais de Educação”, explica. “A maioria tem pequenas equipes e algumas têm diretores escolares que chegam por indicação, e não por processo seletivo. Fomos aprendendo a atuar com cada uma de forma diferente.” 

A prática gestora e a melhoria da aprendizagem
Aliado ao programa estadual Criança Alfabetizada, o Melhoria da Educação subsidia a gestão escolar para discutir e fortalecer a garantia da alfabetização de meninas e meninos. “A proposta, além de inovadora, incentiva o papel do gestor como líder pedagógico que implementa as políticas públicas de melhoria da educação e garante o direito de aprender que a criança nem sabe que tem”, explica Verônica Sobral, coordenadora-geral da gestão da rede na Gerência Regional Sertão do Alto Pajeú. Segundo ela, coordenadores dos 17 municípios da GRE vivenciaram o primeiro ciclo de formação em julho de 2021 e já assumiram o papel de líder alfabetizador, fazendo formações com as equipes pedagógicas na escola. “Existe uma convergência de ações que reduz a distância entre as redes, pois o resultado não é só do município ou do estado, é de todos. Afinal, o aluno é do território do Pajeú, e essa concepção integradora nos ajuda muito a atingir os objetivos de aprendizagem”, diz Verônica. 

Lucinha Magalhães, coordenadora pedagógica da Comunidade Educativa Cedac: “Quem acessar a tecnologia educacional terá pautas estruturadas para as reuniões de formação”. Imagem: site Melhoria da Educação

A colaboração já é estratégia conhecida em Pernambuco, que tem histórico de avanços calcados nessa premissa. O currículo estadual foi construído em conjunto com os municípios, e as redes municipais participam de discussões sobre políticas públicas. A gestão com foco em resultados começou em 2008, com o Pacto pela Educação de Pernambuco, criado pelo então governador, Eduardo Campos. O programa levou a rede estadual às primeiras posições no ranking nacional do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e a ter o menor índice de evasão escolar do país.

Norma Bandeira, técnica da Secretaria Executiva de Gestão de Rede (Sege), costuma ser vista como “a memória viva” de programas e projetos na Secretaria de Educação e Esportes de Pernambuco, onde trabalha desde 1998. O salário dos profissionais da educação já foi o pior do Brasil, e ainda está entre os últimos, mas houve investimento alto em formação de professores e equipes técnicas — atualmente, a maioria dos profissionais da área tem especialização”, ressalta. Alunos das escolas privadas hoje buscam as públicas e os pais elogiam a qualidade dos professores. “Não existe mais vergonha em dizer que estuda na escola pública. Esse reconhecimento da sociedade é mais importante do que o resultado do Ideb”, analisa. 

Boa gestão sustenta transformação pedagógica

Depoimentos de participantes dos encontros de formação de gestores escolares do programa Melhoria da Educação em Pernambuco

“O termo gestão não se resume à administração de recursos, como muitos fazem quando assumem o papel de diretor. Saber liderar, orientar e coordenar pedagogicamente faz parte do exercício da função. Fui privilegiada com a incumbência de multiplicar essa formação para os gestores escolares da nossa rede municipal. Investir nela é um dos melhores caminhos para gerar mudanças sistêmicas, contínuas e intencionais, com foco na redução da iniquidade na educação.” 

Maria Aparecida Morato, diretora de ensino de Quixaba, PE

“A formação oferece ao gestor condições para rever sua prática, suas ações pedagógicas e conceitos e atitudes equivocados sobre a alfabetização. O verdadeiro papel do gestor dentro da instituição de ensino é instigar as discussões e inquietar sua equipe a ir em busca de mais, primando pelo dever de fazer cumprir o direito dos estudantes.” 

Delma Lúcia, diretora de ensino de Ingazeira, PE

A construção da tecnologia educacional se iniciou em Pernambuco em 2019, primeiro diretamente com diretores escolares e coordenadores dos 15 municípios participantes do programa Educação Integrada, que conta com escolas em tempo integral. Em 2020, o contexto de atuação foi estendido para os 184 municípios que aderiram ao programa Criança Alfabetizada. “Estamos vendo um movimento bonito no estado porque toda a cadeia formativa está em funcionamento, tudo o que se projetou está acontecendo”, nota Lucinha Magalhães, coordenadora pedagógica da Comunidade Educativa Cedac.

Reunião on-line de formação para gestores escolares com Lucinha Magalhães e Maura Barbosa, especialistas da CE Cedac, no final de julho de 2021. Imagem: CGGR — Sertão do Pajeú

Ela explica que há um conjunto de movimentos virtuosos que têm muito impacto na aprendizagem dos estudantes: a discussão sobre o direito de aprendizagem, o fortalecimento de ações formativas, os profissionais trabalhando de modo colaborativo, com técnicos estaduais oferecendo ajuda aos municípios.

Lucinha, que trabalhou como formadora nas gerências regionais de educação pernambucanas, conta que os interessados na tecnologia educacional vão aprender a olhar a educação regional com uma perspectiva sistêmica, garantindo a legitimidade de cada profissional em seu lugar, mas com todos trabalhando por um mesmo propósito. “Quem acessar a tecnologia educacional no site terá pautas estruturadas para as reuniões de formação, mas que sempre permitem um espaço para a autoria, o diálogo e a escuta”, explica. Uma vez na mão dos técnicos, essas pautas irão se desdobrar de modos diferentes, ao sabor dos saberes do grupo e do espaço de criação dado aos participantes, como em toda boa iniciativa de colaboração.