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Aprendendo com a floresta

Os desafios da Fundação Almerinda Malaquias no trabalho com estudantes e famílias ribeirinhas de Novo Airão, no Amazonas


Por Jullie Pereira, Rede Galápagos, Manaus

Jordan dos Anjos sempre gostou de tocar na terra, conhecer os nomes das plantas e cuidar dos animais ao redor. Tinha 9 anos na primeira vez que desejou estudar na Fundação Almerinda Malaquias, a FAM, em Novo Airão, no Amazonas. Quando completou 10, sua mãe conseguiu uma vaga e o matriculou nessa instituição, que atende 147 crianças nos períodos de contraturno e as ensina a transformar educação ambiental em renda e estilo de vida. Hoje, aos 11 anos e recolhido em casa por conta da pandemia, o menino espera ansioso pelo dia em que possa reencontrar colegas e educadores e retornar ao aprendizado de ecologia na prática, com atividades em sala de aula e lições em plena floresta. “Aprendi que as minhocas têm 15 corações! 15!”, diz Jordan, entusiasmado e saudoso. “Eu gosto muito de estudar lá”.

Crianças da Fam em aula sobre minhocultura, durante a atividade ‘ekobé’: “A minhoca tem 15 corações!”. Foto: Jhonatas Souza Gomes/Divulgação FAM

Sua forma de ver o mundo relaciona-se muito com suas experiências na fundação. No ano passado ele foi escolhido para representar a FAM numa visita ao Parque Nacional do Jaú, que protege uma das maiores extensões de florestas tropicais úmidas contínuas do planeta. E ali participou da soltura de quelônios, testemunhando a graciosa marcha de centenas de tartaruguinhas pela areia da praia em direção às águas pretas do rio Jaú. Ficou tão encantado que passou dias lembrando de seu momento único. “A fundação é onde me sinto bem”, diz Jordan. “É lá que eu e meus amigos estudamos educação ambiental. Faço artesanato e aprendo sobre a importância do papel reciclado”.

O humano como parte da natureza

A FAM e o seu foco educacional buscam integrar-se ao contexto local e às possibilidades de uma economia sustentável. Novo Airão fica a 195 quilômetros de Manaus por via terrestre e seu núcleo urbano é cercado por reservas ambientais às margens do imenso Rio Negro. O município abriga o segundo maior arquipélago fluvial do mundo, a Estação Ecológica de Anavilhanas, com quase 400 ilhas. Nesse lugar com muito mais árvores do que pessoas, é quase como se os moradores fossem visitantes convidados. Com 19,4 mil habitantes e um território de 37,4 mil km², Novo Airão tem o equivalente a menos de 0,2% da população do município de São Paulo, com uma área 24 vezes maior. Ou seja, enquanto a cada paulistano corresponde um espaço pouco maior do que a pequena área de um campo de futebol, para cada novo-airãoense são quase 93 campos de futebol inteiros.

A economia local é baseada no extrativismo de produtos como sorva, copaíba, castanha e madeira, além do comércio, do serviço público e da carpintaria naval. As limitadas oportunidades contribuem para que apenas 6,4% de sua população tenha um trabalho formal, como apontou o IBGE em 2018. Assim, à FAM não basta falar em proteger a natureza. Trata-se de aprender a protegê-la e viver dela, gerando renda e criando afeto. Ecoturismo, diversidade cultural, coleta seletiva de lixo e agricultura orgânica, são disciplinas que fazem parte das aulas e atividades das crianças. Tudo sem linhas pré-estabelecidas, sem plano pedagógico fixo, sem avaliações com pontuação ou prêmio de melhor aluno.

Aulas e banhos de rio

Entre as tradições locais também ensinadas está o uso de plantas medicinais. Os alunos aprendem, por exemplo, que a sacaca tem propriedades antioxidantes e pode ser usada como chá no tratamento de várias doenças. “Nosso plano não é fechado e as nossas crianças são avaliadas qualitativamente”, diz a educadora Telma Lima, que coordena o programa de educação da FAM. “Vamos construindo juntos, de acordo com a necessidade dos alunos”.

Temporariamente suspensa durante o período de isolamento, uma das atividades prediletas dos alunos é a assim chamada “ekobé”, ou “vida”, em tupi.  “É uma sala de aula com 32 hectares de floresta”, explica a educadora. Os alunos são levados uma vez por semana para conhecer trilhas, fazer plantação, tomar banho no rio, estar em contato direto com a natureza. Amor à natureza também é algo que se ensina. “As pessoas quando vêm de fora acreditam que todos nós temos a questão ambiental no sangue, mas isso não é assim”, explica Telma.

Jonas segura um quelônio:  “A fundação é onde me sinto bem”. Foto: Arquivo pessoal

Também faz parte da agenda permanente da FAM a capacitação dos educadores, com atividades todas as sextas-feiras. “Quando você investe no educador ele se torna mais aberto, mais criativo, mais dinâmico”, propõe Telma. “Enquanto o poder público não valorizar o educador, infelizmente ainda teremos um grande caminho pela frente”, afirmA Telma.

Através de uma parceria, a prefeitura cede professores e trabalhadores de serviços gerais à FAM. O município tem 215 docentes dando aulas em 23 escolas de ensino fundamental e duas de nível médio. Os nove educadores da FAM recebem mentoria de palestrantes de outros estados, além das instruções sobre o funcionamento do projeto, que busca  uma formação mais inclusiva.

Um sonho em comum

A mãe de Jordan, Dagilza dos Anjos, 40, compara as crianças a “sementinhas”, como se fossem parte da flora. “Elas vão germinar e crescer com a consciência de preservar o ambiente”. Parte desse crescimento foi temporariamente suspenso durante a pandemia. Mas, diferentemente do que decidiram alguns governos estaduais, a FAM optou por adiar o retorno às atividades escolares e focou suas ações na assistência aos familiares que perderam sua renda.

Doações de máscaras, álcool em gel e produtos de limpeza foram feitas às famílias atendidas. Agora, passado o período mais crítico na capital Manaus, a FAM estuda uma forma de retornar, se isso ainda for possível, neste ano de 2020. No momento, mantém contato remoto com os educadores e alunos e realiza um questionário de avaliação sobre o acesso dos estudantes a ferramentas tecnológicas e à Internet. Também pretende adotar medidas híbridas, que contemplem todos os alunos.

Para dar conta de tantas demandas, a FAM recebe apoio de outras instituições. Sua própria criação só foi possível com o reforço de uma organização não governamental européia, em 1997. A ideia surgiu em 1992, em um barco no meio do Rio Negro, durante uma conversa entre dois homens formados por culturas diferentes, mas que tinham os mesmos sonhos de criar oportunidades para a população local: o amazonense Miguel Rocha da Silva e o suíço Jean-Daniel Vallotton. O suíço voltou para sua terra na tentativa de arrecadar fundos através da organização Ailleurs Aussi, ainda hoje parceira da FAM.

Foi somente nos anos 2000 que a fundação conseguiu maior estabilidade, passando a funcionar em um terreno cedido pela prefeitura, com foco inicial apenas na  formação de artesãos. Na época, o polo de construção naval no município era o carro forte da economia. Os rejeitos dessa produção eram pedaços de madeira, que eram queimados ou devolvidos à mata na forma de entulho. Surgiram daí as primeiras aulas de carpintaria, nas quais os pedaços de madeira recebem a forma de animais, utensílios e símbolos regionais. O curso de formação ainda acontece e uma loja virtual foi consolidada durante a pandemia para atender os clientes. O projeto virou fonte de renda que hoje nutre 37 famílias do município.

Parceria de impacto

Entre as instituições parceiras da FAM está o Itaú Social, que por meio do Programa Missão em Foco cedeu recursos financeiros e consultoria técnica que já está sendo aplicada com a equipe da fundação. Os recursos foram empregados na  construção de um auditório, reforma de salas e criação de uma mini-padaria onde os alunos terão cursos de culinária. A parceria foi estendida até julho de 2021 e, com a pandemia, a equipe começará a receber consultorias on-line. Essas oportunidades são capazes de levar um real impacto aos habitantes da Amazônia.

“Investimos nas nossas crianças, nos nossos adolescentes, para que coloquem na cabeça que são os responsáveis pelo lugar onde vivem”, diz Paulo Henrique Queiroz, diretor administrativo da fundação. “A FAM nasceu para atender uma necessidade econômica local e isso veio da educação ambiental. A gente educa nesse sentido, trabalhamos o seu lado profissional e a sua relação com a natureza”.

É comum que alguns observadores, principalmente aqueles que estão distantes e desconhecem a realidade local, se esqueçam dos ribeirinhos e caboclos que integram a população da floresta amazônica. Sim, existe desmatamento. Sim, as queimadas ultrapassaram dimensões horrendas. Sim, demarcação indígena é uma pauta acesa e prioritária. E  sim, também se faz necessário pensar em economia, emprego, renda, oportunidade de crescimento. A Amazônia possui muitas vozes, muitos encontros no meio do rio, muita gente interessada em fazer acontecer. O que se precisa, de fato, é da criação de oportunidades e fortalecimento das iniciativas já construídas, que se abrem à população local. A FAM é uma dessas portas.

Para saber mais

  • Conheça a loja virtual de artesanato da FAM