Ir para o conteúdo Ir para o menu Ir para a Busca
Polo de desenvolvimento educacional
Notícias Parceiros na educação

Aos custos, sem sustos

Programa Aprendendo a Lidar com Dinheiro auxilia centenas de professores a abordar a educação financeira em sala de aula e já chegou a mais de 60 mil estudantes em 79 municípios


Cena do vídeo da BEI Educação no YouTube: esclarecer a diferença entre desejo e necessidade é um dos objetivos da educação financeira. Imagem: Instituto BEI

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Lauro de Freitas (BA)

Uma breve consulta ao dicionário revela que os verbetes “desejo” e “necessidade” têm significados bem diferentes. O primeiro está associado aos anseios, vontades e carências, segundo o dicionário Michaelis on-line. O mesmo site traz como definição para o termo “necessidade” aquilo que é “absolutamente vital” ou “inevitável”. 

Muitas pessoas, porém, encontram dificuldade na hora de diferenciar o que querem do que realmente precisam, quando o assunto é a administração do dinheiro. No início do ano, uma pesquisa divulgada pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) revelou que 48% dos brasileiros não controlam o próprio orçamento. Antes de aprender a gastar o dinheiro, é preciso entender como organizar o fluxo de entrada e saída e definir as prioridades. Depois disso, a diferença entre desejo e necessidade se tornará tão clara quanto é no dicionário. É o que defendem especialistas de uma área que está em expansão em todo o mundo: a educação financeira. No Brasil, a busca espontânea por um melhor entendimento do universo do dinheiro tem ganhado força nos últimos anos, nos mais diferentes meios.

O livro Aprendendo a lidar com dinheiro foi lançado pela Editora BEI, em 2017, como uma dessas iniciativas. Escrita pelo economista Paulo Costa, a publicação busca simplificar alguns dos temas relevantes relacionados à economia. Segundo Priscila Saldanha, gerente de projetos do Instituto BEI, o livro foi pensado para a realidade da população brasileira. BEI significa “um pouco mais”, em tupi-guarani. A boa recepção ao livro fez com que o tema crescesse para se tornar um programa do Instituto BEI, com apoio do Itaú Social. “Queríamos uma construção coletiva de conhecimento rumo ao impacto de uma política pública que desenhasse transformação nessas relações de sala de aula”, explica Daniele Paz, diretora executiva do instituto. 

Desde 2020, a educação financeira é tema obrigatório nas escolas brasileiras, como definiu a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), devendo ser contemplada nas aulas de matemática. “Não temos a cultura de falar de dinheiro nas escolas. Agora que entrou na Base, o tema é um pouco mais aceito”, explica Priscila Saldanha. O desafio é atrair os jovens para esse assunto.

Durante a criação da proposta, algumas perguntas nortearam o processo: como tratar de juros sem tornar o assunto chato? Como falar de escolhas sem fazer uma palestra? O instituto notou que era preciso, num primeiro momento, focar na formação do professor, para que ele replicasse o conhecimento na sala de aula. Dessa forma, o professor tem autonomia para desenvolver a metodologia mais adequada com os seus alunos. Mais de 60 mil estudantes já foram impactados pelo programa, por intermédio de 633 professores de 79 municípios de Goiás e de Pernambuco. 

Daniele Paz, diretora executiva do Instituto BEI, que organiza o programa Aprendendo a Lidar com Dinheiro: espírito de colaboração para levar o conteúdo a professores e alunos. Foto: Arquivo pessoal

Goiás foi o primeiro estado a se interessar em abrigar o programa Aprendendo a Lidar com Dinheiro. Em 2019, professores de 35 municípios participaram da formação. O público-alvo são aqueles que lecionam matemática para turmas do 9º ano do ensino fundamental. “Voávamos para Goiás e nos reuníamos com as secretarias e os professores das escolas participantes do projeto”, lembra Priscila. O relato vem no passado porque a pandemia do novo coronavírus impediu a realização dos encontros presenciais, mudando todo o planejamento. 

O Aprendendo a Lidar com Dinheiro foi reformulado e passou a ter duas etapas de formação. Na primeira, os professores são preparados para o novo contexto da educação, em que precisam dar aulas à distância. São apresentados a tecnologias que facilitam a adaptação ao modelo e a metodologias inerentes à modalidade remota. No momento inicial, esse foi um desafio duplo para a equipe pedagógica do Instituto BEI, que nunca havia dado aulas à distância. Na segunda fase, os professores recebem aulas de educação financeira.

A pandemia e a crise econômica trazida por ela evidenciaram a necessidade de lidar melhor com dinheiro. Restrições, desemprego e medidas emergenciais tomaram os noticiários, como não faziam havia algum tempo. “Precisávamos colocar no conteúdo do projeto a urgência de aprender a escolher como gastar o dinheiro porque todo mundo iria ter restrição orçamentária”, relata Daniele Paz. A adesão ao programa está diretamente relacionada à sua relevância para a realidade dos participantes. “O sucesso se deu porque resolvemos ouvir estudantes e professores. São vozes importantes para fazer os ajustes e entender o que é importante na implantação.”

Encontro de apresentação do programa Aprendendo a Lidar com Dinheiro, em abril de 2021, para formação de professores: educação financeira, tema obrigatório nas escolas brasileiras previsto na BNCC, faz parte das aulas de matemática. Imagem: Seduc/GO

Em um dos seis encontros da formação, um professor levou um exemplo ilustrativo do problema. Um de seus estudantes havia utilizado os seiscentos reais do auxílio emergencial para comprar um tênis. “Ensinar-lhe a diferença entre desejo e necessidade é a nossa teoria da mudança”, diz Daniele. “Vamos fazer esse exercício na sala de aula.” Os estudantes são estimulados a levar os aprendizados para casa e compartilhá-los com as suas famílias, relacionando o conteúdo com assuntos que fazem parte do seu dia a dia. 

Para o professor Charles Bastos, que dá aulas de matemática para turmas do 9º ano na Escola Estadual Oscar Campos, em Rubiataba, Goiás, levar o conhecimento aos alunos se tornou um pouco mais difícil desde 2020. “O ensino remoto mostrou inúmeras fragilidades da educação e a precariedade econômica da maioria das famílias de nossos alunos. Isso implica a dificuldade de interação on-line”, avalia. Educador há mais de 20 anos, ele foi indicado para participar do programa Aprendendo a Lidar com Dinheiro. Charles já costumava ensinar aos seus alunos boa parte do conteúdo que viu nos encontros. “A novidade do programa estava em algumas propostas metodológicas indicadas pelos ótimos tutores que conduziram os encontros”, diz.

Aos 38 anos, o professor defende que o aluno deve ser parte de seu próprio aprendizado, e não apenas receber conteúdos. Na sala de aula, ele costuma estimular a criatividade e trazer elementos que fazem parte da realidade do estudante. Práticas que foram estimuladas durante a sua participação no Aprendendo a Lidar com Dinheiro. “Com o programa, pude me aproximar mais de ideias diferentes, novas formas de ensinar e recursos que eu pouco explorava”, resume.

Saiba mais

Leia mais