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Polo de desenvolvimento educacional
Notícias Dez perguntas para

Antídoto contra fake news

Como o EducaMídia forma professores para ajudar crianças e jovens a lidar de maneira crítica com informação e mídia no mundo conectado


Patrícia Blanco

Presidente do Instituto Palavra Aberta

Patrícia Blanco: “Êpa! Peraí! O quê?” como método para desconstruir informações suspeitas. Foto: Michell Santana/Instituto Palavra Aberta

Por Cléssio Pereira Bastos, Rede Galápagos, Goiânia

Desenvolver o pensamento crítico é um dos maiores objetivos da educação. A importância dessa competência fica ainda mais evidente diante do avanço de movimentos que negam a ciência e minam consensos sobre agendas e políticas públicas. A disseminação de mentiras sofreu grande aceleração nos últimos anos, com o crescimento e manipulação de redes sociais nas quais cada pessoa, além de receber informações, também as produz e muitas vezes as compartilha, sem nem mesmo saber se são verdadeiras. Lidar com as chamadas fake news e com as diversas estratégias de desinformação é uma habilidade essencial neste século 21, tema discutido por toda a sociedade e assunto inescapável para famílias, educadores, escolas e estudantes em todo o mundo.

No Brasil, essa discussão tem como aliado o Instituto Palavra Aberta, entidade sem fins lucrativos que atua há dez anos na defesa e promoção da liberdade de expressão. O instituto buscou inspiração em projetos internacionais e identificou na educação midiática um combo que reúne elementos da educação para a democracia, para cidadania e para a liberdade – bases da plataforma digital EducaMídia. Lançada em junho de 2019, ela já formou e certificou 12 mil professores e 450 multiplicadores. Para entender melhor como tratar do assunto no dia a dia e saber como funciona a plataforma, conversamos com Patrícia Blanco, presidente do Instituto Palavra Aberta.

NNotícias da Educação – O que é e como funciona o EducaMídia?

PPatrícia Blanco – É uma plataforma de acesso a conteúdos de educação midiática. A plataforma funciona como umhub. No site você vai ter acesso a conteúdos próprios e temos outros recursos de parceiros que a gente indica, como por exemplo o curso “Vaza Falsiane!”, um projeto super legal que tem vídeos educativos. Nossa terceira oferta são sugestões de  planos de aula que os professores podem baixar e aplicar.

NO que é educação midiática?

PÉ a habilidade de acessar, analisar e produzir informação para participar ativamente não só do mundo digital, mas do mundo conectado. Acreditamos que, seguindo os pilares Ler, Escrever e Participar, a educação midiática propicia um conjunto de competências para que qualquer cidadão possa participar ativamente do mundo da informação em que a gente vive. Nós passamos de consumidores passivos da informação para consumidores e produtores de conteúdo, os famosos “prosumers”, produtores e consumidores.

“No Brasil passamos a chamar tudo de fake news. Até aquela matéria jornalística da qual a gente não gosta, ainda que feita com critério jornalístico”

NNo universo da educação midiática dois termos são bem comentados: desinformação e fake news. O que significam exatamente?

PDesinformação é a partir desse cenário em que a gente tem grandes canais e de nós mesmos produzindo conteúdo. É um ambiente de tempestade de informações, com todo tipo de conteúdo misturado na tela de um smartphone. Nesse ambiente de abundância de informação surgem conteúdos que não são cem por cento verdadeiros. Esse é o ambiente de desinformação em que a gente vive. Fake news é a notícia fraudulenta, aquela construída com o objetivo de causar dano político, econômico ou à imagem de uma pessoa ou instituição. A desinformação é o cenário todo onde você tem várias questões, a fake news é um pedacinho dele. O que aconteceu no Brasil é que nós passamos a chamar tudo de fake news. Até aquela matéria jornalística do qual a gente não gosta, ainda que feita com critério jornalístico, a partir de dados e de fontes. Se nós não gostamos daquela informação a gente rotula de fake news. Isso é errado. Entre o que é falso e verdadeiro você tem diversas nuances. É quase como se tivesse cinquenta tons de cinza nessas nuances.

NExiste uma fórmula que ajuda a identificar a desinformação?

PNo EducaMídia a gente gosta de usar o “Êpa! Peraí! O quê?” Imagina o seguinte: você recebeu um whatsapp com a seguinte informação: “as melancias contaminadas por chineses estão disseminando o coronavírus”. Isso aconteceu, foi uma fake news que saiu por aí. Então o que você faz? “Êpa! Peraí! O quê? O “Êpa” é aquela parte que você fala assim: “Nossa, gente! Que coisa louca, isso não pode estar acontecendo!” O “peraí” é você respirar, olhar aquela informação, ir buscar quem é o autor, quem é a fonte, de onde veio, qual a data de publicação daquela mensagem. E o “o quê!” é quando você reflete e vai adiante: “passei dessa primeira fase de não compartilhar a informação sem pensar antes e vou para a terceira fase, que é a busca. Vou lá e digito: “melancias contaminadas por chineses”. Num buscador imediatamente vão aparecer informações dizendo que isso é fake, que isso não aconteceu. Porque os próprios buscadores, agências de checagem e veículos de comunicação estão repercutindo isso e rotulando aquele conteúdo.

“Se você aprende a ler criticamente a informação, a produzir conteúdo de qualidade e a participar, você usa isso para qualquer disciplina”

NComo chegamos a esse ponto com relação à informação? O jornalismo errou? A educação falhou?

PHá um conjunto de fatores. Não é culpa do jornalismo ou da educação. A credibilidade dos veículos entrou em queda brutal num momento de muitas críticas à mídia por parte da academia e de falta de investimentos na própria atuação jornalística. É o que eu chamo de uma tempestade perfeita, quando o modelo de negócio dos veículos de comunicação passa por uma completa desestruturação que veio com o advento da tecnologia. Do lado da educação falo como quem acompanhava de fora. Houve um distanciamento total da educação com relação à realidade. Enquanto o mundo estava se adaptando e mudando, em meio a tantas transformações ainda continuamos ensinando as crianças em um formato analógico. E quando as transformações no jornalismo e a estagnação da educação se encontram, o que temos é uma população despreparada para esse ambiente de informação.

NQual é a perspectiva de que isso mude?

PIsso começa a mudar um pouco com a aprovação da BNCC (Base Nacional Comum Curricular). Aí entra uma oportunidade muito rica de melhoria dessa junção de educação com jornalismo e educação com comunicação, porque em cinco das dez competências básicas descritas na BNCC é possível tratar o tema da educação midiática. Olha quantas competências e como a BNCC aborda o problema da desinformação com o objetivo de preparar esse aluno para as necessidades dos dias atuais. Temos um caminho longo pela frente, mas já há uma base que propicia melhora desse ambiente.

NO que a escola deve trabalhar com seus alunos sobre desinformação?

PÉ imprescindível que a escola entenda que educação midiática é um direito do aluno. O segundo ponto é que educação midiática não é uma caixinha, ela não precisa estar em uma disciplina específica; ela deve ser vista de maneira transversal, porque se você aprende a ler criticamente a informação, a produzir conteúdo de qualidade e a participar, você usa isso para qualquer disciplina.

“O brasileiro tem um problema sério de interpretação de texto. No universo midiático essa capacidade de interpretação fica ainda pior”

NQuais argumentos podem nos ajudar a trazer os pais para essa discussão?

PComeçaria com este: “Você deixaria seu filho atravessar o cruzamento de uma grande cidade sozinho?” Ou, ainda: “Você tem medo que ele possa ser sequestrado, assaltado ou atropelado?” Muitas vezes os pais deixam a criança com um dispositivo móvel e não colocam nenhum controle parental de conteúdo. Entregam o seu celular com todo um histórico de navegação. Para os pais é isso, a educação midiática vai ajudar, inclusive, a garantir uma segurança e uma diminuição do risco que o mundo conectado traz, fazendo com que os filhos entendam quais são as oportunidades desse mundo.

NComo é ensinar educação midiática em um cenário de 57ª posição no Programa Internacional de Avaliação de Alunos, o PISA?

PQuando o projeto começou, há três anos, a gente chegava para falar de educação midiática e as pessoas olhavam para mim e diziam que o brasileiro tinha problema de alfabetização. Diziam que a gente precisava primeiro ensinar português e matemática. Não adianta mais ensinar só português e matemática. A gente precisa ensinar análise crítica e pensamento crítico, e isso passa pela educação midiática. Ela tem que ser concomitante com português, matemática, ciências e biologia, ela tem que estar junto, ou não vamos formar cidadãos que estejam preparados para atuar nesse mundo em que a gente vive. O brasileiro tem um problema sério de interpretação de texto, e quando você joga isso dentro do universo midiático essa interpretação de texto fica ainda muito pior.

NComo você vê a relação dos adolescentes com a informação? Eles lidam com ela melhor ou pior do que seus pais? E os professores?

POs adolescentes sabem lidar melhor do que seus pais, mas de forma muito inocente. A gente não gosta do termo “nativos digitais” porque o fato de chamar o adolescente de nativo parece que ele já nasce sabendo tudo, e isso é uma falácia. Ele pode saber mexer no dispositivo, mas é um inocente digital e acaba não entendendo seu papel por causa dessa inocência. Mas vejo que ele está mais aberto que os pais. Ele não tem medo de aprender uma tecnologia nova. Ele não tem medo de experimentar o Tik Tok, o que ele não sabe é qual o impacto que uma ação sua pode ter nesse meio. Já o trabalho com o professor é um desafio grande, pois é preciso também que ele se dispa de muitas das suas verdades. Quando se fala de imprensa, a gente encontra muitos professores com raiva da imprensa, e é preciso desconstruir um pouco disso. A imprensa precisa ativamente de críticas, mas ela não pode ser demonizada. Ao demonizar a imprensa você estará ajudando aqueles que querem controlá-la e restringir a função do jornalista como crucial para a sociedade e para a democracia. O que a gente busca é ter uma conversa franca com o professor para que ele entenda também o seu papel e reconheça que ele mesmo já faz um trabalho excepcional de desenvolvimento do senso crítico. Nossas formações passam também por fazer com que ele se empodere desse novo conhecimento da educação midiática para melhorar o seu dia a dia e o do seu aluno. Termino com uma frase do pesquisador italiano Paolo Celot, que dá uma medida da importância que assumiu a educação midiática: “Não é mais uma vantagem ser midiaticamente educado; pelo contrário, é uma desvantagem debilitante não ser.”