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O Cenprhe Canopus identifica potencialidades e promove o desenvolvimento integral de crianças e jovens em Várzea Grande, Mato Grosso


Apresentação do grupo de dança do Cenphre, em foto de 2019: organização atende 150 estudantes de 6 a 15 anos. Foto: Divulgação/Cenprhe

Por Julia Fabri, Rede Galápagos, São Paulo

Os moradores da Vila São João, em Várzea Grande, cidade vizinha de Cuiabá, enfrentavam muitos problemas conhecidos por quem vive em loteamentos irregulares no Brasil: lixo espalhado, moradias de papelão e crianças passando o dia nas ruas. Em 2005 a prefeitura prometeu urbanizar o bairro e regularizar a situação de quem vivia ali. Um ano antes, a precariedade da vila sensibilizou a missionária paranaense Maria Tereza Urbano. Formada em pedagogia na Itália, Maria Tereza chegou ao Mato Grosso em 1991, mas só conheceu o local em 2004. “A situação de extrema pobreza me tocou e eu não poderia ir embora sem fazer nada por aquelas crianças. Sabia que os desafios seriam enormes, mas decidi ficar e morar no bairro”, conta. Era o início da história do Cenprhe, o Centro de Promoção Humana Emanuel.

Primeiro desafio: driblar a desconfiança
Em 2005, a missionária Maristela Arbués Nery chegou à vila para atuar com Maria Tereza. Sem recursos e vivendo em uma casa muito simples, as duas usavam um barracão emprestado, sem água encanada ou energia elétrica, para brincar com as crianças, organizar tarefas escolares e ensinar noções de higiene.

Maria Tereza e Maristela, em foto de 2019: de sua decisão de trabalhar com crianças e adolescentes da Vila São João nasceu o Cenprhe, em 1994. Foto: Kennid Richely Teixeira

As atividades se popularizaram e as novas moradoras foram, aos poucos, ganhando a confiança da comunidade. “Não foi de imediato. Certa madrugada, policiais entraram armados na minha casa, revistaram tudo e foram embora. Acredito que alguém tentava me intimidar”, lembra Maria Tereza. “Não tive medo. Sei que as pessoas acreditavam no trabalho que a gente desenvolvia”. Com o tempo as missionárias mobilizaram moradores de Várzea Grande a ajudar o Cenprhe com doações em dinheiro e apoio voluntário. 

Iniciativas inspiram mudanças
Muitas melhorias no bairro se concretizaram em 2008. As ruas foram asfaltadas, mais de 200 moradias foram construídas e parte das famílias passaram a receber aluguel social. Em paralelo, o Cenprhe ganhou um espaço físico oficial. Graças às doações e aos parceiros voluntários, o primeiro bloco da atual estrutura e a construção da quadra poliesportiva foram concluídos. O Cenprhe começou a oferecer atividades culturais e opções de lazer como aulas de capoeira, dança e música, conforme demandas das crianças. “Não fomos responsáveis pelas mudanças no bairro, mas acredito que nosso empenho em transformar a vida dos moradores e nossa proximidade com assistentes sociais do município motivaram a prefeitura a agir”, conta Maria Tereza. Em 2009, mais um terreno foi comprado, e o Cenprhe se formalizou como Organização da Sociedade Civil (OSC). No ano seguinte, foram iniciadas as obras para a construção do segundo bloco da sede.

Ailson, Jorge e Diego aguardando a próxima atividade de recreação, em foto de 2019: parceiros e voluntários financiaram a construção da primeira quadra poliesportiva, concluída em 2008. Foto: SPE Produção Cinematográfica

No início, Maria Tereza concentrava todas as funções da OSC, mas, com o tempo, se especializou na elaboração de projetos e distribuiu as demandas. Hoje, entre funcionários registrados e prestadores de serviços, são 19 colaboradores, alguns deles ex-beneficiários do Cenprhe que moram na vila e conhecem bem as necessidades das crianças. A equipe é composta por orientadoras sociais, merendeira e instrutores de atividades como karatê, informática, hip hop, balé, guitarra e incentivo à leitura, além de psicólogos voluntários. A OSC atende 200 crianças de 6 a 15 anos que vivem em 13 bairros próximos. “Todas devem estar matriculadas na escola regular, mas, às vezes, algumas não estão porque não há vaga nas escolas locais. Nesses casos, atuamos junto ao conselho tutelar para tentar resolver a situação. Acompanhamos o desenvolvimento dos alunos visitando as escolas e trocamos informações com professores para fortalecer vínculos comunitários”, diz a gestora Maísa Coutinho.

Maria Fernanda e Amanda na sala de dança, numa foto pré-pandemia: aulas de balé, entre outras atividades. Foto: SPE Produção Cinematográfica

Para fortalecer os elos familiares, são organizadas reuniões e oficinas mensais temáticas. O Cenprhe se tornou um centro de apoio para a comunidade em várias frentes. O espaço físico passou a abrigar as reuniões dos moradores do bairro e a receber profissionais que oferecem assistência jurídica à população. O acesso aos serviços de saúde também foi viabilizado. Colaboradores mais antigos se recordam de que no início das atividades, muitas crianças tinham verminose e mal podiam esperar para receber o lanche do dia.

Com a formalização, a OSC articulou a realização de exames nas unidades de saúde mais próximas e fortaleceu a distribuição de alimentos. Desde 2017, graças à parceria firmada com o Instituto Canopus, o programa “Colcha de Retalhos” facilita oficinas de corte e costura para mulheres, promove a geração de renda e entrega cesta básica às alunas que não faltam às aulas. O projeto “Primeiros Passos”, por sua vez, prepara e capacita jovens para o mercado de trabalho, oferecendo um certificado. Quando há vagas disponíveis nas turmas, adultos da região que estão procurando recolocação profissional também podem participar. Quem conclui o curso é encaminhado ao Sebrae, Senai ou CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola). 

Referência no terceiro setor
Hoje chamada Cenprhe Canopus, a OSC, indiretamente, atua junto a outras organizações da região, acompanhando atividades e compartilhando não só experiências, como também material pedagógico e até profissionais. “Nos tornamos referência pela nossa capacidade de gestão e pelas boas práticas pedagógicas”, diz Maria Tereza. “Fazemos questão de dividir conhecimento para que outras instituições também possam se sustentar”. A organização tem se tornado cada vez mais sustentável financeiramente. Dois programas do Itaú Social contribuem para a expansão das atividades. Desde 2015, o Redes de Territórios Educativos oferece formação aos colaboradores e promove a articulação da organização com outras instituições locais, estruturando, assim, uma rede de proteção ainda mais forte. “É uma oportunidade única de aperfeiçoar nossos processos e projetos, desenvolver habilidades e aprofundar nossos conhecimentos”, afirma Josandra Carmona, coordenadora de projetos do Cenprhe Canopus. Em 2019, a OSC foi convidada a participar também do programa Missão em Foco. “Se não fosse por isso, nosso orçamento para 2021 estaria comprometido em razão da pandemia”.

A equipe multidisciplinar do Cenprhe, em foto do ano passado: entre os 19 colaboradores há orientadoras sociais, merendeira e instrutores de atividades como karatê, informática, hip hop, balé, guitarra e incentivo à leitura, vários deles ex-beneficiários que continuam morando na vila São João. Foto: Kennid Richely Teixeira

Mapeando as dificuldades
Um dos objetivos do Cenprhe Canopus em 2020 era envolver ainda mais a comunidade nas atividades, e as mudanças impostas pela pandemia aceleraram o processo. “Passamos a orientar com todo tipo de informação, até mesmo em relação à solicitação do auxílio emergencial”, diz Maria Tereza. A OSC soube que muitos pais e alunos não iam às escolas buscar as tarefas para fazer em casa e começou a enviar as lições pelo WhatsApp ou imprimir e entregar pessoalmente, acompanhando o desenvolvimento das crianças. “Estamos ainda mais próximos. Temos comissões de pais nos bairros e formamos 11 grupos virtuais para manter contato diariamente”, explica Maísa. “Identificamos, por exemplo, quem são as meninas que engravidaram no período, quem não tem acesso à internet, quem perdeu o emprego, e mapeamos as dificuldades para poder oferecer assistência de forma mais assertiva.” 

No Cenprhe Canopus, as oficinas lúdicas foram adaptadas, assim como as de dança e música. Os alunos levam para casa atividades impressas e instrumentos emprestados. Para quem tem celular, mas enfrenta as limitações de um pacote de dados modesto, os professores enviam vídeos de até dois minutos com orientações. As comemorações dos aniversariantes do mês continuam, mas com restrições. As crianças entram em grupos de três, ganham bolo e tiram fotos. As entregas de marmitas, alimentos doados e kits de higiene contemplam mais de 200 famílias. “É claro que a socialização é muito importante e nada substitui o contato físico, um abraço, mas enquanto isso não é possível, estamos nos esforçando para que as crianças não se sintam esquecidas”, diz Josandra.

Cada criança precisa acreditar em si mesma
A missão da OSC é ouvir cada criança de forma individualizada, oferecendo ferramentas para que conheçam suas habilidades cognitivas, afetivas e motoras e se desenvolvam integralmente. Para Maria Tereza, o processo só é bem-sucedido porque envolve um olhar amoroso.

“Quando confiamos nas crianças e trabalhamos sua autoestima, elas passam a acreditar em si mesmas, a sonhar e se tornam protagonistas de suas histórias”, afirma.

Alice, Thais e Anny Caroline: medalhistas de bronze, ouro e prata em campeonato de karatê, em 2019: Foto: Kennid Richely Teixeira

Muitos ex-beneficiários da organização já chegaram a concluir o ensino superior. Três adolescentes que viram uma flauta pela primeira vez no Cenprhe Canopus hoje estudam música e querem se aperfeiçoar profissionalmente. Um jovem que iniciou no esporte por meio do projeto “Atletas do Futuro”, em parceria com o Sesi, hoje integra um time de rugby em Portugal. “A educação, não somente a educação formal, nos tira de uma caverna”, afirma a educadora. “Ela abre nosso coração e nos apresenta um mundo de conhecimento e possibilidades. Todas as pessoas têm potencialidades, mas precisam de oportunidades para descobri-las”.

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