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Polo de desenvolvimento educacional
Notícias Dez perguntas para

“Acesso à internet é material escolar básico”

Meses de escolas fechadas evidenciam a necessidade urgente de avançar no uso planejado e sistemático das novas tecnologias educacionais


Lúcia Dellagnelo

Diretora-presidente do Centro de Inovação para a Educação Brasileira-CIEB

Lúcia Dellagnelo, do CIEB: “O grande legado desta pandemia será mostrar que a tecnologia é uma aliada para garantir o direito à educação de todas as crianças e adolescentes.” Foto: Divulgação/CIEB

Por Caco de Paula, Rede Galápagos, São Paulo

Desde que as aulas presenciais foram suspensas, em final de março, manter atividades de aprendizagem remota tem sido um desafio para educadores, gestores de educação, famílias e cerca de 48 milhões de alunos do ensino básico no Brasil. Um conjunto de pesquisas feitas com esses públicos lança luzes sobre pontos críticos que merecem atenção e respostas de políticas públicas. As três ondas da pesquisa Educação Não Presencial na Perspectiva dos Estudantes e suas Famílias, realizada pelo Datafolha a pedido do Itaú Social, Fundação Lemann e Imaginable Futures, mostram que algum tipo de atividade pedagógica havia chegado a 82% dos estudantes em isolamento até o mês de julho. Ou seja, 18%, ou aproximadamente 8,6 milhões de estudantes, não receberam nada nesse período. Além disso, pais e responsáveis de três em cada dez alunos temem que eles acabem abandonando os estudos. “É preciso olhar esses dados em termos de política pública para essas redes, apoiar famílias e professores, fazer uma busca ativa dessas crianças que não receberam materiais ou que estão em risco de evasão escolar”, recomenda a economista Esmeralda Correa Macana, da área de Pesquisa e Desenvolvimento do Itaú Social.

Emergem das experiências e pesquisas desses meses de escolas fechadas alguns dados inescapáveis sobre o uso de tecnologias digitais na educação. Primeiro porque evidenciam ainda mais a desigualdade social quando se trata de conectividade e estrutura para estudar em casa. E, também, porque trazem subsídios para um olhar mais apurado sobre a necessidade de uso planejado e sistemático dessas tecnologias no contexto da aprendizagem – e não apenas na pandemia, pois, ainda que importante, sua aplicação emergencial está longe do potencial de contribuição que é capaz de dar ao processo educativo. Nos últimos anos, enquanto muitos setores da sociedade adaptaram-se ao mundo digital e conectado, o cotidiano da vida escolar, principalmente na rede pública, permaneceu relativamente alheio aos impactos das novas tecnologias. Para compreender mais o assunto, fomos conversar com a doutora e mestre em educação Lúcia Gomes Vieira Dellagnelo, diretora- presidente do Centro de Inovação para a Educação Brasileira (CIEB), associação sem fins lucrativos criada em 2016 com o objetivo  de promover a cultura de inovação na educação pública.

NNotícias da Educação – Durante a pandemia, os termos “ensino à distância” e “aprendizagem remota” às vezes têm sido usados quase como sinônimos, quando são conceitos diferentes. Pode esclarecer?

LLúcia Dellagnelo – Educação à distância é uma modalidade reconhecida e regulamentada pelo Ministério da Educação (MEC) para o ensino médio e para a educação profissional. Depende do protagonismo dos alunos e de sua autonomia para estudarem. Não é produto para o ensino fundamental. Já as estratégias remotas de aprendizagem são todas as atividades não presenciais oferecidas como alternativa à escola. Elas buscam promover aprendizagem, distribuir conteúdos educativos, mas não têm um planejamento curricular e de avaliação como ocorre no caso da educação à distância. São ações reativas ao fechamento das escolas, mas não surgiram de um planejamento político-pedagógico da escola para este ano de 2020. 

NA pesquisa “Educação Não Presencial na Perspectiva dos Estudantes e suas Famílias” mostra que em 37% das residências com um estudante e em 64% das que tem três estudantes ou mais, as condições de acesso à internet são precárias ou inexistentes. O isolamento evidenciou a desigualdade?

LA desigualdade de acesso no Brasil é um dado conhecido, que agora foi escancarado pela pandemia. Algumas crianças têm acesso a computador e telefone com plano de internet ilimitado, outras dependem do celular da mãe ou do pai para fazer as tarefas escolares – e muitas vezes têm de dividir esse único aparelho com vários irmãos e demais pessoas da casa. Acesso a computador ou a algum equipamento ligado à internet é material escolar básico. Qualquer estudante do século 21 deveria ter acesso a isso, para poder estudar e aprender. O fechamento nas escolas acelerou a adoção de algo que já defendiámos há muito tempo: o ensino híbrido, que integra a tecnologia e também valoriza o momento presencial e a interação entre professores e alunos para melhorar a educação. O que aconteceu foi que de repente, e totalmente sem planejamento, educadores, professores e membros das secretarias de educação começaram a procurar maneiras de manter os estudantes engajados nas atividades de aprendizagem. Você pode olhar o copo meio cheio ou meio vazio. Olhando o copo meio cheio, houve uma sensibilização. Mesmo os  professores que não estavam acostumados a usar a tecnologia para ensinar começaram a ver que essa era a única maneira de chegar aos seus alunos. Essa resposta acelerou o uso da tecnologia na educação. Nós vamos nos deparar com muitos problemas ainda. Os professores não estavam preparados e não havia material no formato adequado. Neste momento ainda não estamos fazendo o melhor uso da tecnologia, que é quando ela transforma a prática pedagógica. Mas ela está possibilitando que as crianças se mantenham pelo menos parcialmente engajadas em atividades de aprendizagem. 

“O que houve durante a pandemia foi um protagonismo dos estados, que buscaram as soluções, trocaram experiências e aprenderam entre eles”

NComo usar as novas tecnologias para conseguir melhores resultados de aprendizagem?

LNão existe uma correlação direta entre a tecnologia e a aprendizagem. Vários países que investiram muito em tecnologia não viram uma melhora nos seus processos de aprendizagem. Para ter impacto na qualidade da educação, uma política de tecnologia precisa integrar quatro dimensões. A primeira é uma visão muito clara do porquê usar essa tecnologia. Não basta uma visão escrita em documentos políticos educacionais. Precisa ser expressa no currículo e nas práticas pedagógicas.Têm de ser incorporada na transformação da educação. A segunda dimensão é a competência, tanto de gestores quanto de professores para saberem incorporar a tecnologia no exercício de sua profissão. A terceira são os recursos educacionais digitais, um conjunto de recursos educacionais alinhados ao currículo, que ajude os educadores a fazer melhor o seu trabalho. A quarta dimensão é a infra-estrutura da escola, como a conectividade e acesso a equipamento.

NAs políticas educacionais levam em conta essas necessidades? 

LO Brasil passou quase 20 anos sem ter uma política de tecnologia educacional. A última política abrangente, desenhada de forma ampla, foi o Proinfo (Programa Nacional de Tecnologia Educacional) criado pelo MEC em 1997. Em 2017 o ministério lançou o PIEC (Programa de Inovação e Educação Conectada) que já foi desenhado nessas quatro dimensões.  Esse programa está sendo retomado agora, pela nova gestão do MEC. Nós esperamos que o MEC realmente assuma a posição de liderança, para elaborar e dar mais condições de ampliar e aperfeiçoar essa política lançada em 2017.

NComo têm sido as respostas dos gestores da educação às novas necessidades de tecnologia trazidas pelo fechamento das escolas? 

LO que houve durante a pandemia foi um protagonismo dos estados, que buscaram as soluções, trocaram experiências e aprenderam entre eles. O que não vimos foi um protagonismo do MEC em guiar e orientar o estabelecimento dessas ações. Agora que conseguiram colocar essas estratégias de pé, os estados estão cobrando do MEC mais recursos e políticas para dar continuidade ao trabalho. O uso da tecnologia foi muito importante para dar essa resposta emergencial e será essencial na retomada das aulas, para complementar com novas atividades as horas perdidas durante a pandemia. Todos os estados, em maior ou menor grau, conseguiram estabelecer estratégias de aprendizagem remota. Vimos que devido à desigualdade da rede não há uma solução única, mas sim um mix de estratégias usando a tecnologia e também distribuição de material impresso, programas de rádio e televisão. A complementaridade aumenta as chances de que o aluno permaneça engajado. Como, por exemplo, quando você distribui um material impresso mas consegue que o professor coloque tarefas e desafios em projetos coletivos com os alunos por meio de um aplicativo ou uma rede social.

“Quanto mais acompanhamento individualizado o aluno tiver, maiores serão as chances de continuar engajado nas atividades”

NA pesquisa Datafolha mostra que falta motivação dos estudantes para as atividades em casa: cresce de 46% para 53% da primeira para a segunda onda de entrevistas. Outras sondagens também apontam uma baixa no engajamento dos alunos na aprendizagem remota. O que já se sabe sobre isso? 

LA maioria das redes de ensino passou a sentir uma baixa no engajamento. As pesquisas do Conselho Nacional de Juventude também mostram isso. A questão da evasão ou da desistência dos cursos on-line é um fenômeno muito conhecido. Estudos feitos fora do contexto de pandemia mostram que para haver engajamento dos estudantes nas plataformas on-line é preciso manter um nível de interação com esse aluno. Se ele acha que não está interagindo diretamente e que ninguém vai perceber que ele desistiu do curso, a taxa de adesão tende a cair. Quanto mais acompanhamento individualizado ele tiver, maiores serão as chances de continuar engajado nas atividades. Uma boa maneira de manter esse engajamento está acontecendo de forma quase intuitiva nas redes. Ainda que as aulas sejam coletivas, o professor fica mandando whatsapp para o aluno e para a família. Isso ajuda muito. 

NA educação básica nunca mais voltará a ser totalmente presencial?

LTomara que nunca mais seja. Porque com isso estaremos resolvendo dois problemas. Além da complementação do que não foi trabalhado este ano, no Brasil temos o problema do pouco tempo que as crianças passam na escola. Fala-se em quatro horas diárias, mas alguns estudos mostram que as crianças só ficam envolvidas na aprendizagem por cerca de duas horas e meia a três horas. É pouquíssimo. Uma especialista americana até já questionou: ‘Como vocês querem comparar os resultados do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) se em alguns países as crianças ficam na escola de seis a sete horas enquanto no Brasil são apenas 3 horas?’ Por isso, vejo a tecnologia como uma grande aliada para oferecer a educação em tempo integral, uma luta já de muitos anos no Brasil. Com a tecnologia, a criança pode estar na casa dela e continuar envolvida em atividades de aprendizagem, desde que a gente equacione o grande problema que é de acesso.

“Nenhum secretário de educação vai correr o risco de não se preparar para realmente saber usar a tecnologia a partir de agora”

NA pesquisa “Desafios das Secretarias Municipais de Educação na oferta de atividades educacionais não presenciais” aponta que as redes públicas ainda enfrentam vários problemas com o ensino remoto. De indefinições legais à falta de treinamento dos professores.  Como os gestores de educação podem lidar melhor com isso?

LLogo que as escolas fecharam, nossa primeira ação foi identificar o que as redes pretendiam fazer e tentar ajudá-las nos seus planos de oferecer atividades remotas. Na primeira onda da pesquisa com estados e municípios foram reconhecidas sete estratégias, que contemplam uso de plataformas on-line, aplicativo, TV, rádio, distribuição de material impresso e plataformas virtuais de aprendizagens. Vimos o que estava sendo planejado nas redes, sistematizamos e trouxemos referências técnicas para ajudar os secretários a implementarem. Assim, criamos uma página com foco nas necessidades durante a pandemia (https://pandemia.cieb.net.br/) para ajudar o gestor público neste momento. Começa com os resultados das pesquisas mostrando que escutamos esses gestores para descobrir como ajudar e tem os materiais das estratégias remotas de aprendizado, mostrando como você as implementa, passo a passo. Você coloca os dados de sua rede nessa plataforma e ela sugere as estratégias mais adequadas, de acordo com seu contexto, mostram como fazer, quem você tem de envolver para que isso aconteça, qual é a produção de material, qual é o planejamento das ações. Os dois últimos módulos tratam de como saber se a estratégia está sendo bem implementada e se os alunos estão aprendendo com ela. Ser professor no século 21 exige competências digitais. Construímos uma matriz de competências e uma ferramenta de autoavaliação (Guia EduTec | CIEB) para o professor descobrir o que sabe e o que não sabe sobre tecnologia. Cerca de 50 mil já fizeram a autoavaliação. Muitos estão em um nível de conhecimento ainda básico e terão de correr atrás para expandir essas competências digitais.

NAs pesquisas mostram ainda que muitos pais gostariam de ajudar os filhos no esforço de aprendizagem remota, mas não se sentem preparados. Há quem diga que os pais também deveriam ser treinados nas novas tecnologias. Como vê isso?

LDevemos ter muito claro que o papel da família no processo de escolarização é apoiar, criar condições no seu aprendizado. Mas não podemos exigir que as famílias sejam professores, que ensinem conteúdo escolar. Porque, ao fazer isso, você está criando mais desigualdade ainda, pois crianças filhas de pais educados, que têm nível superior, terão um nível de acesso e apoio muito maior do que as outras. Então, a responsabilidade de ensinar é dos professores, é da escola. A gente não pode transferir a responsabilidade da educação formal só pras famílias, pois com isso estaríamos aumentando a desigualdade social.

NO uso emergencial da tecnologia no período com as escolas fechadas terá impactos duradouros no sistema de ensino?

LO grande legado dessa pandemia será mostrar que a tecnologia é uma aliada para garantir o direito à educação de todas as crianças e adolescentes. Já não é mais uma questão de saber se gosto da tecnologia ou se acredito nela. É uma condição para a educação do século 21. A adoção do ensino híbrido, que une o presencial e o on-line, foi acelerada por conta desse evento. Para todas as redes agora ficou muito clara essa necessidade de planejamento, investimentos em longo prazo e foco na formação do professor. Nenhum secretário de educação vai correr o risco de não se preparar para realmente saber usar a tecnologia a partir de agora, seja em tempos ‘normais’, quando não há ameaças de saúde pública, seja por necessidades causadas pelas mudanças climáticas, ou por outros problemas que obriguem as escolas a permanecer fechadas.