Ir para o conteúdo Ir para o menu Ir para a Busca
Polo de desenvolvimento educacional
Notícias Boas lições

Aceleração no aprendizado

Em dez dias, curso de férias testa nova abordagem e faz crianças evoluírem o equivalente a 1,3 ano de ensino comum de matemática


Crianças aprenderam através do trabalho em equipe no curso de férias Mentalidades Matemáticas, realizado em janeiro de 2020: foco na compreensão do processo. Foto: Itaú Social

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Salvador, medalhista da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP)

Dez dias. Esse foi o tempo necessário para transformar para melhor a relação de 68 crianças com a aprendizagem da matemática. Um curso de férias foi realizado em janeiro de 2020 com estudantes da rede pública de Cotia, município da região metropolitana de São Paulo, e deixou expectativas positivas em professores, famílias e alunos.

A atividade teve uma proposta diferente daquela executada no dia a dia da sala de aula. Através de jogos e brincadeiras, da interação e do trabalho em equipe, as crianças foram estimuladas a chegar às soluções por conta própria e sem medo do erro. Essas são algumas das características da abordagem Mentalidades Matemáticas, que visa proporcionar às crianças um ambiente seguro e efetivo de aprendizagem.

Com apoio do Itaú Social, o Instituto Sidarta desenvolve a pesquisa e a aplicação da metodologia Mentalidades Matemáticas em solo brasileiro. O curso de férias foi um experimento prático da abordagem, que tem como público-alvo principal no Brasil os estudantes da rede pública. Assim, o projeto foi apresentado à Secretaria de Educação de Cotia, que indicou duas escolas. Foram convidados para o curso alunos ingressantes no 5º ano da Escola Municipal Prefeito Ivo Mario Isaac Pires e do Centro Educacional Unificado de Cotia (CEUC).

A pedido do Instituto Sidarta, as duas escolas escolhidas ficam na zona rural do município. Os dez dias de atividades aconteceram nas dependências da primeira escola, carinhosamente apelidada de “Ivo”.

Cláudia Siqueira é a diretora pedagógica do Instituto Sidarta. Ela sempre estudou em escola pública e entende a importância da atenção a todos: “Para mim, só faz sentido pensar em educação se for para dar acesso ao maior número possível de pessoas. Todo mundo tem direito a uma educação de qualidade”. As boas perspectivas da primeira edição do curso permitem pensar num futuro melhor para a educação brasileira. “A nossa intenção mais utópica com o Mentalidades Matemáticas e o curso de férias é que eles sejam um projeto político de educação”, conclui.

Professores, pedagogos, licenciandos, profissionais de logística e pesquisadores formaram uma equipe de quase 40 pessoas. Durante os dez dias de atividades, os alunos chegavam às 8h30 e ficavam na escola até as 15h30. Pela manhã, eram apresentados a conteúdos matemáticos e a mensagens importantes,como a de que os erros, na verdade, são bons para o cérebro, ou a de que a velocidade da resolução do problema matemático não é tão importante quanto o verdadeiro entendimento do processo.

Matheus com a mãe, Bruna: “A gente se divertia com os números”. Foto: Arquivo pessoal

A parte da tarde era dedicada, dentre outras coisas, ao desenvolvimento da noção de comunidade de aprendizagem, com atividades que estimulavam o sentimento de pertencimento, a comunicação e a colaboração, como a proposição de desafios coletivos. Havia, por exemplo, um painel de matemáticos inspiradores. Durante as atividades, as ideias das crianças dividiam espaço com as dos matemáticos na parede, o que as fazia perceber as suas ideias sendo validadas. Ao fim do período de dez dias, os alunos haviam avançado em aprendizagem de matemática o equivalente a 1,3 ano do ensino comum da disciplina.

“A matemática não é tão chata”
Bruna Santos é mãe de Matheus Ryan, de 11 anos. Ele estuda no CEUC e recebeu o convite por meio de uma mensagem no caderno. “Nem precisei convencê-lo porque ele sempre gostou de matemática e aprovou a ideia imediatamente, porque ia ficar perto dos amigos nas férias”, lembra Bruna. Mãe de outras três crianças, ela conta que a experiência do curso de férias teve impacto até mesmo nos irmãos de Matheus. “Ele trabalhou tanto em grupo lá que acabou trazendo a experiência para casa. Eu e o pai dele trabalhamos fora e só chegamos tarde. Ele me ajudou bastante com as lições dos irmãos mais novos”, afirma, orgulhosa.

Os relatos das crianças durante e após o curso revelam que a matemática estava deixando de assustá-las e até pode ser divertida. De acordo com Matheus, “era aula, só que, enquanto a gente aprendia, a gente se divertia com os números”. Confirmando a impressão de sua mãe, ele disse que o que mais gostou foi de trabalhar em equipe. “Se um precisava de ajuda, todo mundo do grupo ajudava. Era muito interativo, todo mundo brincava com os números, em vez de estudar mesmo”, lembra.

Já Jakeline, de 11 anos, não tinha muita afinidade com a disciplina quando recebeu o convite do curso de férias. Mesmo assim, se empolgou com a ideia e resolveu participar visando se desenvolver na matemática. Após a experiência de dez dias, a mudança é perceptível até mesmo no tom de voz entusiasmado dela, ao declarar que “a matemática não é tão chata. Na verdade, eu acho que ela é bem divertida porque você pode vê-la em todo lugar e tem vários jeitos de resolver. Fica muito mais fácil desse jeito”.

Jakeline viu o seu desempenho melhorar após o curso (no detalhe, exercício em seu caderno): “A matemática é bem divertida porque você pode vê-la em todo lugar”. Foto: Arquivo pessoal

Além da voz, o desempenho nas atividades escolares entrega a empolgação de Jakeline com a matemática. Natália Gonzaga aprovou a ação do Instituto Sidarta ao perceber a evolução de sua filha nas tarefas. “Pelo que tenho visto no caderno dela, melhorou bastante e agora passou a gostar mais da matemática”, conta. O desenvolvimento da autoconfiança é uma das premissas do método Mentalidades Matemáticas.

Como toda boa experiência de férias, o curso deixou saudade. Natália lembra que Jakeline ficou triste quando terminou: “Ela falou que queria continuar, que gostou muito do jeito como eles ensinaram e das professoras. Ficou empolgada, querendo mais”. Matheus também já havia se acostumado com a nova rotina. “Quando terminou, senti falta dos amigos e dos professores. Eles eram bem legais. Se pudesse, eu participaria novamente”, disse. A expectativa do Instituto Sidarta é que cada vez mais crianças possam ressignificar a sua relação com a matemática. Nas palavras de Cláudia Siqueira, diretora do Instituto, “eles são muito pequenos para não acreditar”.

Saiba mais

Leia mais