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Abrace o mundo (dos outros)

Voluntária criou uma organização da sociedade civil para conseguir ajudar mais pessoas


Ovos de chocolate: doação de 600 caixas alegra crianças em situação de vulnerabilidade. Foto: Arquivo pessoal

Depoimento de Themis Furigo dos Santos, Fundadora do Instituto Themis Furigo, São Paulo
Para Luís Gustavo Rocha, Rede Galápagos, Goiânia

O endereço do Instituto Themis Furigo é o da minha casa, um apartamento com quase oitenta metros. Ainda não conseguimos uma sede para a organização da sociedade civil (OSC). O porteiro que não me conhecia fez o caminhão, que vinha do Sul, voltar. Me ligaram da Ferrero para dizer que o motorista estava perdido. “Não, é nesse endereço mesmo!” A gente recebeu a doação de 32 mil unidades de Kinder Ovo, que chegaram em 600 caixas. Gastamos mais de quatro horas para subir todas elas. Só não coloquei no banheiro. Todos os cômodos ficaram abarrotados e, para chegar até a minha cama, tive que entrar de lado no quarto. Ainda assim não coube tudo e precisei pedir espaço no apartamento da minha irmã, que também mora no prédio.

Depois, mais de quatro horas para descer as caixas. Conseguimos atender 100 entidades. Fizemos planilha de tudo para prestar contas. Entregamos nas comunidades, tinha voluntários entregando na rua e muitas crianças nunca haviam comido um Kinder Ovo, o que tornou esse trabalho muito gostoso.

Tenho um filho de seis anos. Ser mãe aumentou minha sensibilidade. Comecei a fazer eventos para as crianças, cada mês indo a alguma comunidade diferente, até a chegada da pandemia. Levávamos os livros da série Leia para uma Criança, do Itaú, pelo Comitê Mobiliza Itaú – Centro Empresarial, mas temos vários projetos de cultura, e eles não estão separados da preocupação com a alimentação e a necessidade de remédios.

Um amigo lá do Maranhão veio pedir ajuda. Ele ia fazer uma festa para 1,2 mil crianças em outubro.

Elas Podem: parceria com o Google capacita mulheres do Maranhão, em encontro pré-pandemia. Foto: Arquivo pessoal

Mandamos um caminhão e dois ônibus com doações. Em dezembro mandamos mais um caminhão para fazerem outras duas festas. Já enviamos doações para a Bolívia e a África, tem o pessoal do Vale do Ribeira, ajudamos no Vale do Jequitinhonha, em Minas, populações indígenas de diferentes etnias. Atendemos em todo o Brasil; um projeto chama outro.

Um exemplo é a confecção de 2 milhões de máscaras, nosso maior projeto até agora. Movimentou 5 milhões de reais na economia, graças a três grandes bancos, incluindo o Itaú, em parceria com o Instituto Rede Mulher Empreendedora. Um projeto superimportante que envolveu mil costureiras que receberam, em média, o dobro do que é pago por unidade produzida. Tivemos que entregar as máscaras em um mês e meio e dependemos de uma logística gigante. Não tínhamos um espaço e a prefeitura de São Bernardo nos arranjou um local bem grande para ir estocando as peças. Um voluntário nosso, que sempre colabora em eventos com a participação de surdos-mudos, nos contou de uma comunidade no Brasil com 500 deles que estavam com muita dificuldade de entender o que as pessoas ao redor estão dizendo, porque a máscara acabou tapando a boca das pessoas e eles não conseguem mais fazer leitura labial. Abraçamos a causa por trabalharmos com inclusão social. Minha irmã é costureira e montou o layout de uma máscara, que foi aprovado por surdos-mudos. Há uma expansão prevista para esse projeto e estamos tentando recursos para fabricação em grande escala, o que vai gerar emprego. Como disse, um projeto chama outro.

Sempre fico atenta a editais e acompanho grupos de voluntariado. Temos um projeto de costura de enxovais para bebê, mas é muito pequeno e existe para resolver os pedidos que recebemos para os recém-nascidos que não têm o que vestir. Vi uma oportunidade e quis participar, lembrando do número de costureiras nos pedindo trabalho – e não tínhamos como empregar. A partir do projeto das máscaras, uma fábrica de roupas nos passou um trabalho recentemente, e agora temos um grupo de costureiras fazendo macacão de bebês e recebendo por isso. Criamos sustentabilidade. Ganhamos retalhos e as mulheres do Vale do Ribeira fazem tapetes para gerar renda. Ganhamos também bancos de carro e repassamos para elas confeccionarem itens como mochilas.

Sinto que acertei na loteria quando fomos contemplados com o projeto de capacitação para mulheres Potência Feminina, em parceria com o Google. De 474 OSCs inscritas, dez foram escolhidas, sendo que, de São Paulo, apenas a nossa. Vamos ajudar 5 mil mulheres. Ainda tem outra iniciativa de formação, o Elas Podem, também em parceria com o Google, que estamos fazendo no Nordeste e querendo expandir para mais lugares.

Quando me perguntam se quero abraçar o mundo, eu respondo que sim. Pensar grande me permite ajudar mais pessoas.

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