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Notícias Dez perguntas para

ABIGAIL TORRES – Os desafios do trabalho em rede

Horizontalidade, discussões democráticas e humildade para reconhecer diferentes saberes: só assim poderemos resolver problemas complexos e ser mais efetivos nas parcerias entre organizações da sociedade civil e poder público


Abigail Torres, durante o Encontro de Conselhos dos Direitos da Criança e do Adolescente em março de 2019: “Se formos mais generosos no aprendizado com o outro e cooperativos na troca de conhecimentos, no apoio e na corresponsabilidade, aumentaremos o potencial de produzir mudanças”. Foto: Itaú Social

Por Maggi Krause, Rede Galápagos, São Paulo

Na mesma casa de uma comunidade mora um rapaz com necessidade de sair para ganhar o sustento diário, uma mãe que cuida de uma parente idosa com problemas de saúde e vê seus filhos em idade escolar sem poder estudar por falta de computador ou acesso à internet. Na rua há problemas de iluminação, o fornecimento de água é intermitente. Eles e os vizinhos dependem de produtos de limpeza doados por uma organização da sociedade civil (OSC) para garantir a higiene mínima durante a pandemia. A realidade sofrida não os faz diferentes de outros brasileiros em um ponto: todos deveriam ter seus direitos assegurados pelo estado. Para dar conta dessas garantias, previstas em lei, em torno deles se organizaram os serviços de assistência social, saúde e educação. Mas seu funcionamento, do ponto de vista de quem precisa deles, exige paciência e enfrentamento de burocracias. “O acolhimento humano e o cuidado têm que ser precedentes à documentação. As organizações da sociedade civil, com sua flexibilidade e  proximidade com o cotidiano das famílias, fazem diferença na forma como lidam com a desproteção”, defende Abigail Torres, sócia fundadora da consultoria Vira e Mexe, pesquisadora em gestão de políticas públicas, com destaque para assistência social e política de direitos de crianças e adolescentes. Ela atua com formação de profissionais, representantes de organizações sociais e conselheiros, além de formular e avaliar políticas sociais. 

Segundo Abigail, a ação das OSCs é essencial para fortalecer o estado e pressioná-lo para que olhe para a realidade em movimento. Problemas rotineiros enfrentados em uma localidade motivam a atuação dessas organizações. Vem da Constituição de 1988 a ideia inovadora de que a sociedade civil deveria pautar as prioridades das políticas públicas. “De forma organizada, ela contribui se tiver a lógica de que o estado assegura direitos, então precisa cobrá-lo e oferecer parceria”, explica Abigail. Segundo o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), em 2019, 47% das OSCs brasileiras atuaram em desenvolvimento e defesa de direitos. Outras 20% se dedicaram às áreas de cultura e recreação, assistência social, educação, pesquisa e saúde. 

As OSCs sabem que na vida das pessoas tudo acontece simultaneamente; não se divide pelas especificidades das políticas públicas. Mas embora festejado na teoria, o trabalho colaborativo entre instituições não é prática usual. “A articulação em rede depende de indução, tanto do governo como da sociedade civil”, diz a consultora. Com essa finalidade funciona o programa Redes de Territórios Educativos, do Itaú Social, que promove trabalho em rede e fomenta ações integradas e articuladas entre diferentes organizações. Conversamos com Abigail Torres sobre desigualdade social e educativa, competição entre instituições e a importância da cooperação. 

NNotícias da Educação Pode nos explicar o princípio de trabalho em rede?

AAbigail Torres – Em rede, os problemas são enfrentados de forma conjunta e as decisões não ficam a cargo de um grupo mais importante; são feitas coletivamente a partir de diálogo e de argumento. A realidade é vista sob um prisma de múltiplas vivências. Às vezes, a fala mais importante é de alguém que vive o problema e narra elementos que técnicos ou analistas nem consideravam uma variável. A escuta e a valorização da contribuição de todos são elementos-chave. O trabalho em rede é desafiador para nossa sociedade, pois pressupõe horizontalidade, discussão democrática e humildade para reconhecer diferentes saberes. Basta observar as reuniões para entender a dificuldade: uma ou duas pessoas falam e os outros ficam em silêncio por não se sentirem autorizados ou sem entender o que está sendo discutido. 

NPor que é importante a colaboração entre pessoas e OSCs em um município?

AEm primeiro lugar, a ideia é unir forças e estratégias para lidar com questões complexas, que duram de modo intergeracional. São inclusive seculares, como a desigualdade social, de gênero e a violência do estado. A cooperação é para trocar conhecimentos, ferramentas, tecnologias, fazer intervenções e observar o que funciona. Quando não temos a generosidade de aprender com o processo do outro, perdemos energia para entender os problemas de novo de um ponto inicial. Se fôssemos mais cooperativos nessa troca de conhecimentos, no apoio e na corresponsabilidade, aumentaríamos o potencial de produzir mudanças. Muito se fala da ação colaborativa e articulada entre diferentes atores, mas o fato é que muitas vezes ela não acontece.

“A tendência é pensar que se cada um fizer a sua parte, no fim dá certo. Mas na realidade tudo se interliga e fica difícil dar certo sem uma conversa, um alinhamento com o outro”

NQuais são os principais motivos para isso?

AEm geral as intervenções conjuntas em um mesmo território se organizam em torno de questões pontuais. Uma campanha de combate à exploração sexual mobiliza saúde, educação e assistência social. Mas um trabalho  sistemático, processual, orientado a planejamento e intervenção conjunta não é tão frequente. Há várias razões para isso: a articulação não é azeitada; há disputa por fundos públicos já que os recursos são escassos; discussões sobre quem paga a conta de projetos comuns. Além disso, as áreas sociais não são apenas de domínio técnico, estão sujeitas à política de governos com interesses diversos. No cotidiano de cada setor se desenvolvem dialetos próprios e rotinas que não incluem a articulação entre áreas como parte do trabalho. A tendência é pensar que, se cada um fizer a sua parte, no fim dá certo. Mas na realidade tudo se interliga e fica difícil dar certo sem uma conversa, um alinhamento com o outro.

Abigail Torres participou de criação de curso para o Polo, ambiente de formação do Itaú Social, com ações para fortalecer vínculos de sociabilidade, proteção e cuidados para quem está sofrendo com o luto  e com a desproteção durante a pandemia. “A ideia principal é mobilizar as pessoas a pensar nas desigualdades e mapeá-las para conseguir intervir”. Imagem: Itaú Social/Ciclo de Conversas – Atuação em Rede (10/06/ 2020)

NHá barreiras para uma colaboração institucional de fato? 

AFalar em competição institucional na sociedade civil pode gerar mal estar. Mas vivemos uma escassez de recursos, temos demandas maiores do que a capacidade instalada, é preciso buscar visibilidade, investir em marketing, ser reconhecido para conseguir fundos e implementar as missões que cada organização tem. Algumas vezes o financiamento é feito via prêmios, que por si só levam à competição. Não que sejam inadequados, pois os prêmios identificam o esforço realizado. Mas há uma lógica competitiva na corrida por finanças, reconhecimento da relevância, da qualidade da intervenção e da metodologia da instituição. Isso vira obstáculo para atuar em colaboração. O trabalho articulado em rede depende de indução, tanto do governo como da sociedade civil, e de capacitação conjunta. Vale respeitar a identidade de cada organização no processo, preservar pautas específicas e valorizar autorias. A autoria coletiva é mais difícil de ser sustentada.

NDesde quando existe no Brasil e como se operacionaliza o trabalho intersetorial?

ATeve início após a Constituição de 1988 e na Lei Orgânica de Assistência Social, de 1993, é mencionada a articulação intersetorial. Na prática, há duas formas de fazer isso funcionar. Uma ação envolve equipes de diferentes políticas públicas em um evento comum, por exemplo, uma campanha de vacinação infantil em que se aproveita para orientar as famílias sobre a importância da permanência na escola. Nesse caso, cada um faz a parte que lhe cabe. Outra estratégia nasce de uma necessidade comum a vários setores e um deles disponibiliza informações relevantes para todos. Um exemplo vem de Nova Iguaçu (RJ), onde o cadastro dos usuários de saúde, compartilhado com a educação e a assistência social, permitiu o monitoramento de matrículas escolares.

NPode nos descrever uma experiência bem sucedida de atuação em rede? 

AUma das que mais me impactou foi o combate à evasão escolar em Santa Maria (RS) realizado por agentes comunitários de saúde durante a visitação, por meio de observação e notificação. Foi uma sacada potente, que otimizou a força de trabalho das equipes e partiu do conselho municipal dos direitos das crianças; acompanhei a experiência pela Fundação Abrinq. Quando a questão é de natureza transversal, como a violência doméstica, por exemplo, em geral a pessoa precisa responder as mesmas perguntas várias vezes, sofrendo uma revitimização. Nesses casos, bastaria o primeiro que atendeu a ocorrência levantar as informações e compartilhá-las com as outras áreas. A atuação intersetorial é potente quando resulta de mobilização popular, tende a ser mais legítima, próxima do problema e facilita diálogos. É o que ocorre em comunidades como a favela da Maré, no Rio de Janeiro, e nos bairros de Heliópolis e Paraisópolis, em São Paulo. Já quando a ação nasce no gabinete, os profissionais viram os estrangeiros dentro do território.

NÉ possível juntar instituições em diferentes estágios de desenvolvimento em torno de um objetivo comum?

ASim, mas exige um exercício de abertura para o aprendizado coletivo. As instituições consolidadas correm o risco de cristalizarem modos de fazer. Quando uma nova organização começa a lidar com um problema antigo é porque ele ainda não foi equacionado, então vale o respeito mútuo. Ao enfrentarem juntas o desafio, é preciso reconhecer a história das antigas e também as novas propostas que estimulam uma revisão nas maneiras de atuação. Jovens organizações podem vir de iniciativas de especialistas ou de pessoas que viveram impactos e por isso têm legitimidade. Um exemplo são as Mães da Sé, movimento de mulheres com filhos desaparecidos que trouxe outro ponto de vista para OSCs parceiras do sistema, centradas na ótica de quem atende a mulher ou o adolescente em situação de vulnerabilidade. Vale dizer que muitas políticas públicas de hoje foram fruto de pressão de movimentos sociais. Entre as mais recentes estão os serviços de saúde, educação e proteção social para assegurar os direitos da população LGBTQI+.

“No lugar da resposta rápida, é preciso debater, analisar, compreender. Até porque, se forem mal estruturadas, as políticas públicas implementam desigualdades”

NUm dos aspectos-chave para o sucesso da rede é a articulação entre as organizações. Existe formação específica para isso? 

ATemos trabalhado nesta pauta há cerca de sete anos no campo da infância e também nos serviços de proteção da assistência social, discutindo quais saberes e formação colaboram. Um bom exemplo é o campus da UNIFESP em Santos, que oferece interdisciplinaridade nos cursos e isso ajuda a formar pessoas para o trabalho intersetorial. É mandatório aprender a fazer diferentes perguntas. Todas são viáveis e importantes, pois não há um único caminho ou questão. No lugar da resposta rápida, é preciso debater, analisar, compreender. Até porque, se forem mal estruturadas, as políticas públicas implementam desigualdades. Um exemplo é o ensino à distância na escola durante a pandemia, que desconsiderou quem não tinha acesso à internet. Faltaram alternativas, pois é um dever assegurar o direito à educação a todos estudantes.

NQuais são as dificuldades adicionais trazidas pela pandemia?

AOs governos focaram na questão dos recursos mínimos para sobrevivência e na contenção da transmissão do vírus, mas foi um olhar reducionista que deixou de prever consequências do afastamento social. O mundo observou a amplificação de desigualdades em vários setores. A violência contra a mulher tornou-se uma pandemia dentro da pandemia, e não só no Brasil. Por afetar todos os seres humanos e nos tornar mais vulneráveis, a crise do coronavírus criou uma possibilidade de porosidade e reconhecimento da desigualdade como injustiça, induzido por analistas e veículos de comunicação. Feminicídio, racismo e a questão da mulher são seculares, mas ganharam outra intensidade. Criamos um curso para o Polo (ambiente de formação do Itaú Social) com ações para fortalecer vínculos de sociabilidade, proteção e cuidados para quem está sofrendo na pandemia, tanto com o luto como com a desproteção. A ideia principal é mobilizar as pessoas a pensar nas desigualdades e mapeá-las para conseguir intervir. 

NPor que vale a pena fazer esse mapeamento? 

AMapear vivências faz identificar pontos de ancoragem ou de vulnerabilidade, é estratégico para o trabalho intersetorial. Não basta estudar o território para saber se tem esgoto, escola, iluminação. É o impacto desses equipamentos ou da falta deles que muda a vida das pessoas, como elas se protegem e apoiam nessas circunstâncias. Quanto mais acesso a outras pessoas e a instituições, mais protegida a pessoa está. A presença de OSCs e de políticas públicas altera realidades. Mas o Brasil sofre os impactos de um esvaziamento de organizações, em decorrência das tentativas do governo federal de desqualificar e desconstruir a colaboração da sociedade civil. Isso prova que esses processos não estavam suficientemente fortalecidos; se fossem entendimento coletivo, não seriam tão afetados. O que anteparou municípios e estados foi sua autonomia. Alguns contrataram formações para os servidores públicos, inauguraram serviços em plena pandemia, reforçaram a participação e o controle social. Em certas localidades, a sociedade é mais participativa e, graças a isso, segue discutindo e resolvendo problemas em conjunto.