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A Tia da Massinha

Há dez anos, Denise Soares de Almeida entretém e dá aulas de apoio para crianças com câncer não perderem o ano escolar


Daniel, ainda em fase de tratamento: ele teve leucemia aos 8 anos e Denise foi sua professora de apoio até ele passar ao 4º ano do ensino fundamental. Hoje, aos 17, está curado. Foto: Arquivo pessoal

Depoimento de Denise Soares de Almeida, pedagoga
Por Nathália Bini, Rede Galápagos, Belo Horizonte

Eu não engravidei. Mas tenho centenas de filhos carequinhas que conheci nos últimos dez anos. De alguns tenho sempre notícias. Outros viraram estrelinhas. Dar aulas para crianças com câncer dentro de um hospital não estava nos meus planos de formada. Eu me tornei pedagoga para continuar com a escola que minha mãe fundou em Belo Horizonte em 1982. Durante uma pós-graduação, conheci a pedagogia hospitalar, me apaixonei pelo assunto e quis ver de perto como funcionava este direito da criança, resguardado pela legislação brasileira, de ter aula fora da escola. E escolhi a oncologia por causa de uma amigo de adolescência vítima de leucemia, o Luigi. Eu anotava e copiava tudo para o Luigi, para que ele não perdesse o ano enquanto fazia o tratamento. 

Quando elaborei o projeto voluntário de pedagogia ambulatorial para crianças com câncer e apresentei a dois grandes hospitais da capital mineira, recebi dois nãos. E ainda escutei de um diretor: “Para que você quer fazer isso? Elas vão morrer mesmo.” Inconformada, procurei o oncologista pediátrico Eduardo Nascimento, que foi um dos fundadores do Serviço de Oncologia Pediátrica da Santa Casa, pioneiro em Minas Gerais. A resposta foi bem diferente: “Quanto vai custar seu trabalho?” Respondi que era de graça. “Mas você quer virar Madre Teresa?”, ele riu. Eu virei foi a Tia da Massinha.

Há dez anos minha rotina é dedicar 2 horas na semana ao atendimento ambulatorial. As crianças que estão internadas têm direito à Classe Hospitalar (CH), modalidade de ensino reconhecida pelo Ministério da Educação que permite ao aluno internado continuar acompanhando o currículo de sua escola de origem. Mas este direito não vale para as crianças que só vão para receber quimioterapia, radioterapia, fazer consultas, punções… Essas ficam num limbo, porque ainda estão fracas para frequentar a escola e como não estão internadas, muitas acabam ficando sem estudar.

Eu nunca sei quem são as crianças que vou encontrar naquele dia, nem as idades ou ano letivo. Por isso preciso planejar possibilidades que atendam a todas e sejam adequadas aos diferentes tratamentos. A ideia inicial é ser um elo com a escola, fazer atividades que se aproximem do conteúdo que o paciente estaria tendo em sala. Algumas mães até levam os cadernos, mas isso é minoria. Dependendo do paciente, eu entro em contato com a direção do colégio dele e pego provas e apostilas para acompanhá-lo. 

Um dos meus melhores alunos foi o Daniel, que teve leucemia aos 8 anos. Eu o ajudei a terminar o 2º ano do fundamental, aplicando as provas que a professora me mandava por e-mail, e fui a professora de apoio dele durante todo o 3º ano. Cheguei a ir à rodoviária buscar apostilas que a escola mandava pelo motorista do ônibus. Ele morava em Unaí, noroeste mineiro, e ficou por mais de um ano e meio vivendo em BH. Tenho orgulho de dizer que ele passou em todas as provas e foi para o 4º ano com louvor. Hoje tem 17 anos, está curado e é um rapaz estudioso. 

Muitas vezes não é possível fazer nada dentro do currículo escolar. Durante alguns tratamentos, a criança simplesmente não dá conta de acompanhar. Quem recebe corticóide, por exemplo, não tem humor para fazer aula. No máximo, consegue brincar com uma massinha. Por isso meu estoque desse material tem que ser grande. Atividades de colorir, folhas em branco, lápis e giz de cera são meus remédios para distrair os pequenos. O foco dentro do hospital é a saúde. Assim que o médico chama, interrompemos tudo para que o objetivo principal seja cumprido: restabelecer a saúde daquele paciente.

Atividades coletivas, em foto pré-pandemia: Denise chegou a atender 30 crianças ao mesmo tempo no saguão da Santa Casaa. Foto:Arquivo pessoal

Dependendo do tempo do tratamento, acabo criando laços muito fortes com elas. Aos 2 anos, vi a Sofia fazer a primeira sessão de quimioterapia. Três anos depois, assisti à sua última sessão. Fiquei tão emocionada com a alta dela que chorei muito, não consegui me segurar. Mas ali era um choro de alívio. As lágrimas pela perda das crianças eu deixo para minha casa. Toda vez que chego ao ambulatório temo perguntar por algumas delas e receber a resposta de que não resistiram. Ainda não estou preparada emocionalmente para as perdas, mesmo fazendo isso há uma década.

Meu envolvimento e amor à causa me fizeram enxergar que era necessário ir além. Junto com meu amigo Xico Arantez fundamos uma associação de combate ao câncer infantil em 2012. A ideia era, com doações de voluntários, ampliarmos o atendimento. Mas, poucos meses depois, Xico faleceu. Nasceu assim a Associação Xico Arantez de combate ao câncer infantil. Na prática, uni nosso sonho à escola infantil fundada pela minha mãe. Eu percebia que muitos pacientes não conseguiam vagas nas escolas regulares ou não se adaptavam ao ambiente pelo despreparo da equipe escolar. 

Já recebi mais de 20 alunos desde 2010. Eles não precisam pagar mensalidade, uniforme nem material didático. E estamos sempre conversando e preparando os outros alunos para a convivência com quem tem a saúde mais fragilizada. Quando chega um novato em tratamento explico para os outros que o coleguinha perdeu os cabelos por causa dos remédios. Por incrível que pareça, alguns pais já se mostraram mais resistentes que seus filhos. Crianças sempre nos dão aulas extras de cidadania e amor ao próximo.

E é isto que recebo há uma década. Eu quero deixar uma memória afetiva boa na vida daquela criança, que passou parte da infância em um hospital. Enfrentar um câncer é uma batalha pesada e dolorosa para qualquer um. Mas os pequenos nos ensinam que, mesmo nas adversidades, é possível ter momentos leves e alegres. “Acabei de fazer punção, tia. Já, já estou bom de novo”. Quando escuto frases assim vejo que não tenho motivos para reclamar. Ao contrário, só para agradecer. Eu não sou melhor que ninguém, mas me tornei uma pessoa melhor nos últimos dez anos. 

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