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GLÁUCIO RAMOS – A tecnologia em favor da educação

Gláucio Ramos fala sobre a educação midiática e o uso crítico da tecnologia em espaços de educação formal e não formal


Dez perguntas para
Gláucio Ramos
Doutor em letras, é contador de histórias, escritor e empreendedor social na área de formação de leitores

Gláucio Ramos: “Se antes o problema era a falta de informação, hoje o problema é o excesso e como gerenciar tudo isso”. Foto: Arquivo pessoal

Por Gustavo Queiroz, Rede Galápagos, Curitiba

Em 1995, uma conversa entre o educador Paulo Freire e o matemático Seymour Papert criou um marco importante na discussão sobre a relação entre tecnologia e escola. À época, o computador e a internet ainda eram incipientes nos espaços de educação formal e não formal no Brasil. Papert trouxe uma provocação à mesa. “A tecnologia não vai melhorar a escola; ela vai substituir a escola na forma como a conhecemos”, afirmou o matemático.

Ao longo do diálogo, Freire responde com um olhar que inclui também a perspectiva política do uso da tecnologia. “Não é só no ato de operar o computador que eu entendo a razão de ser do computador”, disse. “O que a escola precisa fazer é desafiar a curiosidade epistemológica do aluno para incentivá-lo a descobrir a razão de ser dos fatos e do conhecimento.” Sua posição veio ao encontro do que escreveu em 1979 no livro Educação e mudança: se o compromisso do educador é com a libertação, ele não pode abandonar a tecnologia como instrumento nem usá-la sem um olhar crítico e reflexivo. 

Décadas depois, novos desafios surgem com o avanço da tecnologia. O educador Gláucio Ramos explica que, agora, o próprio celular e a chuva de informações contidas na internet exigem a presença de um mediador em sala de aula que, por meio da educação midiática, permita que o adolescente tenha um olhar crítico sobre a tecnologia. 

Formado em letras, Ramos se dedica a projetos educacionais como o “Fuja do fake, foco no fato”, vencedor do Prêmio CpE na Sala de Aula, da Rede Nacional de Ciência para Educação. Ele também é autor do livro Que monstro é esse?, que dialoga com crianças sobre o perigo do uso excessivo da tecnologia. 

A partir dessas experiências, o educador participou do III Seminário Internacional Arte, Palavra e Leitura — Por uma Educação Transformadora, realizado pelo Itaú Social e Sesc São Paulo, com apoio de Ibeac, Litera Sampa e Rede LEQT e curadoria do Cedac e Instituto Emília. Veja os vídeos do seminário aqui. Na entrevista a seguir, Ramos dá dicas de como melhorar a relação entre escola e tecnologia a partir dos caminhos deixados por Paulo Freire.

NNotícias da Educação — Freire foi um dos precursores da tecnologia como instrumento de ensino no Brasil. Ele a via como uma aliada na educação?

GGláucio Ramos — Ele era um homem do seu tempo e não negava a importância da ciência e da tecnologia, mas entendia que se podia usar essa tecnologia a partir de uma reflexão. Dizia que é justamente sobre não aceitar o novo porque é novo nem ignorar o velho porque é velho. Você tem que trabalhar, manusear os dois de maneira reflexiva. No livro Educação e mudança, diz: “Se o meu compromisso é realmente com o homem concreto, com a causa de sua humanização, de sua libertação, não posso por isso mesmo prescindir da ciência, nem da tecnologia com as quais me vou instrumentalizando para melhor lutar por essa causa”. A citação deixa bem claro que Freire procurava saber como a tecnologia ratifica a causa, no caso dele, de trabalhar com a educação emancipadora, libertadora e crítica. Vamos fazer uso da tecnologia, mas refletir sobre ela, não aceitar “goela abaixo”.

NNo seminário você cita que Freire considera a tecnologia atemporal e a encara como uma ideologia sem face. O que isso significa?

GNa medida em que você traz a tecnologia para a sala de aula, precisa pensar nela de maneira reflexiva: por que usar essa tecnologia? Quem trouxe? Com que razão? Então a tecnologia é uma ideologia sem face porque tudo que está na sala de aula e na sociedade passa por uma construção ideológica. Em uma escola você tem, por exemplo, a organização das carteiras, a posição do professor, tudo isso é discursivo. Esse novo contexto digital está construindo novas identidades através desses discursos e automaticamente isso vai rebater na criação de novos saberes. Por isso, ao trazer a cultura digital, a inteligência artificial, os novos algoritmos para a sala de aula, você deve ser reflexivo para entender o que é esse objeto novo e como ele pode ser usado para uma vida melhor. O objetivo de toda tecnologia é facilitar a vida, mas os desdobramentos de seu uso não há como saber quais serão. Por isso Freire disse que essa ideologia não tem face, porque não sabemos de onde vem, mas ela impacta e constrói saberes e práticas.

“O celular é um paradoxo. Ele distancia quem está perto e aproxima quem está longe.”

NOs algoritmos que orientam as inteligências artificiais podem ser enviesados? Eles reproduzem os preconceitos da sociedade?

GO problema não é nem o algoritmo, é a alimentação dos dados. Porque o algoritmo é um sistema em funcionamento. A gente precisa falar da questão da ideologia para o sujeito construir aquele algoritmo. Ele tem uma visão de mundo, uma concepção de lugar do homem, da mulher, do negro. É preciso pensar em toda essa estrutura, já que o  discurso é fluido. Quando o discurso muda, gera saberes e práticas em todos os espaços sociais. Nesse mundo, o sujeito que constrói o algoritmo não vive mais em uma cultura misógina ou racista. Isso tem impacto na sala de aula e na sociedade como um todo. Quando trabalho esses temas na escola, esse sujeito se forma, um dia vai bater lá no Vale do Silício e vai construir um algoritmo não racista e não misógino. É mais uma pauta que precisa ir para a sala de aula para que seja refletida. A gente volta para Freire: quando o algoritmo chega à sala de aula dizemos “poxa que legal, ele faz bem para a minha vida”. Ótimo, mas vamos refletir sobre isso? É uma ideologia sem face, ela chega pra mim e eu preciso refletir para ver o que é que está escondido aí. Por isso a necessidade de sempre ser crítico e reflexivo, como propõe Paulo Freire.

NConsiderando o contexto em que vivemos hoje, essa tecnologia vai contribuir para a democratização do conhecimento ou vai reforçar a exclusão social?

GA tecnologia é um produto do homem. Se eu tiver uma sociedade justa, democrática e republicana, a tecnologia vai seguir esse passo. À medida que a sociedade em si é injusta e gera desigualdade, automaticamente essa tecnologia reflete isso também. É impossível pensar em tecnologia desvinculada de um roteiro social. A pandemia levou para a vitrine o que a gente já via no dia a dia. Eu tenho alunos que sumiram da minha sala de aula porque não têm acesso à tecnologia. Isso é resultado da pandemia? Não. Já é uma conjuntura social. Agora, o que nós temos hoje de relativamente democrático é a produção de informação e o acesso a ela. Relativamente porque a gente sabe que tudo que chega está dentro de uma bolha. Eu tenho uma relativa autonomia porque tudo que chega para mim vem cortado de acordo com o meu perfil. Se você já fizer a experiência de pegar uma pessoa que não é do seu nicho social e vocês pesquisarem o mesmo tema, terão resultados diferentes. Um exemplo claro disso são os embates que a gente tem no meio político, quando sujeitos que são de nichos diferentes têm acesso a informações diferentes sobre o mesmo tema, com visões extremamente radicais e distintas por causa desse condicionamento. A gente tem um dilema da informação muito grande. Se antes o problema era a falta de informação, hoje o problema é o excesso e como gerenciar tudo isso.

NNesse dilema do acesso à informação, qual é o papel hoje da educação midiática?

GA educação midiática se preocupa em gerar competências e habilidades para uma vivência mais saudável no mundo digital. Quando você tem a existência do cancelamento, dos haters, das fake news, dos linchamentos… tudo isso fundamenta a demanda pela educação midiática. As mídias sociais estão construindo novas identidades e a educação midiática se apresenta como uma ferramenta, presente na BNCC, que municia pais e professores para ensinar as crianças a viver nesse mundo virtual. Entre os campos de atuação, está o da cidadania digital, que seria essa capacidade de ter uma relação saudável, justa e ética no espaço virtual.

NQuais são esses campos da educação midiática e como eles contribuem para a compreensão do que é notícia, do que é desinformação e do que é propaganda?

GEla tem três campos de atuação: a leitura, a escrita e a intervenção social. Na leitura você vai trabalhar com o letramento da informação, que envolve a capacidade de fazer curadoria e pesquisa. É a capacidade de leitura crítica do ambiente virtual que é tão importante hoje, em que temos a tendência de ler recortes, e não o texto inteiro. Uma referência importante sobre isso é o livro O cérebro no mundo digital, de Maryanne Wolf, que fala sobre a emergência de pensarmos como a leitura digital tem feito com que leiamos menos, mais rápido e com menor profundidade. O segundo ponto é o da escrita, que pretende educar para o sujeito conhecer as muitas ferramentas no universo virtual e tenha capacidade criativa para produzir esse material. E o último ponto, a intervenção, quer habilitar o sujeito a fazer uma intervenção sadia e justa no espaço virtual. É importante fazer uso dessa voz, porque todo mundo é autor de conteúdo. O grande problema é que se agora eu sou autor, o que é que eu vou produzir? Qual o impacto do meu produto? É preciso pensar sobre isso. Esse campo da educação midiática é o campo da intervenção, que é o campo da visão cívica: intervir para ajudar alguém.

“A educação midiática é justamente a mediação reflexiva feita pelo professor ou pelo pai da criança e do adolescente. Não se trata de vetar o uso da tecnologia, mas de explicar o porquê.”

NEssa intervenção se traduz também em mediação da tecnologia? Os educadores podem contribuir para que o uso da internet seja mais saudável?

GA educação midiática é justamente a mediação reflexiva feita pelo professor ou pelo pai da criança e do adolescente. Não se trata de vetar o uso da tecnologia, mas de explicar o porquê. Conforme se senta para refletir, ele vai explicar o que é um hater, o que é um linchamento virtual, o que é um bullying virtual, o que são as fake news, uma série de temáticas. À medida que o professor apresenta isso como uma proposta de discussão que é parte de um projeto educacional, ele vai criar um percurso de reflexão e o sujeito vai ter acesso àquela ferramenta a partir de uma construção educacional. Eu, por exemplo, trabalho muito com fake news. Nós vivenciamos inúmeras fake news sobre a Covid-19, e havia uma emergência no tema. Minha proposta foi discutir esse tema através de um projeto. Então, a partir dessa construção gradual, você vai fazendo com que o sujeito entenda o que é aquele efeito virtual e como ele deve se comportar. Nunca pela castração, mas por uma construção paulatina.

NFreire discutia muito o uso do computador em sala de aula e agora o ponto principal é o celular. Como podemos usar os desafios do uso dessas tecnologias dentro da sala de aula a favor da educação?

GUma vez um vereador fez uma lei para proibir o celular na sala de aula aqui no meu município. Veio a pandemia e jogou a lei para baixo, já que o aluno vai ter que usar o celular de todo jeito. Então a pandemia nos fez repensar no celular como algo muito poderoso se ele for visto pelo professor como um recurso, e nunca como um vilão. O professor precisa planejar: eu tenho uma proposta pedagógica, quero trabalhar um tema específico e usar essa ferramenta como recurso. No meu caso, queria trabalhar o tema das fake news e as diversas estratégias de checagem de notícias.Tive que repensar o uso do celular, o único canal de que eu dispunha no momento. A minha estratégia foi testar tudo que eu usava com o aluno, como uma pesquisa reversa de imagem, ou uma pesquisa da mesma notícia em pontos diferentes. O aluno fazia um print de tela para confirmar que aprendeu e seguiu a estratégia. Depois, usei o celular para criar um repositório de pesquisa, em um aplicativo que constrói um grande mural. O mesmo celular foi usado como aplicativo para criar roteiro de vídeo, vídeos e memes. Isso só foi possível à medida que repensei a ferramenta para adequá-la à demanda do ensino médio. Agora, é claro que cada coisa no seu tempo. Se o professor colocar o celular dentro do planejamento ele vai ser um super-recurso, mas a sala de aula ainda é um lugar de controle — não tem como fugir disso. Conforme o celular foge do plano educacional e dispersa o aluno, o professor entra para fazer essa intervenção. Tudo é planejamento.

Gláucio Ramos: Em Que monstro é esse?, o celular é visto como um paradoxo. Ele distancia quem está perto e aproxima quem está longe. Foto: Reprodução

NA tecnologia vai contribuir para o amadurecimento das identidades de crianças e adolescentes?

GEm Vigiar e punir, de Foucault, há um recorte bem específico sobre a sala de aula. Ele diz que tudo que está na sala de aula constitui a identidade e o corpo do sujeito. E a organização da sala também é tecnologia. Quando esse estudante depara com o recurso tecnológico, que é o celular, vai desencadear uma mudança de comportamento na própria estrutura coletiva, por causa da pulverização dessas informações e da velocidade da informação, como o livro que eu citei da Maryanne Wolf. A gente tem um trabalho enorme a ser feito, que é vigiar essas tecnologias e fazer com que elas sejam instrumentos saudáveis de formação. Em Que monstro é esse? falo sobre uma família muito simples, comum, como qualquer outra e que tem um filho que brincava muito com os pais. Só que de repente os pais trazem um celular para casa e o filho diz que é um monstro, que hipnotiza a família. Os pais ignoram, o tempo passa e o celular começa a crescer, vai dominando toda a família e a criança vai sumindo. A ideia é combater justamente isso. Pais e educadores devem moderar esse acesso para que haja um volume mais saudável e produtivo. Eu percebo muito, por exemplo, um déficit de concentração enorme nos estudantes. Isso acontece porque a velocidade da informação e da tecnologia constrói essa nova identidade desse jeito. É claro que nós somos moldáveis, nós vamos lidar com tudo isso. Mas até que ponto isso é bom?

“Compreendo que minha função enquanto professor é ir além de uma classificação gramatical, é fazer da língua um instrumento de transformação social.”

NA partir da sua experiência, como você vê o papel do professor nesse processo de emancipação por meio do uso da tecnologia?

GO professor tem um poder incrível: ele tem o saber nas mãos e a plateia. Imagina o que ele pode fazer ali: pode estragar, pode transformar, pode impulsionar pessoas a ser poderosos agentes na sociedade. Sempre penso na minha prática como intervenção social. Sou professor de língua portuguesa, mas não estou ali só pra dizer o que é substantivo ou adjetivo. Estou ali pra que ele pegue o adjetivo e impacte a vida de alguém. Compreendo que minha função enquanto professor é ir além de uma classificação gramatical, é fazer da língua um instrumento de transformação social. Essa tem sido minha bandeira quando estou na sala de aula.

NVocê escreveu Que monstro é esse? em meio à pandemia? Qual a proposta do livro?

GEscrevi o livro durante a pandemia porque me senti sendo engolido por esse monstro. Todo mundo teve que aumentar o acesso ao uso do celular, foi impossível fugir, não tinha como. Então à medida que fui usando mais na minha casa, na minha família, isso foi me incomodando. Meu filho chegava: “Pai, bora brincar, vamos fazer outra coisa”. Sempre brinco com ele, a gente tem uma dinâmica muito legal, mas estava atrapalhando. O monstro estava tomando uma proporção muito grande. Veio daí a inspiração para fazer primeiro uma música. Depois, veio o livro. A proposta é dar um estalo na cabeça dos pais e dos filhos sobre o perigo do uso excessivo dessa tecnologia. Porque o celular é um paradoxo. Ele distancia quem está perto e aproxima quem está longe. Nesse livro, a criança chamada João usa uma estratégia para vencer o monstro do celular e resgatar a sua família.