Dez perguntas para
Tiago Hakiy
Do povo sateré-maué, é poeta, escritor e contador de histórias indígenas; autor do livro A pescaria do curumim e outros poemas indígenas, selecionado no edital do programa Leia com uma criança


Por Jullie Pereira, Rede Galápagos, Manaus
Numa viagem de barco entre Barreirinha e Manaus, no Amazonas, Tiago Hakiy atravessa os rios Paraná dos Ramos, Amazonas e Negro. Durante as 28 horas de navegação — tempo que muitos considerariam um tormento —, Tiago vai observando tudo ao redor; e cada coisa que ele vê ganha um novo significado. As árvores, o rio, os pássaros, as estrelas. Tudo é diferente ao seu olhar. Tiago é poeta. Nessas 28 horas, escreveu dez poemas. Ele diz que seus versos têm menos a ver com o tempo de escrita do que com a sua vivência como artista e escritor indígena.
Tiago tem 14 obras publicadas. No início, escrevia para adultos; depois, recebeu um chamado irrecusável. O escritor Daniel Munduruku o incentivou a escrever para crianças e adolescentes e que trouxesse histórias da sua vida e de seu povo, os sateré-maué. Ele atendeu. Foi assim que nasceu A pescaria do curumim e outros poemas indígenas, com ilustrações de Taisa Borges (Panda Books, 2015), selecionado no edital do programa Leia com uma criança, do Itaú Social. Neste ano, pela primeira vez, os livros são distribuídos exclusivamente para secretarias de educação e organizações da sociedade civil, com o objetivo de fazer essa leitura chegar às pessoas que mais precisam dela.
Nascido em Barreirinha (AM), no coração da Amazônia, Tiago formou-se em biblioteconomia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), em Manaus. É autor, entre outros, dos livros Awyató-pót: Histórias indígenas para crianças, Guaynê derrota a cobra-grande e Águas do Andirá. Na entrevista a seguir, ele fala sobre a literatura indígena brasileira e relata vivências pessoais. Sempre orgulhoso de sua obra, relembra os percalços para conseguir publicar seus escritos e ensina que todo esse esforço vale a pena.
NNotícias da Educação — Como foi a produção do texto para o livro A pescaria do curumim e outros poemas indígenas?
TTiago Hakiy — Esse livro foi publicado pela primeira vez em 2015, então já estava no mercado. Quando o edital foi aberto, trouxe vários critérios a cumprir, e a obra atende a todos eles. Em 2015 eu coloquei no livro as minhas vivências de criança, retratando a minha floresta, o meu rio, as brincadeiras que tinha, os animais, as frutas, porque todos os livros que lia antes na minha escola retratavam um espaço e uma vivência que não eram os meus. Eu queria escrever um livro para as crianças do Amazonas. Por isso que ele é todo de uma imagem de infância, de lembranças dos tempos de criança, banho de rio, canto de pássaro. Tudo de belo que a Amazônia e a infância nos inspiram.
NN — Como é o seu processo de escrita?
TUm poema não nasce naquela hora. Ele nasce de vivência de várias inspirações. Quer um exemplo disso? Eu mandei um trabalho recentemente para uma editora. Dez poemas. Ela me pediu mais dez. Eu vim de Barreirinha para Manaus de barco. São 28 horas de viagem. A editora me deu um mês e meio para terminar. Eu não escrevi nada nesse mês. Nessa viagem de Barreirinha a Manaus eu escrevi os dez poemas. No caminho eu vi uma sumaumeira, sempre quis escrever algo sobre essa árvore. Vi um gavião passando, a garça voando, a brisa me abraçando, as estrelas da noite refletindo no rio. Então, a poesia está tão farta ali que só falta você colher.

NComo é a região em que você nasceu?
TSou do município de Barreirinha, nasci em Freguesia do Andirá, uma comunidade que hoje tem 1.500 habitantes e fica próxima ao rio Andirá. Quando eu nasci eram apenas 500. Sou filho do povo maué. Existe uma Terra Indígena chamada Andirá Marau, onde vive o povo indígena sateré-maué. Eu nasci no entorno dessa terra.
NMuitos indígenas vivem fora de aldeias, de terras homologadas. Você está contando que com você também foi assim. Como foi crescer fora do território indígena? Isso afetou você de alguma forma?
TAfetou, sim. Principalmente pelo fato de eu não saber falar a língua sateré. E eu queria muito ter tido isso. Então, fiz questão de resgatar a minha identidade, porque é o que eu sou. Isso está em mim. Isso é a riqueza ancestral e cultural indígena que eu carrego. Então eu abraço, eu canto, declamo e transformo em livros, que são um reencontro com a minha ancestralidade. Com a minha origem. Com o que eu sempre fui.
NComo foi seu trabalho com a ilustradora Taisa Borges?
TOlha, eu tenho dois livros com ela, não foi a primeira vez. Sou muito cuidadoso com os grafismos do povo maué e com os que não são nossos. Além da palavra, a ilustração também tem que ir de acordo com a nossa identidade. Então, a Taisa Borges fez um ótimo trabalho e pesquisou muito sobre o nosso povo, sobre os pássaros da nossa região. Isso por causa dessa especificidade que cada povo tem. Tem gente que vê um grafite desses e acha que é tudo igual, mas não é.
NVocê é bibliotecário e escritor. De que forma essas duas profissões se relacionam na sua vida?
TNão há como os dois se separarem, né? Para ser um bom escritor, necessariamente você precisa ser um bom leitor. E eu faço isso na biblioteca. Então é como eu vivo, praticamente entre os livros. Isso é essencial para minha formação como escritor. Alguém já dizia que nenhum escritor, nenhum poeta nasce pronto. Ele nasce como um diamante. E com o tempo vai se lapidando. E as suas leituras são essenciais para a sua formação cultural e intelectual.
“Espero que o Ministério da Cultura volte a funcionar e que a arte seja valorizada. Nestes tempos difíceis, o que salva muitas pessoas é a arte, a beleza, a literatura, os filmes, a cultura.”
NComo você chegou à literatura infantil?
TO meu primeiro livro lançado foi para o público adulto e a minha poesia é cabocla. No meu primeiro livro há muita influência de um poeta da minha cidade chamado Thiago de Mello, muito por causa de eu ter convivido muito com ele, por ter lido muitos de seus livros, mas também por conta do ambiente onde a gente nasceu e cresceu, né? Um dia eu encontrei Daniel Munduruku e ele disse assim: “Tiago, tem tanta coisa para você escrever sobre o teu povo. Porque se você não escrever sobre o teu povo, ninguém vai escrever. Você precisa resgatar isso”. Foi daí o meu encontro com a literatura infantojuvenil.
NComo é fazer literatura indígena no Brasil?
THoje algumas editoras já me procuram, mas antes, quando eu estive nas primeiras feiras literárias no Rio de Janeiro, onde as grandes editoras desse segmento estavam, eu entregava originais e pegava muitos contatos. Quando eu chegava aqui, ficava mandando e-mail, mandando e-mail. Se eu mandasse 15, duas me respondiam. Meu nome começou a aparecer quando eu ganhei o concurso Tamoios [de Textos de Escritores Indígenas, promovido pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), que premiou Tiago em 2012 pelo livro Guaynê derrota a cobra-grande – Uma história indígena]. E houve também uma demanda maior por livros de temática indígena. Desde então eu tenho conseguido passar em editais. Essas são conquistas não apenas minhas, mas de todo o movimento de literatura indígena e principalmente da literatura que se produz no Amazonas. Então a gente vai abrindo portas, conquistando os espaços essenciais para mostrar o que nós somos.
“Hoje um indígena brasileiro tem celular, mas isso não quer dizer que ele perdeu sua cultura, sua tradição. A sua ancestralidade ainda é presente nele.”
NComo tem sido o desafio de abrir essas portas?
TPara a cultura de uma forma geral, este governo foi muito deletério. Os incentivos governamentais caíram praticamente a zero. Acabaram os eventos em que a gente participava, onde podíamos expor a nossa literatura. Logicamente teve o advento da pandemia, mas foi realmente muito deletério pra gente. Espero que isso mude. Que o Ministério da Cultura volte a funcionar, que a arte seja valorizada. Nestes tempos difíceis, o que salva muitas pessoas é a arte, a beleza, a literatura, os filmes, a cultura.

NQuando se fala de literatura indígena uma associação imediata que se faz é com uma temática ambiental. Como produzir literatura indígena sem reforçar estereótipos sobre os povos tradicionais?
TMuito do que foi escrito sobre os povos indígenas é resultado de um olhar exterior, de alguém que vem, pesquisa, um olhar antropológico, sociológico. De alguém com um olhar de pesquisa. Então hoje a literatura indígena se caracteriza por quem está escrevendo. Hoje quem está escrevendo esses livros sobre si, sobre seus povos, sobre sua cultura, sobre sua tradição, são os indígenas. Mesmo assim, de qualquer forma, a gente precisa ter todo esse cuidado para não reproduzir aquela imagem preconcebida durante anos aí nos livros escolares. Do indígena com cabelo redondo, com tanguinha, com um grafismo só. O nosso discurso é que cada povo tem a sua forma de ver o mundo, a sua cosmologia, o seu grafismo, a sua alimentação. Desenhar o indígena brasileiro como um só é um erro imensurável. Eu sou o maué e tenho uma forma de ver o mundo, eu olho a natureza de um jeito específico; a minha alimentação em um certo sentido é única e também as nossas casas têm suas particularidades. É lógico que hoje o contato com o branco é irreversível quando se mora fora da aldeia. Hoje um indígena brasileiro tem celular, mas isso não quer dizer que ele perdeu sua cultura, sua tradição. A sua ancestralidade ainda é presente nele.
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