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A multiplicação do cuidado

Conheça a plataforma que turbinou vaquinhas virtuais de 265 iniciativas de enfrentamento aos efeitos da pandemia nas periferias brasileiras


A caixa da Nutrição para a Imaginação: convite a fazer arte, inventar, brincar. Foto: Luca Meola

Por Caco de Paula, Rede Galápagos, São Paulo

Assim como milhões de outras crianças, Maria Eduarda Barbalho, de nove anos, ficou mais conectada à internet quando as escolas fecharam por conta da pandemia. Recolhida em casa com o irmão e os pais, na Vila Brasilândia, Zona Norte de São Paulo, passou a gastar mais tempo diante do computador, do celular e da TV. “Era o tempo todo em frente a uma tela. Até porque as aulas agora são on-line”, diz a mãe Laura Cecília Barbalho. “Mas, com a chegada da caixa, isso mudou”. Quando vista por fora, a inesperada causa da mudança do interesse da garota se parece com uma caixa de papelão pardo comum, de 25x25x35 cm, dessas que se usa como embalagem de cestas básicas. 

Antes de prosseguir sobre o que há dentro da caixa, é importante dizer que ela faz parte de uma ação de financiamento coletivo de 265 iniciativas nas periferias brasileiras, que teve contribuições de 11 mil doadores. O formato da ação, uma novidade: vaquinha virtual com a arrecadação “turbinada” por um fundo de oito organizações parceiras, que triplica o valor das doações. Selecionados com a curadoria de 15 organizações não governamentais com experiência nos territórios, os projetos foram inscritos, analisados, aprovados e realizados em tempo recorde. Isso é um pouco da história do Matchfunding Enfrente.

Se viu a foto, você já sabe. Por dentro, a caixa é um irresistível convite a fazer arte, inventar, brincar. Tem canetinhas, giz, lápis, cola, tesouras, papéis, livros, cordões, tecidos, adesivos, dedoches (fantoches de vestir nos dedos) e mais uma porção de coisas. Incluindo um caderno de atividades com orientações sobre como usar o material.

Alimento para a alma
A caixa foi desenvolvida e montada pelas mães e educadoras do coletivo Nutrição para a Imaginação. E chegou à casa dessa e de centenas de outras famílias da Brasilândia — distrito que registra o maior número de mortes por Covid-19 na capital paulista  — junto com uma cesta de orgânicos entregue pela iniciativa social Preto Império. “Procuramos parceiros que já estavam distribuindo cestas de alimentos para o corpo e enviamos alimento para a alma”, diz a arte-educadora Renata Laurentino, uma das mães dessa boa ideia. Na outra ponta da ação, que teve a sensibilidade de perceber a necessidade de crianças como Maria Eduarda, estão pessoas com uma motivação complementar, a de contribuir de alguma forma com quem enfrenta mais dificuldades no momento. “O que eu podia fazer presa aqui dentro de casa?”, pergunta-se, a 400 quilômetros de distância da Brasilândia, a química aposentada Alice Migliorin, 73 anos. “Fiquei empolgadíssima com a ideia”. De seu apartamento, no Rio de Janeiro, ela mobilizou amigos e familiares pelos grupos de WhatsApp e levantou recursos para a produzir cerca de 50 caixas.

Alice Migliorin, que mobilizou amigos e familiares pelo Whatsapp: “O que eu podia fazer presa aqui dentro de casa?” Foto: Arquivo pessoal

Doações vindas de 37 países
Entre as pontas dessa rede que conecta doadores e iniciativas está uma plataforma de financiamento coletivo que turbinou as vaquinhas virtuais de 265 ações voltadas a enfrentar efeitos da pandemia nas periferias brasileiras (incluindo a Preto Império e a Nutrição Para Imaginação). O Matchfunding Enfrente triplicou o valor que esses projetos conseguiram com suas próprias redes e concluiu sua primeira onda, em julho, mobilizando R$ 7,2 milhões. “Matchfunding é como uma vaquinha turbinada”, explica a designer Yasmin Youssef, gerente de relações institucionais da plataforma de financiamento Benfeitoria e coordenadora dessa modalidade de fomento relativamente nova, que multiplica a arrecadação ao somar o crowdfunding com o aporte de parceiros. “Para cada real captado pelos projetos selecionados, o Fundo Colaborativo Enfrente contribuiu com mais dois, até que o valor de R$ 30 mil fosse alcançado”. Yasmin lembra que, além de ferramenta de captação de recursos, de engajamento e de divulgação das iniciativas (numa campanha que teve mais de 177 mil visualizações) esse formato de financiamento coletivo tem a virtude de legitimar os projetos participantes, pois, além do dinheiro, o fundo dá seu endosso às iniciativas. Os mais de 11 mil benfeitores, predominantemente pessoas físicas, em sua maioria mulheres, colaboraram com valores entre R$ 10 e R$ 22 mil. As doações vieram de todos os cantos do Brasil e, ainda, de outros 36 países. 

Ação robusta e rápida
“Foi nossa primeira experiência com esse formato”, conta o sociólogo Guiné Silva, coordenador de fomento da Fundação Tide Setúbal, instituição que liderou a criação do fundo. ”Funcionou muito bem, pois em março, quando explodiu a pandemia, precisávamos de uma ação robusta e rápida”. Lançado em agosto de 2019 com o objetivo de  potencializar ações na periferia e conhecer novas experiências, também fora de São Paulo, o Matchfunding Enfrente contemplaria inicialmente 15 projetos. Diante das urgências, o número de iniciativas foi multiplicado, assim como o fundo para financiá-las. “O Itaú Social foi o primeiro a fechar, confirmando sua participação”, diz Guiné. Também colaboraram com o fundo os institutos Galo da Manhã,  Humanize, GPA e Arapyaú, além das fundações José Luiz Egydio Setúbal,  FEAC e Arymax.

Curadoria queimou etapas
Em 27 de março, duas semanas depois de declarada a pandemia, foi lançada a nova chamada. Das 790 propostas enviadas, 290 foram selecionadas. Foi uma corrida contra o tempo. “A ideia era dar uma resposta rápida e garantir agilidade ao pagamento dos projetos”. Um desafio e tanto, pois muitas iniciativas são coletivos não institucionalizados, que não tem CNPJ. Com respaldo jurídico para fazer doações a pessoas físicas, o processo foi agilizado e, uma vez batida a meta de captação, o pagamento era feito em oito dias. “O que também nos ajudou a queimar etapas foi a participação dos parceiros da rede periférica, os curadores do projeto”, conta Guiné. “Trabalhamos num mesmo drive e, à medida em que os parceiros indicavam lideranças e iniciativas, nossa equipe interna avaliava e já entrava em contato com elas, reforçando o convite para fazerem a inscrição na plataforma”. A lista de curadores inclui A Banca, Feira Preta, Observatório de Favelas, Uneafro Brasil, Instituto Maria e João Aleixo, Nova Frente Negra Brasileira, Rede Jornalistas das Periferias, Projeto Ruas, Agência Popular Solano Trindade, Artemísia, Firgun, Aventura de Construir, Fundo Brasil e Confederação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas. 

Dados de 24/08/2020. Fonte: Benfeitoria


Nova edição é para projetos de longa duração

Com a curadoria dessas organizações, chegou-se aos projetos que cobrem quatro grandes áreas: campanhas de conscientização sobre o vírus, iniciativas de apoio a empreendimentos da periferia, iniciativas de cuidados com a saúde e, na maior parte, iniciativas de distribuição de donativos. Passada essa fase focada na emergência da pandemia, o Matchfundind Enfrente lançou uma nova edição em julho, desta vez para projetos de mais longa duração e escaláveis, que podem ser inscritos até 30 de agosto. Com foco em ideias que tenham impacto urbano social e econômico, três anos de duração e meta anual de 90 mil reais por ano para cada uma das 15 iniciativas a serem financiadas, agora o Enfrente planeja mobilizar R$ 4 milhões. 

Diversidade de olhares
O Nutrição para Imaginação, que distribui a caixa de que falamos no início deste texto, é muito simbólico da diversidade e sensibilidade de olhares representados no conjunto de propostas da fase emergencial. Afinal, num cenário de pandemia, dificuldades financeiras, aprofundamento das desigualdades sociais, fome e mortes, não era necessariamente óbvio que alguém se lembrasse de nutrir a criatividade das crianças. Mas, felizmente, o coletivo de mães e educadoras se lembrou que o cuidado com brincar, assim como a cesta básica, também deve ser multiplicado. “Com o material da caixa, minha filha está descobrindo novas habilidades”, diz Laura, mãe de Maria Eduarda. Hoje, há quase cinco meses sem sair de casa, a garota usa os dedoches para criar suas próprias histórias, que conta, entusiasmada, para os amiguinhos pela internet.

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