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Polo de desenvolvimento educacional

A lição deixada por Zilda Arns

A doutora Zilda Arns, que perdeu a vida recentemente no trágico terremoto no Haiti, nos deixou uma importante lição no campo social com os trabalhos desenvolvidos pela Pastoral da Criança, entidade fundada por ela em 1983. A partir de um modelo simples e eficaz, a Pastoral conseguiu derrubar os índices de mortalidade e desnutrição infantil no país, ao adotar medidas como a difusão do soro caseiro no combate à diarréia e à desidratação e o aproveitamento de sobras de alimentos capazes de levar saúde e reduzir drasticamente a desnutrição de milhares de crianças. A mortalidade infantil nas comunidades alcançadas pelos voluntários da Pastoral da Criança é de 11 óbitos no primeiro ano de vida para cada 1.000 nascidos vivos. Nos outros locais, esse índice chega a 22,5 para cada 1.000 nascidos vivos.

Apoiada por uma rede estruturada de voluntários, a Pastoral transformou-se em referência não só no Brasil, onde atende mais de 1,8 milhão de crianças e 95 mil gestantes em mais de 42 mil comunidades de 4.066 municípios. A expertise da instituição chegou a países da América Latina e África graças ao vigor da doutora Zilda na difusão de seu modelo em regiões pobres do mundo. Criada em 1996, a Pastoral da Criança Internacional atua em outros 19 países, onde salvou pelo menos 200 mil bebês.

Outra lição fundamental deixada por Zilda Arns se refere ao processo de conscientização das famílias, especialmente das mulheres, para a construção de um novo ambiente de cidadania nas comunidades pobres. Atualmente, a Pastoral conta com uma rede formada por 260 mil voluntários, sendo 92% de mulheres que vão a campo para levar informação e orientar as famílias das classes menos favorecidas. Em sua maioria, as voluntárias são da própria comunidade em que atuam, por isso conhecem os problemas que estão ao seu redor e têm a legitimidade necessária para passar adiante o conhecimento acumulado. As mulheres aprendem umas com as outras, recebem capacitação e angariam novas parcerias pelo caminho. Esse trabalho em rede talvez seja o melhor exemplo de voluntariado de que se tem notícia no país.

A Pastoral da Criança revolucionou a questão da saúde infantil no Brasil, ao mobilizar voluntários para visitar as casas das famílias pobres e averiguar o bem-estar de crianças e gestantes, antecipando uma prática que seria adotada pelo Ministério da Saúde uma década depois. Hoje os voluntários da Pastoral fazem um trabalho em paralelo com a atividade dos 300 mil agentes do Ministério da Saúde.

A fundadora da Pastoral procurou estabelecer ao longo dos anos parcerias com governo, sociedade civil e setor privado, sempre em busca de resultados cada vez melhores. A Fundação Itaú Social estabeleceu parceria com a Pastoral da Criança, em 2006, por meio do Programa Itaú Criança com uma campanha de arrecadação de livros infantis. Foram dois milhões de títulos doados por clientes, comunidade, empresas parceiras e funcionários, em toda a rede de agências Itaú. Na ocasião, os livros foram encaminhados para a Pastoral da Criança e passaram a integrar o acervo do programa Brinquedos e Brincadeiras na Comunidade, por meio do qual a Pastoral realiza ações educativas com o objetivo de desenvolver a aprendizagem das crianças.

A base do modelo criado e defendido por Zilda Arns, pautado por medidas simples e eficazes e pela busca constante de novas parcerias e alianças que agreguem valor aos trabalhos desenvolvidos, deve servir de inspiração para novas ideias que contribuam para a melhoria das condições de vida das famílias pobres.