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Dez perguntas para

“A imaginação não tem limites”

Adulta com coração de criança, a ilustradora Bruna Assis Brasil fala sobre o potencial transformador da arte e conta por que escolheu trabalhar com o público infantil


Capa de Enquanto o almoço não fica pronto…: “Sonia apenas sugeriu que a família retratada fosse negra. Foi uma colaboração maravilhosa, fundamental para a criação da história. De resto, fiquei totalmente livre e foi um livro muito gostoso de ilustrar”. Imagem: Reprodução

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Lauro de Freitas (BA).

Bruna é apaixonada por livros desde criança. “Escritora”, provavelmente, seria uma das primeiras respostas para a clássica questão “O que você quer ser quando crescer?”. Uma outra possibilidade era a pergunta ficar sem resposta, já que a pequena era um tanto introspectiva. Gostava mesmo era de passar o dia lendo livros ou ouvindo as histórias de seu avô. Às vezes, criava e desenhava as suas próprias histórias em quadrinhos, mas não mostrava a ninguém. Anos depois, uma versão menos tímida de Bruna Assis Brasil continua a desenhar histórias.

Na literatura infantil, o elemento visual é fundamental para a narrativa. Texto e imagem, juntos, criam o universo da história para que a criança leitora se sinta livre para imaginar. “Cada uma das partes, verbal e visual, tem vida própria, ao mesmo tempo que estão alinhadas numa mesma história”, pontua. Bruna é coautora do livro Enquanto o almoço não fica pronto…, escrito por Sonia Rosa. A obra conta a história de uma família negra que, em casa, aguarda o momento da refeição. A identidade visual do livro mistura desenhos e fotografias, técnica bastante utilizada por Bruna em seu trabalho.

Esse título infantil foi selecionado pelo programa Leia para uma Criança, que em 2020 propôs um edital para que os livros da edição 2021 considerassem a representatividade dos povos negros e indígenas. O outro título escolhido pelo edital foi Os olhos do jaguar, de Yaguarê Yamã, ilustrado pela artista pernambucana Rosinha. A obra conta a história de um jaguar, um tatu e um passarinho. É uma dessas histórias que Yamã conheceu na infância e que agora, seguindo a tradição dos povos originários, transmite o ensinamento a crianças, pais e educadores.

Cerca de 1 milhão de exemplares de cada uma das obras foram distribuídos gratuitamente a organizações da sociedade civil, bibliotecas comunitárias e órgãos públicos, com foco em municípios com altos índices de vulnerabilidade social. O programa também disponibiliza versões audiovisuais e em braile das obras selecionadas. A seguir, a conversa com a ilustradora Bruna Assis Brasil sobre Enquanto o almoço não fica pronto…, a sua relação com o público infantil, a literatura e o desenho.

Imagens do processo de desenho, colagem e aplicação de cor nas ilustrações de Enquanto o almoço não fica pronto…: “Faço um ‘lápis’ do livro todo e posiciono o texto com as ilustrações”, conta Bruna Assis Brasil.

NNotícias da Educação — Como você começou a desenhar?

BBruna Assis Brasil — Sempre gostei muito de desenhar. Desde pequena, criava meus próprios livrinhos infantis. Na escola, as aulas de artes eram as minhas preferidas. Nunca tive nenhum incentivo muito especial nesse sentido; foi algo que veio de mim mesma e levei comigo da infância para a vida adulta.

NPor que ilustrar para o público infantil?

BIlustrar para crianças não tem limites. É muito diferente de ilustrar para adultos. O universo infantil sempre me chamou a atenção porque eu poderia criar o que a minha imaginação permitisse, sem necessariamente ficar presa a determinada realidade. Minha pós-graduação foi em ilustração geral, não infantil. Lembro que eu tentava fazer algo mais adulto e acabava com carinha de criança. Tentava fugir do infantil, mas não tinha jeito — era isso que me chamava. Depois que comecei minha carreira, esse direcionamento para o público infantil acabou surgindo naturalmente.

“A imaginação de um novo universo pela primeira vez é meu momento preferido quando estou criando um livro.

NQual o processo que se dá desde o momento em que você recebe uma proposta de livro para ilustrar até a publicação da obra?

BRecebo o manuscrito da editora e, a partir daí, crio o projeto gráfico. Penso na carinha das ilustrações, crio os personagens, um primeiro cenário… Penso como vai se parecer aquela história numa primeira ilustração. Esse momento é de muita pesquisa. Tenho uma biblioteca enorme em casa e sempre recorro a ela para me inspirar. Acho que a imaginação desse novo universo pela primeira vez é meu momento preferido quando estou criando um livro. 
Definida a “cara” do livro, sigo para os esboços das ilustrações e para a diagramação do texto inteiro. Faço um “lápis” do livro todo e posiciono o texto com as ilustrações. A editora, então, aprova essa parte e, em seguida, faço as finalizações, ou seja, ponho cor em todo aquele lápis. Com o livro pronto, a editora faz uma revisão minuciosa e ajustamos uma coisa ou outra. Essa é a última etapa. Na sequência, a editora cuida do processo de impressão e publicação.

A ilustradora Bruna Assis Brasil: “Acredito muito na importância da literatura infantil para a construção de uma sociedade mais consciente, seja na questão racial, no feminismo ou em outras lutas sociais.” Foto: Arquivo pessoal.

NQual a parte mais desafiadora do seu trabalho?

BAlinhar o que julgo importante no meu trabalho com a expectativa de quem está do outro lado, seja o autor ou autora, seja a editora. Ilustrar é algo muito subjetivo e por isso acaba sendo uma atividade que está intimamente ligada a quem sou. É um trabalho que transmite meus valores e aquilo em que acredito. Quero me sentir representada em cada pequeno trabalho que faço.

“As ilustrações contam a sua própria história e têm sua própria narrativa, que caminha lado a lado com o texto.”

NQuais as suas estratégias para se manter antenada ao universo infantil?

BSou uma adulta com coração de criança. Verdadeiramente apaixonada pelo universo infantil, não apenas pela literatura, mas pelos brinquedos, pelos filmes, pela estética. Tenho 35 anos e um dos meus passatempos preferidos é montar Lego e construir casinhas em miniatura. Então é absolutamente natural para mim estar sempre ligada a esse universo. Não apenas pela minha profissão, mas pela pessoa que sou.

NNa literatura infantil, as ilustrações ajudam o leitor mirim a imaginar o universo da narrativa. Como se deu a sua relação com a escritora Sonia Rosa para a consonância entre texto e imagem na construção do livro Enquanto o almoço não fica pronto…? Os autores costumam opinar nas ilustrações?

BNormalmente, os autores são completamente abertos à minha criação. Acredito no papel do ilustrador como coautor da obra, por isso prezo muito pela minha liberdade no processo de ilustração. As ilustrações não são apenas ferramentas que repetem de forma visual o que está na palavra escrita do texto. As ilustrações contam a sua própria história e têm sua própria narrativa, que caminha lado a lado com o texto.
As sugestões dos autores são sempre bem-vindas, mas geralmente são mais sutis e não costumam interferir muito no meu processo. Acho isso fundamental para que eu consiga desenvolver bem o meu trabalho. No caso da Sonia, ela apenas sugeriu que a família retratada fosse negra. Foi uma colaboração maravilhosa, determinante para a criação da história. De resto, fiquei totalmente livre e foi um livro muito gostoso de ilustrar.

NA autora Sonia Rosa disse gostar da ludicidade das suas ilustrações. Essa é a principal característica do seu trabalho? 

BA ludicidade vem exatamente dessa vida própria que a ilustração desenvolve no decorrer da história. Quando vou ilustrar uma página de um livro, leio o texto dessa página e penso: “O que a minha ilustração pode acrescentar a esse texto?” ou “Como posso deixar essa página mais divertida, alegre, triste ou seja-lá-o-que-esse-texto-quer-transmitir?”. É aí que faço aquela viagem e a ilustração entra para deixar o texto mais rico. Para acrescentar e fazer a história crescer. É o lúdico que me dá essa possibilidade. 

Ilustração de Bruna Assis Brasil para Quinzinho, de Luciano Ramos: técnica mistura desenhos e fotos. Imagem: Instagram @brunaassisbrasil

NAs ilustrações de Enquanto o almoço não fica pronto… mesclam desenhos com fotografias, numa espécie de colagem. O que a levou a essa escolha?

BNa verdade, eu vim da fotografia. Antes de me dar conta de que ilustração era uma profissão possível, cursei design gráfico e me interessei muito por fotografia, que era a forma mais próxima de narrativa visual no contexto em que eu me encontrava. Depois de formada, estava desempregada e, por pura curiosidade, comecei a trabalhar numa história que meu namorado tinha escrito na época. Peguei tudo o que eu sabia de fotografia e fui tentar fazer as ilustrações do livro. Fui experimentando, inventando de ser ilustradora, e a técnica acabou ficando. Acho que essa técnica mista, de colagens mescladas com o meu traço, me define como ilustradora.

NComo foi para você, mulher branca, ilustrar uma história sobre o cotidiano de uma família negra?

BNo decorrer da minha carreira, a preocupação em retratar a diversidade nas minhas ilustrações foi crescendo. Hoje, não ilustro um livro sem colocar essa questão em evidência de alguma forma. Acredito muito na importância da literatura infantil para a construção de uma sociedade mais consciente, seja na questão racial, no feminismo ou em outras lutas sociais. E sou muito grata ao meu trabalho por me possibilitar fazer a diferença nesse sentido.

Capa de livro do quadrinista, professor e pesquisador de arte afro-brasileira Marcelo D’Salete: premiado autor que Bruna Assis Brasil admira. Imagem: Reprodução

NA ilustração ainda é um mercado com poucas pessoas negras em evidência. Você conhece muitos ilustradores/as negros/as? A que você atribui essa baixa representatividade?

BSou uma grande fã dos ilustradores Marcelo D’Salete e Jefferson Costa, que trabalham principalmente com quadrinhos. Infelizmente, vivemos em um país ainda completamente racista e desigual. A literatura infantil vem abrindo os olhos para isso. Cada vez mais vemos crianças negras como protagonistas em livros e histórias, algo que não acontecia antes. Vejo isso como uma grande conquista porque a criança negra precisa se ver representada. Mas ainda há um longo caminho para que essa representatividade consiga alcançar esse mesmo crescimento do outro lado das páginas. A profissão de ilustrador ainda é muito pouco conhecida no Brasil. Temos poucos cursos e pouca literatura sobre isso. Infelizmente, é um problema que afeta ainda mais os artistas e ilustradores de realidades mais vulneráveis.

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