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A força do voluntariado contra a desigualdade

Confira o artigo da gerente de Fomento do Itaú Social, Camila Feldberg, publicado no jornal Correio Braziliense no dia 14 de setembro


O Brasil vive um momento no qual é impossível não se solidarizar com os desafios enfrentados por milhões de pessoas em busca de renda, moradia e alimentação digna. Por seu lado, individual ou coletivamente, cada vez mais brasileiros se voluntariam para apoiar essas famílias por meio de doações ou de ações estruturadas por organizações da sociedade civil.

Nos últimos anos, em razão dos impactos sociais da pandemia da covid-19 e pela falta de acesso da população às políticas públicas, 33,1 milhões de brasileiros não têm o que comer — dados do 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Brasil, divulgado em junho de 2022. Os números são ilustrados pelo forte aumento da população em situação de rua e todo o tipo de precariedade que isso representa.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), também divulgados em junho, mostram que o rendimento mensal domiciliar caiu 6,9%, alcançando a menor marca da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), iniciada em 2012. As ações solidárias não têm a força de mudar o cenário econômico brasileiro, mas conferem um senso de urgência para reduzir os impactos dessa crescente desigualdade social.

No final de agosto, comemoramos o Dia Nacional do Voluntariado para lembrar justamente a importância de olharmos mais para a nossa própria comunidade e buscarmos formas de contribuição efetiva. A pesquisa Voluntariado na Educação, realizada pelo Datafolha em dezembro de 2021 a pedido do Itaú Social, mostrou que quatro a cada 10 brasileiros fizeram alguma ação durante os dois anos da pandemia, e que quase a metade (47%) perceberam que houve um aumento de doações de alimentos e itens básicos.

Apesar dos números indicarem que nove em cada 10 pessoas reconhecem a importância do voluntariado, a realidade é que ainda não existe uma cultura solidária consolidada no país. Uma das razões desse baixo desempenho é que 71% da população têm interesse em praticar ações solidárias, mas a falta de informações impede a atuação mais direta junto à comunidade. Da parcela que nunca praticou voluntariado, 35% citam a falta de oportunidade e 32%, de tempo.

Apesar dessa dificuldade, o Brasil avança para construir uma nação generosa, como podemos acompanhar no surgimento de diversos coletivos culturais, cursinhos populares, grupos de apoio e iniciativas ambientais, esportivas, de proteção aos animais, entre outras.

Essa perspectiva pode ser confirmada com a pesquisa Voluntariado no Brasil 2021, também do pelo Datafolha e do Idis (Instituto para o Desenvolvendo do Investimento Social), com apoio do Itaú Social. O estudo reúne dados sobre voluntariado desde 2001 e mostra que, desde a primeira edição, a prática no país cresceu de 18% para 56%, ou seja, mais da metade dos entrevistados afirmam que realizam ou já realizaram alguma ação solidária.

Outro grande motor que multiplicou as atividades sociais no Brasil foram as empresas. Segundo o estudo, 15% dos voluntários atuam por meio de instituições privadas, sendo que a maioria deles (58%) promove ações com frequência definida. Destes, 68% se dedicam mais de cinco horas por mês, 10 pontos percentuais a mais quando comparado aos voluntários de forma geral (58%). Um exemplo de contribuição neste sentido é a plataforma de voluntariado corporativo Mobiliza, que reúne ações voluntárias promovidas pelos colaboradores do conglomerado Itaú Unibanco em diversas regiões do país.

Para a próxima década, estima-se que cada vez mais empresas promovam ações que agreguem valor e gerem mudanças contínuas, em vez de investirem em projetos focados apenas em atos isolados. Para concretizar essas iniciativas nas comunidades, é comum que esses núcleos de voluntários corporativos se relacionem com organizações da sociedade civil e lideranças locais que vivenciam e convivem com as famílias alcançadas pelos projetos solidários.

Aos poucos, o sentimento de generosidade e a possibilidade de mudança da sociedade vêm contagiando os brasileiros. A premissa de que é possível melhorar as condições de vida da população, em especial a dos mais vulneráveis, tem mobilizado diversas ações Brasil afora. A busca pelos direitos dos cidadãos, na melhoria e acesso de políticas públicas de qualidade, também deve ser o foco do trabalho voluntário e engajar cada vez mais pessoas para a importância de ampliar o acesso às políticas públicas. Quando realizada de forma qualificada e com constância, o voluntariado tem potencial transformador.

*Originalmente publicado no Correio Braziliense no dia 14 de setembro de 2022

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