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Dez perguntas para

“A força coletiva tem muito poder”

Autor que conduziu as oficinas Vivências Literárias fala da importância da escrita que favorece o diálogo, constrói pontes e estreita distâncias


Dez perguntas para
Marcelino Freire
Escritor pernambucano, autor de Contos negreiros, Nossos ossos e Ossos do ofídio, publicados na Argentina, México, França e Portugal, coordena oficinas de criação, como a recente Vivências Literárias, e é o criador do evento Balada Literária

Marcelino Freire: “Descobri que o meu Freire era freiriano. Quero dizer com isso que eu já fazia na prática o que o Paulo Freire diz; essa comunhão, todos no mesmo plano horizontal do olhar. Eu adoro o que não sei e o outro sempre será um mistério”. Foto: Mario Miranda Filho

Por Cristina Ramalho, Rede Galápagos, São Paulo

“O teatro é um terreno baldio para a gente brincar.” Foi a diretora francesa Ariane Mnouchkine, do Théâtre du Soleil, quem disse essa frase, mas poderia ter sido dita por Marcelino Freire, o escritor de Sertânia, Pernambuco, que, na idade em que outros meninos iam para o campinho jogar bola, descobriu a força da palavra pelo teatro. Aos 9 já estava no palco da escola, no Recife. Quando tinha 14, sua primeira peça, O reino dos palhaços, foi encenada. De lá para cá — ele tem 54 anos —, Marcelino escreveu livros de poesia, contos, romances, ganhou muitos prêmios (entre eles um Jabuti, em 2006, por Contos negreiros, e o Machado de Assis, em 2014, pelo romance Nossos ossos), foi publicado em outros países, mas a escrita é desde sempre o pretexto para ele juntar uma turma e armar a brincadeira. “A força coletiva tem muito poder”, ele diz.  

Assim criou, há 16 anos, a Balada Literária, evento apoiado pelo Itaú Social e que reúne, todos os anos, escritores famosos e desconhecidos, bandas de sucesso e anônimas, artistas diversos, uma festa literária que começou em São Paulo e acontece também em Teresina e em Salvador; com a pandemia aconteceu também, virtualmente, em Angola, Moçambique e virão mais países, porque todo mundo é bem-vindo, pode chegar. LGBTQIA+, empoderamento feminino, negritude, todos os temas estão presentes desde a primeira edição da Balada, assim como aparecem em cada um dos seus livros, nos longos papos que ele bate com alunos e alunas nas aulas e mesas de bar e nas suas oficinas, como as Vivências Literárias, uma iniciativa do Itaú Social para a formação de leitores e troca de experiências literárias. A formação on-line com um total de 14 horas de interação foi realizada nos meses de outubro e novembro de 2021.

“Eu quero encontrar pessoas parceiras e parceiros no crime, estamos todos apreendendo.” Sua linguagem é a do diálogo. Deve ao teatro as frases curtas, diretas como socos, e bastante do sentimento de solidariedade. Mistura nos textos ainda a fala cantada da mãe, o jeito das tias, a teimosia pernambucana. O interesse pelas pessoas vem desde menino, quando saía pelas ruas de mãos dadas com a mãe, dando bom-dia, boa-tarde, boa-noite, para quem aparecesse. “O outro é um elemento para a minha escrita, para a minha vida”, ele diz. O brinquedo essencial, para Marcelino Freire, é a palavra. Porque a literatura é como o teatro, é como jogar bola no campinho. É criar um mundo paralelo que faz todo sentido. 

NNotícias da Educação — Você descobriu a força da poesia lendo O bicho, do Manuel Bandeira, que descreve uma cena que é muito comum no Brasil contemporâneo. Quem mais o tocou profundamente na literatura?

MMarcelino Freire — O Manuel Bandeira chegou para mim no momento da minha chegada ao Recife, quando li O bicho no livro de escola do meu irmão mais velho. Na minha rua tinha gente que catava comida no lixo. Na minha cidade, no meu estado, no meu país, eu já via isso, mas não enxergava. O poema me mostrou o óbvio, e depois eu quis enxergar mais coisas e escrever poesia. Lá no Recife eu tive a minha professora de teatro, Ilza Cavalcante, que foi minha professora dos meus 9 aos 19 anos e foi me alimentando de livros, de outros olhares, de outras possibilidades de compreensão do mundo. Tantos escritores que pegaram na nossa mão e nos ajudaram a atravessar a rua… Penso também na minha mãe. O Guimarães Rosa me influenciou tanto quanto a minha mãe. Ela falava cantando. Quando eu escrevo, compactuo com a fala dela, das minhas tias, a fala do sertão pernambucano, a teimosia pernambucana. Tá tudo pendurado no meu verbo. 

“Tem a pessoa que se cansa de só ler texto curto no dia a dia e nas férias abraça um livro. Tem hoje um jornalismo que tem crescido, muito forte, com matérias mais longas, mais profundas, um movimento contrário.”

NSeus textos são um exemplo de concisão. Você ainda criou uma coleção (5 minutinhos) para quem diz que não tem tempo de ler e editou livro (Os cem menores contos brasileiros do século), com 100 contos de até 50 palavras. Mudou a forma de as pessoas lerem? Textos longos, hoje, nem sempre são lidos, tanto na imprensa quanto nas redes sociais. Isso é ruim ou apenas uma nova maneira de ler?

MNão importa o tamanho do texto, mas o que há de profundo nele. Um texto longo pode ser prolixo e não dizer nada; um texto curto pode achar que tá dizendo muito e também ser superficial. Profundidade, visão de mundo, é o que procuro num texto. A concisão sempre esteve presente na literatura mundial, é muito antiga. Na literatura nordestina você vê as quadras, quatro versos que a gente aprende quando é pequeno. A Bíblia é feita de versículos, que são versos pequenos. Qualquer versículo dá um tuíte. É uma maneira de compartilhar aquela origem da palavra; a pessoa decorava frases curtas e passava adiante. Por isso que o Sermão da Montanha é tão picotado, tão editado e tão poético, porque você grava as coisas pela musicalidade que elas têm. Nessas redes sociais cabem perfeitamente essas expressões mais concisas, você quer chamar a atenção em um tuíte, um post no Instagram. Mas sou otimista porque acho que a pessoa começa com um texto curto e vai atrás depois de um texto maior. Tem a pessoa que se cansa de só ler texto curto no dia a dia e nas férias abraça um livro. Tem hoje um jornalismo que tem crescido, muito forte, com matérias mais longas, mais profundas, um movimento contrário. E faz sucesso um calhamaço como um Harry Potter. É sempre uma primeira faísca. Há outras maneiras de ler o mundo, posso ler sem as palavras. Posso ler pela música, pela capoeira, outras maneiras de apreensão do mundo. Tem gente com tanto livro em casa, e é capaz de acreditar que a Terra é plana. Se você encontrar em um corredor dois jovens, um com um livro debaixo do braço e outro com o celular na mão, vai achar que só o que está com o livro é um leitor. Mas o cara com o celular pode estar lendo o mesmo livro que o outro. Hoje tem tantas ferramentas… A poesia tá no Instagram, tá em vídeos, em gente compartilhando leitura.

“A arte entende a coletividade, a força conjunta, por isso que a arte é sempre perseguida nos governos autoritários.”

NEm suas oficinas, nas Vivências Literárias, você é muito acolhedor, compreensivo com as pessoas que chegam com dúvidas, pedem conselhos para os textos. Você cursou letras mas não concluiu. Pensava em ser professor?

MEu fiz letras, mas não tinha muito aquele pique de uma licenciatura mais formal, mais fechada. Sempre tive o interesse na outra pessoa; não é uma coisa que se ensina de cima para baixo. É um encontro de pessoas. Nas minhas oficinas eu quero encontrar pessoas parceiras e parceiros no crime. Quero encontrar gente com quem vou tomar cerveja, eu não tô querendo dizer que sei mais do que ninguém. Estou conversando, sendo um interlocutor e ganhando interlocutores para as minhas questões. Estamos todos apreendendo, não só aprendendo. Isso veio de forma natural pela passagem pelo teatro, pela percepção da minha família ao redor da mesa e também por um contato com o Paulo Freire. Descobri que o meu Freire era freiriano. Quero dizer com isso que eu já fazia na prática o que o Paulo Freire diz: essa comunhão, todos no mesmo plano horizontal do olhar. Eu adoro o que não sei e o outro sempre será um mistério. Uma pessoa que chega à minha oficina chega com um mistério. Esse mistério é milagroso.

NVocê já começou a escrever, criança ainda, na aula de teatro, fazendo texto para o grupo. Como foi parar no teatro tão menino?

MComecei aos nove anos de idade. Já morava no Recife e um dia vi na minha escola aulas de teatro e disse: vou fazer. Vi no teatro a solidariedade, a coletividade, a confiança no outro, na outra. O teatro é um movimento solidário. Atores, diretores, passam um tempão, ensaiam, montam a peça e nunca assistem ao que estão fazendo, a não ser que alguém de fora grave as cenas. Essa entrega da palavra para a plateia, para o público, é uma entrega que eu quero para o meu texto. O teatro é um movimento de entrega, de oferecer ao outro, eu comparo com a casa nordestina. Quando você chega à casa de um nordestino, de uma nordestina, você não sai de lá sem um café. A pessoa pode não ter nada, mas um café ela vai oferecer. O brasileiro como um todo é assim, tem a vontade de receber bem as pessoas. O que é preservado ali no teatro fica para a vida toda. É um espaço para a gente entrar no jogo e revela a nossa força, que é muito maior do que querem nos dizer os que acham que não. Nós temos força. A arte entende essa coletividade, a força conjunta, por isso que a arte é sempre perseguida nos governos autoritários. A força coletiva tem muito poder.

Marcelino Freire na abertura da Balada Literária 2021: “O alcance remoto é muito maior, e a plateia virtual também é mais plural, então essas duas baladas pandêmicas nos ajudaram a perceber um movimento ainda mais aberto e solidário Foto: site Balada Literária

“O outro é um elemento para a minha escrita, para a minha vida. Tem um poema bem curtinho do poeta Francisco Alvim que diz assim: ‘O ser humano é o seguinte’. E acabou o poema. O seguinte tem muitas interpretações.”

NVocê sempre teve isso de se interessar pelo coletivo, de ser atento aos outros, algo tão presente nos seus livros, nos eventos literários que você cria?

MDesde muito pequeno eu me lembro de andar com minha mãe na rua dando bom-dia, boa-tarde, boa-noite para todo mundo. Achavam muito engraçada aquela criança querendo conhecer, olhar para o outro. A gente entra num bar e quer ser servido, não pergunta o nome do garçom, eu não entendo isso. Eu continuo espalhando bom-dia, boa-tarde, boa-noite, falo para o garçom, para o cobrador de ônibus. Não tô dizendo que sou uma pessoa extraordinária, mas me interesso pelas pessoas. O outro é um elemento para a minha escrita, para a minha vida. Tem um poema bem curtinho de um poeta de 83 anos chamado Francisco Alvim (ele mora em Brasília e já veio para a Balada Literária) que diz assim: “O ser humano é o seguinte”. E acabou o poema. O seguinte tem muitas interpretações. Ele não completa porque não tem como definir o ser humano. É muito amplo. Podemos ver de outro ângulo: o ser humano é o seguinte, é o próximo. Se a gente acreditar na humanidade do outro, a gente vai acreditar na nossa humanidade. E tem ainda outra leitura: a humanidade não deu certo. Então o ser humano vai ser o seguinte, outra geração, num outro planeta.

“A literatura não é finança, é a descoberta da extensão do seu corpo.”

NTem crescido o número de cursos de escrita criativa. As pessoas estão precisando se expressar mais, talvez como efeito da pandemia? Ou é um novo filão por causa de uma questão financeira?

MQuem pensa no filão financeiro já está equivocado. Vejo alguns cursos sendo oferecidos nas redes, venha fazer sucesso, vender livros. Mas a literatura não é finança; é a descoberta da extensão do seu corpo. Não tô dizendo que o meu curso é melhor que os outros, de jeito nenhum. Mas não há uma receita, a gente quer ver o processo, é tão lindo ver o processo. Ele me ajuda nos meus próprios entraves, quero encontrar parceiros para eu não me sentir tão sozinho. Gosto muito de encontrar pessoas, fazer esses laços. O que eu vejo é que alguns cursos têm um apelo comercial. Se a pessoa acredita, que faça e seja feliz. Não é dinheiro que eu procuro. Agora, as pessoas têm razões diferentes. Tem gente que vai às minhas oficinas para ler melhor, tem gente que vai para conhecer pessoas. Agora tem gente que só quer publicar, não quer escrever. Tem gente que quer escrever, não quer ler. Tem gente que diz que parou nos clássicos. Nas minhas oficinas a primeira coisa que uma pessoa recebe é um padrinho ou uma madrinha. A gente faz um sorteio com nomes de escritores, cantores, dançarinos, pessoas que já morreram, pessoas que estão aí, africanos, latinos, LGBTQIA+, travestis que publicaram seus livros. São 20 alunos e cada um recebe no sorteio um padrinho ou madrinha e tem de procurar saber quem é essa pessoa e escrever texto a respeito. Cada pessoa vai conhecer, então, a história do seu padrinho ou madrinha e de mais 19. É uma troca muito rica. 

“A função da Balada Literária é fazer pontes, estreitar distâncias, tanto dentro como fora do Brasil. A gente já vem há algum tempo trazendo, por exemplo, autores e autoras africanos e africanas.”

NVocê sempre fala que tem muita preguiça. E para escrever, tem disciplina?

MNenhuma. Faço tudo isso porque não quero fazer nada. Quando acordo, eu gostaria de ficar dormindo. Então tem de fazer alguma coisa, vou lá e faço. Gosto de estar sempre envolvido em uma espécie de mundo paralelo que a literatura me dá porque o mundo real é insuportável. Faço esses projetos para dar uma espécie de sentido à vida porque a vida não tem sentido nenhum. É uma espécie de reinvenção da vida. A vida é muito longa e, se você deixar, é toda coberta de obrigações. Eu vou para um mundo paralelo costurando a possibilidade de existência. Fico nesse movimento para o lado de lá não ganhar a luta. 

NA 16ª edição da Balada Literária, realizada em novembro de 2021, homenageou as escritoras Geni Guimarães e Eliane Potiguara. Qual é a sua avaliação dessa edição?

MFoi emoção pura; estou saindo dela muito energizado. A função da Balada Literária, desde o primeiro ano, é fazer pontes, estreitar distâncias, tanto dentro como fora do Brasil. A gente já vem há algum tempo trazendo, por exemplo, autores e autoras africanos e africanas. A gente já trouxe, no segundo ano da Balada, dois poetas moçambicanos, trouxe alguns africanos e africanas para a Balada de Salvador. Em 2021 a conexão foi com Maputo, em Moçambique, e com Luanda, em Angola. Tem um centro cultural do Brasil em Angola. Como a Balada foi virtual, a gente viu que poderia estreitar ainda mais essa distância. O fato de ter sido um ambiente remoto fez com que a gente cruzasse os caminhos de uma poeta da cena do slam, a Midria, da poesia falada da Zona Leste aqui de São Paulo, com as Mulheres da Palavra, que são um grupo de mulheres que agitam a poesia nas ruas de Angola. Isso é uma coisa linda demais. Quando a gente pensou no nome da Midria e nas Mulheres da Palavra, que são três, eu não sabia, mas elas e a Midria têm a mesma idade. Jovens, muito jovens que já escolhem a poesia para se expressar. Foi muito linda a mediação do professor Caio Carmona, que está em Luanda como professor residente (ele é brasileiro de Minas Gerais), lindo de ver a troca também de bibliotecas comunitárias do Brasil com bibliotecários comunitários lá em Luanda, que é um movimento que tem crescido muito em Angola.

“O próximo homenageado da Balada Literária, em 2022, o mundo conhece, o Brasil todo conhece, é uma verdadeira entidade. Nosso grande homenageado, para abrir essa possibilidade de um abraço coletivo, é o samba.”

NTem projeto novo que deve sair daí?

MAh, não há dúvida. Cada vez mais a nossa conversa será estreita e direta com nossos irmãos africanos e africanas. Em 2022 será uma Balada presencial, mas teremos tantas outras coisas em formato virtual, no sentido de produção de documentários, de perfis, de matérias on-line. Em 2019, quando a Balada também foi no ambiente virtual, isso nos possibilitou convidar uma diretora de cinema para que fizesse um doc sobre a nossa homenageada Geni Guimarães lá em Barra Bonita. A mesma coisa fizemos este ano com um documentário sobre a nossa outra homenageada de 2021, Eliane Potiguara. Em 2022 continuaremos produzindo material para um acervo, assim ninguém precisa assistir ali na hora. As pessoas poderão ver quando quiserem. Para o ano de 2022, o nosso próximo homenageado o mundo conhece, o Brasil todo conhece, é uma verdadeira entidade, que está na dança, no cinema, na fotografia, está na literatura. Nosso grande homenageado, para abrir essa possibilidade de um abraço que a gente quer dar, para fazer um abraço coletivo, é o samba. Ele tem esse sentido agregador, e a gente vai precisar muito disso numa primeira Balada presencial. Uma celebração da vida num ano, 2022, em que estará sendo lembrado o aniversário de 100 anos da Semana de Arte Moderna. Quero saber por que o Pixinguinha não estava na Semana de Arte Moderna. Mostrar que a gente tem uma cultura popular muito antiga, mostrar o nosso pé no solo africano, compreender o samba que une todo mundo e inspira todo mundo. 

NNesses 16 anos, o que mudou na trajetória da Balada?

MCada Balada é muito diferente uma da outra, mas nunca faltaram diversidade e pluralidade. Questões como LGBTQIA+, negritude, empoderamento feminino, sempre estiveram presentes desde o primeiro ano. Desde sempre a Balada estreitou as relações do autor mais consagrado com aquele autor que está começando. Da banda mais anônima à banda mais conhecida. É uma conversa que nós temos com o Brasil plural. Sempre tivemos convidados de Rio Branco, Porto Velho, Teresina, tanto que em 2017 a gente começou a Balada em Teresina, e fazemos a Balada de Salvador desde 2015. Já temos essas três cidades como frente de construção, mas neste ano e no ano passado o ambiente virtual nos possibilitou ter plateia do mundo todo. Antes da pandemia a Balada se concentrava aqui em São Paulo, as pessoas vinham e assistiam aos shows, às palestras, e a gente gastava tanto dinheiro com passagem e hotel que sobrava pouco dinheiro para registrar esses momentos em audiovisual. Tudo bem, vinha gente do Brasil todo, mas o que a gente produzia para deixar para um acervo de consulta perpétua? O alcance remoto é muito maior, e a plateia virtual também é mais plural, então essas duas baladas pandêmicas nos ajudaram a perceber um movimento ainda mais aberto e solidário. Mais democrático.

Pergunta-bônus para Marcelino Freire

M — Eu tenho muitos exemplos para dar, mas lembro com muita esperança e com muito orgulho de uma vez em que eu estava no Centro Cultural b_arco, começando uma nova turma, e um ano antes um amigo meu tinha me dito: “Marcelino, a filha de uma amiga tem uma dificuldade motora, gostaria muito de fazer sua oficina e acho que faria muito bem para ela”. Eu disse claro, já fiz oficinas com pessoas com dificuldades de locomoção, de visão, e eu faço a mesma oficina, do mesmo jeito, sem fazer um tratamento diferenciado. Tenho dificuldade com o lado protetor da palavra inclusão. Quero saber como chegar junto, mas sem que fique nesse campo assistencialista. Vamos compreender juntos. A pessoa tá chegando ali, tem as suas dificuldades, vamos ver como a gente mutuamente se ajuda. Então no dia da oficina chegou a Ana Laura, deitada em uma maca. Ela não veio de cadeira de rodas. Veio com a enfermeira, na maca, um tubo de oxigênio ao lado, ela só consegue movimentar os olhos e um pouquinho da mão. E eu fiz a oficina normalmente, às vezes conversava com ela para perguntar se ela precisava de alguma coisa, se queria que alguém gravasse algo. Alguns dias depois nós íamos ao bar. A gente avisou antes no bar que teria uma pessoa que precisaria de um espaço maior, só isso. E ela foi. Isso foi um aprendizado para todos e todas que estavam lá. Ela estava inserida porque estávamos todos juntos, aprendendo juntos. Isso me emociona muito porque depois que ela fez a oficina comigo, soltou o texto dela. Ela escreveu poesias, pensa em escrever um livro. Naquele mesmo ano, 2018, fiz o lançamento do meu livro, e a Ana Laura e a família dela foram lá. Ela foi de maca. Isso quem nos ensina é a literatura.

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