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A educação no centro das pautas

Livro-reportagem retrata a desigualdade no ensino médio na cidade de São Paulo e evidencia importância do apoio ao jornalismo de educação


Por Maggi Krause, Rede Galápagos, São Paulo

O que separa a aluna Carolina Ribeiro de Oliveira da jornalista Carolina Riveira é uma trajetória que começou na escola pública no ensino fundamental, passou por bolsa de estudos em um colégio particular nos dois últimos anos do ensino médio ainda em Pindamonhangaba, no interior paulista, o temido vestibular da Fuvest, o curso de jornalismo na Universidade de São Paulo (USP) e, enfim, a carreira como repórter da revista Exame. No meio desse caminho, ela defendeu o trabalho de conclusão de curso (TCC), o livro-reportagem De Pinheiros a Itaquera: as políticas para o ensino médio público a partir de São Paulo, no final de 2018. O TCC foi vencedor da categoria Estudante do 1º Edital de Jornalismo de Educação, de 2019. O edital, que acaba de lançar sua 2ª edição, é uma iniciativa da Jeduca (Associação de Jornalistas de Educação) e do Itaú Social para estimular a produção de material jornalístico de qualidade sobre temas relevantes da educação e se divide em duas categorias. Na Jornalista, cada um dos oito projetos de profissionais de cinco estados brasileiros recebeu financiamento de R$ 8 mil, gerando reportagens publicadas no primeiro semestre de 2020. 

Já na categoria Estudante foram selecionados três vencedores entre 212 trabalhos de formandos de jornalismo em 2017, 2018 e 2019, de 22 unidades da federação. Eles receberam R$ 3 mil (primeira colocada), R$ 2 mil (segunda) e R$ 1 mil (terceiro). “Tinha de tudo, grandes reportagens, webséries, podcasts, produções em várias mídias e sobre todas as etapas da educação. Fiquei impressionado com a qualidade e surpreendido com a presença do tema, pois não existe disciplina sobre educação no curso de jornalismo”, relata um dos jurados, o jornalista Rodrigo Ratier, doutor em educação pela USP e professor de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Uma das novidades do edital de 2020 é que serão aceitas monografias. As inscrições vão até 15 de outubro para jornalistas e até 31 de janeiro de 2021 na categoria Estudante.

Carolina Ribeiro de Oliveira no ensino fundamental na escola pública, em Pindamonhangaba. Fotos: Arquivo pessoal

Como a jornalista que assina Carolina Riveira, em São Paulo: “O ensino médio é um divisor de águas para o jovem de classe C e D e determina suas chances de futuro”

Segundo Ratier, a repetição da premiação leva a um ciclo virtuoso: os trabalhos selecionados servem de modelo e mostram que reportar sobre educação exige conhecimentos específicos como entender de financiamento, gestão pública, currículo e didática. “O livro-reportagem de Carolina agregou informações complexas, apuração primorosa em diálogo com fontes especialistas e exibiu qualidade em conteúdo e forma, com boa diagramação, mapas e tabelas. Deu para perceber um olhar de quem conhece educação e sabe que por trás de uma média se escondem realidades diferentes”, elogia o professor.

Uma etapa conturbada
Não foi à toa a escolha de Carolina pela temática do ensino médio, um dos maiores gargalos da educação no Brasil. Seu livro-reportagem radiografa acesso e permanência na escola, índices de aprendizagem, financiamento da educação, primeiras propostas de reforma… “O ensino médio é um divisor de águas para o jovem de classe C e D e determina suas chances de futuro. Na escola pública, se ele não abandona porque precisa trabalhar, não é preparado para o Enem ou os vestibulares”, descreve a jornalista. Ainda criança em Pindamonhangaba, ela viu a mãe, que cursou apenas até a 4ª série e foi grande incentivadora de seus estudos, buscar uma vaga em escola pública do centro da cidade, “que é melhorzinha, pois a estadual do bairro é fraca”. Carolina seguiu nela do 6º ano até 1º do médio. Sonhava com a faculdade, mas soube que os alunos das particulares estudavam até 13 horas por dia para o Enem e ela sequer tinha aulas de física. Com apoio de um professor, conseguiu uma bolsa de estudos em um colégio privado e, dois anos depois, passou no vestibular da USP. “Quando cheguei a São Paulo, em 2014, trouxe comigo essa inquietação, queria entender se a metrópole seguia a mesma lógica, se as escolas do centro também seriam melhores.”

Estudantes fazem manifestação por melhorias na educação pública em São Paulo: ensino médio é divisor de águas para os alunos das classes menos favorecidas Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

No trabalho de conclusão de curso, Carolina investigou os microdados do Inep, que trazem notas do Enem por escola, localizou-as nos bairros, cruzou com o nível socioeconômico dos alunos e descobriu muita desigualdade. “Percebi que as escolas públicas de excelência recebem crianças de outros bairros e que se uma família mora perto do centro ou na zona oeste, tem renda melhor e isso aumenta o desempenho da criança na escola”, relata. Para ela, foi chocante notar o quanto as escolas estaduais ficavam para trás no ranking, e não só em relação às particulares. Entre as públicas, as 40 ETECs (Escolas Técnicas Estaduais) pontuam como centros de excelência, seguidas pela escola federal e a Escola de Aplicação da USP. A primeira estadual pública, que fica na Lapa, figura na posição 501 entre as 1383 escolas de ensino médio que participaram do Enem em 2017 (o Instituto Federal de São Paulo, no Mooca, foi o 67º da lista!). Nos cruzamentos feitos pela jornalista, nota-se que nas escolas com melhor pontuação, mesmo entre as estaduais, os estudantes têm nível socioeconômico mais alto. “As escolas de São Paulo retratam a desigualdade não só da cidade, mas do país. Muitas unidades de periferia não têm biblioteca ou quadra esportiva, assim como falta acesso a atividades culturais, cinema, teatro. As condições do bairro onde a pessoa vive também se refletem na qualidade da escola”, afirma Roberto Catelli Jr., coordenador da organização da sociedade civil (OSC) Ação Educativa e do curso de educação profissional do Colégio Santa Cruz.

Na cidade de São Paulo, entre os jovens de 15 a 17 anos — idade em que deveriam estar no ensino médio — 31% ainda não terminaram o ensino fundamental, o que indica que estão atrasados na escola ou nem mesmo matriculados. Na população entre 18 e 20 anos, metade ainda não terminou o ensino médio.

Fonte: TCC De Pinheiros a Itaquera – dados: Inep e Pnad 2017

O livro-reportagem de Carolina explica que na rede estadual paulista, o aluno tem matrícula garantida na escola perto de sua casa, o que faz unidades em bairros mais pobres receberem crianças também pobres. Alunos mais engajados ou cujos pais são mais atentos à educação costumam tentar matricular-se em uma escola melhor, não só de áreas centrais, mas de outras mais ricas na região. Assim, o Tatuapé, distrito mais rico da zona leste, tem taxa de frequência líquida de 255% no ensino médio — ou seja, as escolas atendem ao dobro do número de jovens que moram ali. Já Itaquera, bairro mais pobre também na zona leste, tem frequência líquida de 58%. Essas informações fazem parte do levantamento da OSC Ação Educativa, no livro Educação e Desigualdades na Cidade de São Paulo, com os microdados do Censo Escolar de 2011.

Outra questão que influencia o aprendizado dos estudantes é o preparo do professor. “Aquele que tem mais experiência ou boa formação não escolhe trabalhar na escola da periferia, onde em geral estão alocados os iniciantes. Deveria ser o contrário, o profissional precisaria receber um abono salarial para dar aulas em lugares mais complicados”, aponta Catelli Jr. “Não temos política pública coerente e o professor faz parte da precarização da educação, sujeito a salários baixos e a contratos temporários.” O novo currículo do ensino médio, homologado em agosto no estado de São Paulo para ser implantado nos próximos anos, é uma aposta para atrair os jovens fazendo com que optem por itinerários de formação. Mas ele não sana a desigualdade de oportunidades entre os bairros ricos e os menos favorecidos. Enquanto a situação se perpetua, segue a busca por matrículas nas escolas públicas mais concorridas. A cidade continua, como muitas outras, patinando na oferta de um ensino médio equitativo, o que faz do livro-reportagem, lançado ao final de 2018, um retrato ainda muito atual.

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