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“A cada novo desafio, nasce uma nova professora”

Pesquisadora de métodos pedagógicos, a professora Carinna investiu em murais digitais e realidade aumentada como antídoto à evasão durante a pandemia


Carinna vem de uma família de educadores: prioridade é fazer parte da vida dos alunos. Foto: Arquivo pessoal

Depoimento de Carinna Pires Beliene, licenciada e bacharel em ciências biológicas e mestre em saúde coletiva. Professora da EE Ana Tereza Albernaz, em Chapada dos Guimarães (MT)
Por Lidiane Barros, Rede Galápagos, Cuiabá (MT)

Trabalhar com educação básica em escola pública é, para mim, uma escolha do coração. Além de minha mãe, temos outros educadores na família. Mas, olhando para trás, me sinto inspirada pela tia Joneide, a professora que me alfabetizou – e pela lembrança marcante da forma como ela me olhava nos olhos. Tia Joneide  tinha plena consciência de sua responsabilidade. Também quero ter um vínculo com meus alunos, dessa mesma maneira, a ponto de minha imagem ser incorporada à memória deles. É para participar e ajudar na construção dos rumos de futuro deles que hoje dou aulas para estudantes do 8º e 9º ano do fundamental e 1º do ensino médio.

Tornou-se um desafio fazer parte do cotidiano dos alunos em plena pandemia. Como todos, fomos surpreendidos. E tudo o que havíamos planejado teve que ser reeditado para um formato jamais experimentado por nós. O período de adaptação para a nova realidade se estendeu e, enfim, quando fizemos o primeiro encontro virtual, vi ser reduzido a pouco mais de 70 estudantes o grupo de 200 alunos que esperava “encontrar”.

Carinna, com tia Joneide: lugar cativo no álbum de memórias. Foto: Arquivo pessoal

Ainda nas primeiras aulas, fiz o máximo de videochamadas possível, tentando uma aproximação. Queria construir um elo, para que se sentissem seguros. Muitos estavam lidando com o luto. “Acabei de enterrar minha tia”, disse uma aluna. Aquilo me angustiou tanto, sentindo que se estivéssemos juntas, talvez de alguma forma eu poderia ajudá-la a passar por aquele momento.

Também tenho alunos que moram na zona rural, em comunidades no entorno de Chapada dos Guimarães. Antes, ao menos tinham transporte público que garantia a frequência nas aulas. Hoje, o máximo que estamos podendo fazer é entregar uma cartilha produzida por nós e distribuída pela gestão escolar para que tenham o mínimo acesso ao conteúdo condizente com o nível escolar. Além da apostila personalizada, idealizamos novos conteúdos de apoio. Todo trabalho de pesquisa que eu já fazia para tornar as aulas mais atrativas voltou-se agora para os recursos digitais. Conseguimos realizar uma mostra de ciências no ambiente virtual e, em outro momento, desenvolvi um método de avaliação utilizando um aplicativo. Recentemente, comecei a apostar na realidade aumentada.

Recorte do mural criado no aplicativo Padlet: o aluno Pedro surpreendeu a professora Carinna. Foto: Arquivo pessoal

O primeiro aplicativo que apresentei aos alunos para testar suas habilidades foi o Padlet – usado para organizar e expor tarefas em quadros virtuais. Estudei a ferramenta e considero bons os resultados pois os alunos podem fazer upload de vídeos e imagens, ou “upar”, como preferem dizer. Os estudantes que só dispunham de dados móveis encaminharam os arquivos para mim e eu mesma subia o material para o mural. Como enfrentávamos uma outra dura realidade, das queimadas no cerrado que atingiam o entorno da cidade, propus uma campanha de conscientização sobre o tema. Foi então que descobri que o aluno Pedro Neto se expressava muito bem por meio da arte. Ele criou uma paródia, tocando e cantando violão. Quando propus à turma do 9º ano que me enviasse vídeos, percebi que a aluna Myrela dos Anjos Mota tinha pleno domínio do uso da tecnologia e foi ela quem me ensinou a editar vídeos. “Me ensina que quero ser tão boa quanto vocês”, disse a ela.

Como método avaliativo, apostei no Kahoot. Criei jogos que promoveram interatividade em tempo real. Os alunos respondiam a um quiz sobre o conteúdo abordado. Outra aposta foi no aplicativo de realidade aumentada Lions para fazer uma simulação do efeito estufa. Comprei o material por conta própria e disponibilizei o acesso aos aplicativos para todos os alunos.

Carinna usou o Kahoot para avaliação e para revisão do conteúdo: quem acerta mais, assume o pódio. Foto: Arquivo pessoal

Tornar a sala de aula um lugar mais atrativo sempre foi uma motivação para experiências diversas. E que se multiplicaram no período da pandemia.

Em casa, com a filha, Maria Clara, e o marido, Glieber Beliene, também professor: tempo compartilhado entre produção de conteúdo, aulas e a família. Foto: Arquivo pessoal

Em casa, divido meu dia entre estudar e ensinar, além, é claro, de cuidar da minha pequena. Sou mãe da Maria Clara, de 5 anos.

Ainda arranjo um tempinho para dividir essas experiências com outros professores, pois conhecimento a gente compartilha. Faço parte do núcleo mato-grossense da Rede Conectando Saberes, da Fundação Lemann. Temos um grupo no qual dividimos todas as iniciativas que temos desenvolvido e esses métodos que tenho usado já foram incorporados a salas de aula remotas de vários municípios de Mato Grosso. 

Até onde eu conseguir, minha meta é estabelecer contato. Tenho uma responsabilidade e motivação. Também não falta inspiração para aprimorarmos a nossa própria resiliência. Eu me inspiro com os alunos, como no caso de uma estudante que mora na zona rural e que tem usado a apostila padronizada. Fiquei sabendo que uma vez por semana ela sobe o morro da comunidade onde mora, para pegar sinal de celular e baixar as atividades interativas que tenho passado aos alunos. Ver essa dedicação traz motivação. Assim, em meio a dificuldades e aprendizados, percebo que a cada novo desafio nasce uma nova professora Carinna.