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Hoje na escola

Milton Santos, o intelectual nordestino que inspira novos professores

Geógrafo de Sobral (CE) fala da importância de Milton Santos como referência acadêmica e relata a experiência de ter feito curso sobre vida e obra de um dos grandes nomes das ciências humanas


O professor Pedro Henrique: “Entender a realidade que se impõe também é uma ferramenta para modificá-la”. Foto: Arquivo pessoal

Por Giselly Corrêa Barata, Rede Galápagos, Fortaleza (CE)
Depoimento de Pedro Henrique Eleotério de Assis, geógrafo pela Universidade Estadual Vale do Acaraú no Ceará, professor de geografia — e cursista do Polo

Quando levamos mais conteúdos de intelectuais brasileiros para a sala de aula, em especial oriundos de populações historicamente negligenciadas no currículo escolar, também estamos fazendo a nossa parte em dar mais visibilidade à ciência e à pesquisa praticadas no Brasil. É disso que quero falar nestas linhas, assim que fizer uma breve contextualização. Sou cearense de Sobral, município do semiárido cearense, conhecido nacionalmente por ter o melhor acesso e qualidade de educação pública do Brasil, segundo o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Foi nesta cidade que nasci, cresci e resido com muito orgulho. Entrei em sala de aula oficialmente como professor em 2022 no município de Meruoca (CE), a pouco mais de 20 quilômetros de minha terra natal.

O contexto espacial é necessário para entender, também, o porquê de o espaço geográfico sempre ter me despertado tanta curiosidade. Observar o solo, o céu, os animais, o desenvolvimento da cidade e do campo…. De alguma forma tenho buscado, desde cedo, compreendê-los. Esse interesse foi capaz de orientar minha jornada educacional: desde a adolescência, no curso técnico em agroindústria, depois em meio ambiente, ambos no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará, até a graduação em geografia — e hoje no mestrado acadêmico em geografia da Universidade Estadual Vale do Acaraú, aos 26 anos de idade. 

A exemplo do que acontece com muitas pessoas que seguem as ciências humanas, em especial a geografia, minha trajetória acadêmica foi atravessada pela influência do professor Milton Santos, geógrafo brasileiro e nordestino, assim como eu. As contribuições desse cidadão do mundo às epistemologias das ciências geográficas são, até hoje, imensuráveis. Seus mais de 40 livros desenvolvem e enriquecem conceitos que, décadas após as publicações, ainda nos ajudam a compreender aspectos da sociedade contemporânea, como economia e pobreza urbanas, globalização e movimentos sociais, para citar alguns. 

Fiquei muito interessado quando fiquei sabendo do curso Milton Santos: cidadão do mundo e geógrafo das quebradas, disponível no Polo, uma plataforma do Itaú Social. O curso é organizado pelo professor Billy Malachias, que, além de geógrafo, é educador e ativista social e trouxe uma abordagem diferenciada para cada módulo, a começar pela nomenclatura: Milton foi, sim, um geógrafo “das quebradas”. De origem baiana, de Brotas de Macaúbas, para o mundo inteiro. Vale destacar que Milton é, até hoje, o único latino-americano a conquistar o Prêmio Vautrin Lud, uma espécie de Nobel da geografia.

Também gostei da flexibilidade do curso on-line, com duração de dez horas e autoformativo. Mesmo conciliando com os estudos e outras atividades, não demorei mais de uma semana para concluí-lo. Apesar da proposta de ser introdutória, a formação me fez refletir sobre o arcabouço teórico miltoniano, em especial a teoria dos dois circuitos da economia urbana. Esta registra a existência de dois circuitos de produção, distribuição e consumo dos bens e serviços na sociedade urbana. O primeiro é o dito “superior”, constituído de atividades econômicas de grandes dimensões, com processos modernos vinculados à economia de escala global. O segundo, por sua vez, tem influência local e ocorre em pequenas dimensões. Milton defende que ambos são interligados e existem em decorrência da modernização tecnológica. Essa teoria nos ajuda a entender, por exemplo, os fluxos econômicos dos municípios brasileiros, sejam eles de pequeno ou de grande porte.

Além da didática, a organização do curso é um fator de destaque: ao mesmo tempo que apresenta a vida e a produção de Milton Santos, instiga que saibamos mais. Relembrei, em muitos momentos, uma disciplina cursada na graduação em geografia intitulada geografia regional do Brasil, sob supervisão da professora Virgínia Célia Cavalcante de Holanda. Nela, perpassamos aspectos da rede urbana local, regional e nacional e sobre o meio técnico-científico-informacional. Mas, se você ainda não teve contato com o pensamento desse geógrafo, o curso também funciona como um excelente ponto de partida. Muito além do certificado, a sensação ao finalizar a formação é de maior proximidade de Milton Santos. E, quanto mais o conheço, mais o admiro: para além da produção acadêmica, como teórico negro, sua existência e legado reafirmam direitos sociais e étnicos, em uma sociedade que infelizmente permanece sendo racista. 

Mas, afastando-me do pessimismo, entender a realidade que se impõe também é uma ferramenta para modificá-la. Nas palavras de Milton, “o mundo é formado não apenas pelo que já existe, mas pelo que pode efetivamente existir”. E nesse ponto o curso contempla os conceitos de cidadania, os direitos territoriais e os direitos culturais, que muito dialogam com a contemporaneidade social e política global. Isso prova, mais uma vez, que, embora seus estudos tenham sido formulados há décadas, sua autenticidade é presente. Com essa formação recém-concluída, espero em breve colocá-la em prática nas escolas por onde passar e também no ambiente acadêmico. Da mesma forma, desejo que cada vez mais brasileiros se interessem, conheçam e estudem Milton Santos.

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