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Apoio psicológico na escola torna estudantes mais felizes e motivados, aponta pesquisa

Levantamento ouviu responsáveis por 1.800 estudantes de todas as regiões do Brasil; 25% se sentem sobrecarregados e 24% têm medo da reprovação


Professora e crianças da Escola Municipal Paulo Freire em Seabra (BA), em registro feito antes de a Lei nº 13.935 entrar em vigor: apoio psicológico durante toda a trajetória escolar pode promover benefícios a longo prazo. Foto: Manuela Cavadas

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Salvador (BA)

Estudantes que contam com apoio psicológico nas instituições de ensino se sentem mais integrados, mais felizes no dia a dia e mais envolvidos com a escola. Por outro lado, o percentual de estudantes que, de acordo com seus responsáveis, precisam de um acompanhamento psicológico aumentou de 33% para 40% entre maio e dezembro de 2022. Medo da reprovação, perda de interesse pelos estudos, dificuldades de relacionamento com os professores e a sensação de sobrecarga são motivos relatados pelos estudantes para pensar em desistir da escola.

Esses são alguns dos indicadores encontrados pela décima onda da pesquisa Educação na Perspectiva dos Estudantes e Suas Famílias, encomendada ao Datafolha pelo Itaú Social, Fundação Lemann e BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). O levantamento foi realizado em dezembro de 2022, com 1.323 responsáveis por 1.863 estudantes de todas as regiões do país, e retrata a visão das famílias sobre o primeiro ano de retorno presencial das aulas após a pandemia da covid-19.

A reabertura plena das escolas brasileiras ocorreu ao longo do ano de 2022. “Em todas as ondas da pesquisa, buscamos entender e mapear os desafios que os estudantes e suas famílias estavam enfrentando no processo de aprendizagem nesse momento”, explica Esmeralda Macana, especialista de monitoramento e avaliação de programas sociais do Itaú Social. Ela aponta que muitas das crianças vivenciaram desafios em casa, envolvendo perdas familiares e questões socioeconômicas.

De acordo com a especialista, é preciso criar um ambiente acolhedor para que as crianças consigam se readaptar ao ambiente e à rotina escolares da melhor forma. “Falta compreensão de como acontece o desenvolvimento da criança, por parte das escolas, das famílias e do próprio desenho das políticas públicas educacionais”, observa. A pesquisa com os responsáveis apontou que tem aumentado a proporção de estudantes que estão precisando de apoio psicológico e a daqueles que sentem dificuldades de controlar sentimentos como raiva ou frustração. “As escolas precisam estar atentas a isso e entender como adaptar seus processos pedagógicos.”

No Brasil, a presença do serviço de psicologia nas instituições públicas de ensino é obrigatória desde 2019, quando foi sancionada a Lei nº 13.935. Mas, por enquanto, a aplicação dessa norma é incerta e muitas escolas ainda não contam com esse recurso. De acordo com especialistas, o suporte psicológico nos espaços de educação traz benefícios para a sociabilidade dos estudantes, ajuda-os a regular melhor as emoções e dá suporte ao desempenho no aprendizado. As consequências positivas se estendem aos profissionais de educação, que também podem receber suporte quando há um profissional de psicologia na escola.

Para 93% dos responsáveis ouvidos durante a pesquisa, o apoio psicológico oferecido pela instituição de ensino melhorou até mesmo a convivência dos estudantes com os familiares. “Existem atravessamentos para além da escola que podem interferir no desempenho do estudante”, observa a psicóloga educacional Andressa Oliveira, que atua numa creche comunitária localizada na Saramandaia, bairro periférico de Salvador. “A existência desse espaço de acolhimento faz com que ele se sinta mais pertencente ao espaço e consiga se desenvolver melhor dentro e fora da escola.”

Em seu trabalho, Andressa busca estar atenta às questões sociais, que também podem interferir no desenvolvimento. A profissional relata que os responsáveis por crianças rotuladas como neuroatípicas têm mais facilidade em entender a necessidade do suporte psicológico. Entretanto, as famílias daquelas que não têm algum diagnóstico costumam apresentar resistência à intervenção.

Psicólogos educacionais e clínicos compartilham da mesma formação, mas são responsáveis por acompanhamentos diferentes. “O apoio psicológico dentro da escola não tem o viés clínico, portanto não abordamos assuntos que fujam à relação ensino-aprendizagem. Quando identificamos outras demandas, devemos fazer o encaminhamento.” A profissional explica que o cenário ideal é aquele em que os dois tipos de acompanhamento existem e colaboram entre si. “Para isso, precisamos de toda uma rede socioassistencial funcional”, conclui.

É bastante comum que se fale em bullying quando o assunto é a saúde mental dos estudantes. Apesar de esse ser um tema importante, existem muitos outros aspectos a serem considerados dentro desse universo, como autoestima, configuração familiar, fatores socioeconômicos e questões cognitivas, por exemplo. Intelectuais da psicologia e da educação passaram a pensar soluções e colaborar nesse sentido ainda no século 19, em um movimento que ficou conhecido como Escola Nova, ou escolanovismo, e foi trazido para o Brasil por Ruy Barbosa.

“O papel do psicólogo educacional é garantir os direitos do estudante, entendendo em quais recortes ele está inserido”, define Andressa. Para isso, a psicóloga conta que precisou promover um momento de alinhamento de expectativas com os responsáveis pelas crianças atendidas na creche em que trabalha. “Quem chega aqui me vê brincando, e essa é exatamente uma parte fundamental do meu trabalho. Às vezes, há uma dificuldade inicial em entender que brincar é a forma de acessar a criança pequena e de se comunicar com ela.”

Na modalidade de educação em tempo integral, as crianças permanecem na instituição de ensino por um tempo igual ou superior àquele em que ficam em casa — tendo em vista que parte considerável do tempo no lar deve ser reservada ao sono. Sendo assim, a maior parte das experiências vividas por elas durante essa fase da vida acontece no ambiente escolar. “A primeira infância é a etapa em que a criança está construindo sua identidade. É de extrema importância que um profissional de psicologia acompanhe esse momento para um desenvolvimento mais saudável.”

O diagnóstico precoce pode fazer grande diferença na vida de pessoas que têm disfunções ou transtornos cognitivos. “Aumentam as possibilidades de intervenção para o pleno desenvolvimento dessa criança, sempre tendo respeito às suas limitações”, explica Andressa. Ela também demonstra preocupação com as crianças que tiveram etapas importantes do desenvolvimento, como a socialização, atrapalhadas pela pandemia. Com o isolamento, algumas delas passaram muito tempo convivendo apenas com adultos, que não necessariamente tinham recursos, preparo ou mesmo a paciência necessária para lidar com as demandas dessa fase. 

A readaptação à rotina escolar no pós-covid escancara ainda mais a importância da psicologia educacional. “Algumas crianças apresentam resistência para desapegar dos responsáveis. Outras retornaram mais agressivas e querem resolver tudo gritando ou batendo. Elas espelham muito os comportamentos e não se sabe o que vivenciaram em casa”, observa. Não é possível prever que estragos a pandemia pode causar no desenvolvimento das crianças a longo prazo. Quaisquer que sejam eles, só serão evitados ou amenizados com uma atenção adequada à saúde mental dos estudantes, iniciada quanto antes e mantida por quanto tempo for necessário.

Para Esmeralda, especialista do Itaú Social, um adequado apoio psicológico durante toda a trajetória escolar pode promover benefícios a longo prazo. “Cidadãos mais satisfeitos, com maior qualidade de vida e bem-estar emocional. Essas pessoas terão autoestima mais alta, reconhecerão melhor sua identidade e participarão mais ativamente de aspectos decisórios sobre seus territórios”, indica. A especialista conclui dizendo que esses indivíduos tendem a desenvolver melhor suas habilidades socioemocionais, gerindo bem as próprias emoções e sendo adultos mais funcionais e acolhedores.

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