Dez perguntas para
Telma Vinha
Doutora em educação e professora da Faculdade de Educação da Unicamp, coordenadora do Grupo de Estudos “Ética, Diversidade e Democracia” na Escola Pública do Instituto de Estudos Avançados da Unicamp e coordenadora associada do Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação Moral, o Gepem, da Unesp/Unicamp


Por Maggi Krause, Rede Galápagos, São Paulo
Pesquisadores que estudam os recentes ataques com mortos e feridos registrados nas escolas brasileiras chamam atenção para um preocupante dado sobre a escalada da violência: nos últimos 8 meses aconteceram no país dez episódios desse tipo, o mesmo número registrado nos 20 anos anteriores. “Ainda está todo mundo aprendendo a lidar com esse tipo de violência e não construímos protocolos adequados à nossa realidade. É preciso que sejam flexíveis, adaptáveis à situação, ao contexto e às dificuldades da escola.” Quem comenta é Telma Vinha, professora da Faculdade de Educação da Unicamp e coordenadora associada do Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação Moral, o Gepem, da Unesp/Unicamp. Junto com Cleo Garcia, advogada especialista em justiça restaurativa e mestranda da Unicamp, Telma fez um mapeamento dos casos ocorridos desde 2002, com 22 ataques e um total de 35 mortes.
O estudo das especialistas traça um perfil dos autores dos ataques, o que permite reconhecer padrões e motivações. Também olhou para as escolas atingidas — 19 públicas, entre estaduais e municipais, e 4 particulares. Como as realidades escolares são muito distintas, ela conclui que não existe regra; pode acontecer em qualquer escola! Comum mesmo é o impacto na saúde mental das comunidades escolares atacadas dessa forma. “Precisamos não só da prevenção, mas da pós-venção, em especial para minimizar o impacto nas pessoas que estão sofrendo com o ocorrido.”
Telma reforça que o papel da universidade é ajudar instituições e escolas e que, em colaboração, Unicamp, Unesp, Unifesp e Fundação Carlos Chagas desenvolveram o Programa de Convivência Ética e Democrática na Escola e na Sociedade, que está à disposição do MEC. “Ele só precisa ser organizado em uma plataforma, pois nosso sonho é que seja uma trilha educativa oferecida de forma gratuita para gestores e professores”, ressalta. Segundo a especialista, é um modelo de transformação calcado no apoio coletivo e na mudança da forma de falar que vai envolvendo a todos — gestores, docentes, alunos, pais e funcionários. Na entrevista a seguir, ela indica caminhos para diminuir o bullying e os conflitos nas escolas, explica comportamentos dos autores dos ataques, a influência das redes e comenta propostas não efetivas para resolver o problema.
NNotícias da Educação — Uma das perguntas do estudo feito por vocês na Unicamp é: por que a escola? Existe alguma explicação para que seja o alvo desses ataques?
TTelma Vinha — Identificamos duas características principais. A primeira é que os autores tiveram experiências negativas ou de sofrimento na escola, como bullying, humilhação ou exclusão. A segunda é que ataques desse tipo foram potencializados nos últimos anos por causa da articulação em comunidades mórbidas na internet, que fomentam o discurso de ódio. Como o objetivo é causar impacto e comoção, a escola é um alvo que mobiliza a sociedade. Também faz parte da identidade desses indivíduos, e voltar para esse lugar simbólico que causou o sofrimento é quase como gritar “vou mostrar para vocês o que fizeram, quem eu sou e o valor que tenho”.
“A escola precisa ser ainda mais receptiva, agregadora e conectada com o cenário juvenil para prevenir conflitos e agressões. Mas isso não vai acontecer sem o apoio de políticas públicas.”
NO que chama a atenção no perfil dos estudantes e ex-estudantes que cometem esse tipo de crime?
TEles são jovens — o mais novo tinha 10 anos e o mais velho, 25 —, do sexo masculino, brancos e, não por acaso, demonstram gosto pela violência, exibindo armas nas redes sociais. Podem apresentar indícios de transtornos mentais não diagnosticados e não tratados, costumam compartilhar conteúdos misóginos, racistas e machistas, têm um perfil agressivo ou violento. O problema se amplifica quando eles têm relações mais restritas, ficando muito on-line, por exemplo; e muitos deles abandonam a escola. Mas consideramos muito sério quando existe uma tendência e ela é potencializada, o que ocorre quando eles interagem com perfis e fóruns on-line. É urgente que a sociedade se preocupe com isso.
NO que é preciso compreender e alterar?
TAntes de tudo, ficar alerta a esses fóruns extremistas na internet. Pois todos os ataques, desde que começaram no Brasil, em 2002, foram minuciosamente planejados e tinham metas. O ataque de Realengo, ocorrido em 2011, é um marco e ele já indicava a interação com subculturas extremistas. Mas, se antes era preciso entrar na deep web, hoje esse tipo de movimento já ficou banalizado on-line, pois no Twitter há meninos que anunciam esses ataques ou que idolatram autores como os de Columbine, Realengo, Suzano, imitando suas roupas e chamando-os de sanctos (nos games, você é sancto quando causa muitas mortes). Nessas comunidades, em que os participantes se comunicam por meio do aplicativo Discord (largamente utilizado por gamers), os membros se conectam ao incentivar xingamentos, depois crimes reais contra gays, negros e assim por diante. Os líderes são bons de escuta e os meninos sentem-se pertencendo a uma comunidade, coisa que não tinham na escola. É uma turma que odeia em conjunto e induz a buscar notoriedade aos olhos de pares e da imprensa. E não só isso: ajudam no planejamento e indicam o tipo de arma a ser usado.
NComo vê as propostas de intervenção sugeridas por agentes do governo?
TNão há saídas fáceis ou rápidas, não se resolve em ações de curto e médio prazo; demora anos para lidar com isso como sociedade. O Ministério da Justiça criou um canal único de denúncias, o Escola Segura. Mas nós temos bons projetos de lei e marcos regulatórios que estão parados na Câmara e precisamos de urgência na regulação e responsabilização das plataformas. Enquanto isso não acontece, nesses canais se ensina massacre e se incita o ódio. Também defendemos a diminuição de armas de fogo, pois nos 22 ataques que estudamos (até março de 2023), 12 foram realizados com armas de fogo e por esse motivo foram mais letais. A metade dessas armas foi conseguida em casa. Nos últimos anos aumentou muito o número de armas adquiridas legalmente. E há outras propostas que exigem discussão, como o policial armado na escola. Ele pode até trazer sensação de segurança, mas é pouco eficaz. Nos Estados Unidos, onde mais se gasta em câmeras e sistemas de segurança nas escolas, o uso de armas pela polícia ou por civis não impediu o aumento dos massacres.
NQuais são as consequências desse tipo de violência para a comunidade escolar?
TPara além dos traumas, que podem ser individuais e coletivos, as possíveis consequências são o adoecimento físico, o aumento do transtorno mental, do abandono escolar, dos casos de separação e de pedidos de afastamento do trabalho. São as mesmas de um estresse pós-traumático, que, entre as consequências, pode incluir o abuso de álcool e de drogas. Também acontece o efeito cascata, em que uma escola é atingida, depois acontecem violências na mesma comunidade ou região. Ao mesmo tempo, todas as outras são afetadas, pois existe uma comoção em todo o distrito escolar. Também tomam conta o medo e a insegurança. Analisamos o perfil das escolas atacadas e constatamos que havia outras com o clima mais violento e que não foram alvos, então não existe uma regra de “por que esta instituição e não outra”; pode acontecer em qualquer escola.
“Só se muda um discurso extremista dentro de um espaço pedagógico lançando mão de escuta atenta, afeto e troca de ideias. Existem métodos para isso.”
NQuais são as propostas que vocês delinearam para contribuir para a forma como as escolas e a sociedade podem lidar com esses ataques ou evitá-los?
TA contratação de psicólogos nas escolas, que está sendo feita porque é lei, não resolve a questão. Esse profissional não pode atuar ali de maneira clínica e sim educacional: ele atende famílias, lida com problemas de aprendizagem, de convivência. É preciso ampliar e fortalecer os serviços de saúde mental e social, pois está tudo dentro de um contexto. Um dos maiores fatores de desproteção é a insegurança financeira. Então como a gente atende uma menina que fica cuidando dos irmãos mais novos em casa? Não é um psicólogo na escola que vai resolver, e sim uma ampliação de serviços sociais, de saúde e educacionais articulados no território. O que defendemos é a ampliação de programas além da escola, como oficinas artísticas e de esporte. É necessário modificar o significado da escola para essas crianças para que seja positivo. A escola precisa ser ainda mais receptiva, agregadora e conectada com o cenário juvenil para prevenir conflitos e agressões. Mas isso não vai acontecer sem o apoio de políticas públicas, que devem ser capitaneadas pelo MEC. A qualidade da convivência pode ser planejada e a escola é o lugar para estimular a aprendizagem de uma convivência democrática, a aprendizagem da cidadania. Só que isso não é espontâneo: é preciso ajudar os professores a mudar a cultura da escola, fomentando o diálogo e as mediações de conflito, dissolvendo ressentimentos e a predisposição a violências. Só se muda um discurso extremista dentro de um espaço pedagógico lançando mão de escuta atenta, afeto e troca de ideias. Existem métodos para isso, como instituir um sistema de apoio entre pares, ter espaços de escuta dentro das aulas curriculares, organizar círculos de diálogo sobre temas contemporâneos e até fazer um mapeamento das relações na escola (quem cuida de quem e está conectado com quem). Não basta uma conversinha ou uma palestra; são várias estratégias coordenadas que se potencializam.
NSe o bullying é uma das questões que surgem quando se analisam os perfis dos autores desses crimes, em que medida a escola consegue ser mais vigilante e atuar com efetividade na prevenção ao bullying?
TO Brasil tem uma lei muito boa, de 2015, que prevê diagnósticos e a construção de um projeto anti-bullying: a Lei Antibullying, que entrou em vigor em maio de 2018 e instituiu o Programa de Combate à Intimidação Sistemática. Só que a escola ainda está mais preocupada com disciplina do que com bullying. Existem consequências de violências repetidas constantemente e de manifestações de preconceito. Muitas vezes a intimidação é vista como brincadeira, mas, quando se faz um trabalho sobre o tema na escola, ele faz disparar uma consciência e costuma desnaturalizar essas violências. Se você nomeia e explica, a criança começa a entender que o que fazem com ela é bullying. No ambiente formativo, o bullying exige diagnóstico, intervenção, construção coletiva, preparo docente e formação de equipes de ajuda.
“Um bom clima escolar acontece quando a escola funciona como uma comunidade onde as pessoas se apoiam, existem espaços de participação e comissões para ajudar a pensar os problemas.”
NÉ possível identificar casos isolados de crianças e adolescentes que precisam de ajuda, o que futuramente poderia evitar violência contra colegas ou educadores? Quais são os pontos a serem trabalhados na comunidade escolar?
TÉ preciso prestar atenção nos sinais de alerta. No estudo, identificamos um interesse comum dos autores dos ataques por assuntos violentos: o adolescente começa a buscar vídeos com conteúdos misóginos ou nazistas, vai se afastando repentinamente dos outros, fica caladão, tem uma solidão crônica e evita as pessoas que podem ser fatores de proteção (como os pais). Além disso, pode expressar vontades persistentes de ferir outra pessoa ou ferir a si mesmo, mostrar agressividade e se recusar a falar com professoras ou gestoras mulheres. A vida on-line é também a vida deles; por isso, no momento, as escolas devem abrir uma conversa sobre isso com os adolescentes, de maneira sensível e dialogada. Do lado dos pais, quando um filho conta sobre bullying, é essencial não minimizar a situação, mas relatar para a escola para que eles possam lidar.
NQuais são os principais desafios para a melhoria do clima escolar? O que gestores e professores podem fazer para enfrentá-los?
TUm bom clima escolar acontece quando a escola funciona como uma comunidade em que as pessoas se apoiam e se escutam, onde existem espaços de participação e de escuta e comissões para ajudar a pensar suas questões e problemas, sem ser gerida de forma centralizada. É bem importante a escuta de professores e de funcionários, pois as relações de trabalho impactam o clima escolar. São muitos os fatores que interferem no bem-estar, mas é preciso estabelecer relações de confiança e de apoio mútuo, para que todos saibam que os problemas são de todos e precisam ser resolvidos por um coletivo. Nossos grupos de estudos defendem que é possível investir em formação para mudar a qualidade das relações na escola.
“A conexão entre as pessoas acontece durante a convivência. E esse tempo de conexão precisa ser criado, cavado, não vem de graça.”
NA vida on-line está mais interessante do que a off-line para muitos jovens, que enxergam espaços de pertencimento nos grupos das redes sociais. Existe maneira de reverter essa situação, seja no ambiente escolar ou em família?
THoje não existe mais presencial e on-line; para os jovens está tudo misturado e a vida acontece de modo híbrido, por meio de relações líquidas (como o conceito de modernidade do sociólogo Zygmunt Bauman). A educação midiática e a convivência on-line precisam entrar no currículo, que deve abrir espaço para essas questões atuais sempre que necessário. Agora não adianta a escola ou a família tentarem tirar o adolescente de uma vivência on-line e não ter coisas legais para fazer fora do celular ou do game. E é preciso estabelecer limites e até obrigar a desconexão, sem negociação mesmo, estabelecendo momentos sem o celular. Não estou dizendo que é necessário planejar programas caros. É suficiente sair para caminhar, andar no parque, fazer um piquenique, ver uma série na TV em conjunto. A conexão entre as pessoas acontece durante a convivência. E esse tempo de conexão precisa ser criado, cavado, não vem de graça.
Saiba mais
- Somos contra o bullying
Site com propostas e ações desenvolvidas no Brasil para manter o bullying longe das escolas. Autoria do Gepem (Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral).
- Relações Interpessoais — GEPEM
Estudos da linha de pesquisa As relações interpessoais na escola e o desenvolvimento da autonomia moral, sob coordenação da profa. dra. Telma Vinha
- Série de vídeos Reflexões sobre a convivência na escola, GEDDEP, Instituto de Estudos Avançados — Unicamp